O envelhecimento da população brasileira (Jornal do Commercio de 24 de janeiro de 2014)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

Há cerca de vinte anos, a prestigiosa revista The Economist publicou matéria de capa com o título “Rugas na Face da Europa”, metáfora sobre o processo de envelhecimento da população do Velho Continente. Nos dias de hoje, forma-se uma tomada de consciência sobre o fato de a dinâmica do envelhecimento da população ter chegado ao Brasil.

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

Há cerca de vinte anos, a prestigiosa revista The Economist publicou matéria de capa com o título “Rugas na Face da Europa”, metáfora sobre o processo de envelhecimento da população do Velho Continente. Nos dias de hoje, forma-se uma tomada de consciência sobre o fato de a dinâmica do envelhecimento da população ter chegado ao Brasil.

No espaço de tempo que separa os censos demográficos de 1950 e 2010, a configuração da pirâmide das idades mudou radicalmente. No transcurso desses sessenta anos, a taxa intercensitária de crescimento da população baixou de 3,5% para 1,4% anuais. A queda drástica observada no ritmo do crescimento populacional tem sua raiz no fato do Brasil passar a ser, desde meados da década de 1960, um país cuja população deixa de ser predominantemente habitante das áreas rurais para inserir-se, de modo crescente, na vida do quadro urbano. Essa migração, modificando comportamentos, teve como consequência a redução simultânea tanto das taxas de fertilidade como as de mortalidade.

A queda dessas duas taxas leva ao fenômeno que os demógrafos chamam de “transição demográfica”, fruto da passagem de um nível de alto crescimento populacional para um nível de baixo crescimento ou mesmo estabilidade no volume da população. De um crescimento de tipo exponencial chega-se, com o passar do tempo, a um patamar logístico que reflete uma dinâmica populacional de equilíbrio.

Na evolução da curva logística, há um segmento da população economicamente ativa que continua, durante certo tempo, décadas talvez, numericamente preponderante no conjunto da população. É assim que surge o conceito de “bônus demográfico” do qual se deve tirar o máximo proveito antes que o futuro venha a validar o título deste artigo.

No olhar sobre o futuro, há de se levar em conta que a expectativa de vida alargou-se extraordinariamente, o que pressupõe um período laboral mais longo. Segundo as tábuas do IBGE, nos dias atuais, em boas condições de higidez, a mulher, ao completar 60 anos, tem uma expectativa de sobrevida de 23,3 anos. Analogamente, para o homem, ao cruzar os 65, essa expectativa alcança 16,3 anos. Esses números frios sugerem que, cedo ou tarde, no Sistema Geral da Seguridade Social, o tempo limite para a aposentadoria terá de ser estendido, retardando o momento da aquisição do direito.

Em termos mais gerais, a modificação das faixas etárias na pirâmide das idades aponta para um novo Mapa Global de Consumo da Nação Brasileira. Alcançado o patamar logístico, a menor demanda por ensino em grau fundamental permitirá, pela folga que surgirá nas necessidades de investimento, deslocá-lo para melhorar a qualidade do que é ministrado e garantir abrangência total para os alunos. E dar mais atenção ao ensino de tecnologias de processo que permitam a uma força de trabalho menos numerosa a garantia da expansão da produção pelo aumento de produtividade, ou seja, da relação trabalho/produto.

Em suma, as formas de demanda por consumo mudam com o envelhecimento da população, induzindo o surgimento de novas atividades e profissões e até mesmo modificando o perfil dos investimentos em capital social. Assim, o “bônus demográfico” contém, em si, um sinal de alerta para um despertar consciente nos governantes e no empresariado, sobre a dinâmica da nossa demografia. Como o problema do envelhecimento de nossa população já está posto, a demandar nova configuração das políticas públicas, a Nação não pode, nem deve ser, mais uma vez, vítima da imprevisão. O longo prazo já está na virada da esquina.

 

Jornal do Commercio, 24 de janeiro de 2014.

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