Redução de juros é bem-vinda, mas efeitos dependem de avanço em reformas e disciplina do gasto público. Decisão alivia crédito, mas não substitui medidas estruturais para reduzir o custo da economia e melhorar a confiança
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quarta-feira (29), de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 p.p. reforça o movimento de alívio nas condições de crédito e é vista como positiva para famílias e empresas. O corte da Selic tende a reduzir o custo do financiamento, estimular o consumo e dar fôlego ao setor produtivo.
Mas o próprio movimento também evidencia um limite conhecido da política monetária: juros mais baixos, por si só, não resolvem os entraves estruturais da economia brasileira. Para o Banco Central do Brasil, é garantir que o ciclo de queda se sustente. E isso depende do ambiente econômico como um todo — especialmente da condução da política fiscal.
“A redução da Selic precisa ser acompanhada por sinais consistentes de equilíbrio nas contas públicas e avanço em iniciativas que aumentem a eficiência do Estado brasileiro, como a reforma administrativa”, afirma o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros. “Sem isso, o espaço para novos cortes tende a ser limitado, já que o risco fiscal pressiona expectativas de inflação e juros de longo prazo.”
Durante evento realizado na terça-feira (28), o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, Fabio Bentes, explicou que o comportamento do setor público influencia diretamente as decisões privadas. Segundo ele, a ausência de contenção de gastos reduz os incentivos para que famílias e empresas ajustem suas próprias finanças.
Na prática, a dinâmica econômica funciona de forma interdependente: o esforço de ajuste não ocorre de forma isolada. Quando o setor público aumenta despesas ou posterga reformas, o custo do financiamento tende a permanecer elevado, limitando os efeitos da política monetária.
Esse cenário também ajuda a explicar por que o corte de juros, embora necessário, não garante automaticamente melhora rápida das condições financeiras. Fatores como endividamento elevado, baixa produtividade e incertezas fiscais continuam influenciando o comportamento de consumo e investimento.
Mesmo fenômenos recentes — como o avanço das apostas on-line, que vêm sendo apontadas por estudos da Confederação como fator adicional de pressão sobre a renda das famílias — entram nessa equação como elementos que afetam o destino dos recursos na economia, mas não alteram o diagnóstico central: a necessidade de coordenação entre políticas.
Nesse contexto, ganha força a avaliação de que o Brasil precisa avançar em uma agenda mais ampla que inclua reformas administrativas, maior eficiência do gasto público e medidas para reduzir o chamado Custo Brasil. Esses fatores são considerados essenciais para melhorar o ambiente de negócios, elevar a produtividade e permitir uma trajetória sustentável de juros mais baixos.