Durante café da manhã institucional e fazendo alusão à campanha Maio Amarelo, Câmara da CNC destaca impacto social, econômico e humano da prevenção de acidentes de trânsito
A inspeção técnica veicular precisa ser tratada como uma política de preservação da vida e de segurança pública, e não apenas como uma demanda do setor automotivo. Essa foi a principal mensagem defendida pela Câmara Brasileira do Comércio de Peças e Acessórios para Veículos (CBCPAVE) durante café da manhã institucional realizado nesta quarta-feira (27), no Congresso Nacional, com a presença de parlamentares, autoridades e representantes do Sistema Comércio.
O encontro integrou a programação do Maio Amarelo, movimento internacional de conscientização para a redução de acidentes de trânsito, e foi promovido com o apoio da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O coordenador da CBCPAVE e presidente do Sincopeças Brasil, Ranieri Leitão, enfatizou que a discussão sobre inspeção veicular vai além de aspectos técnicos ou econômicos. “Falar sobre inspeção técnica veicular é, antes de tudo, falar sobre vidas. Não se trata de uma pauta apenas do setor automotivo, mas de segurança pública, responsabilidade social, preservação ambiental e respeito à vida humana”, afirmou.
Segundo Leitão, milhares de veículos circulam diariamente no País sem qualquer avaliação periódica mínima das condições de segurança, o que aumenta o risco de acidentes causados por falhas mecânicas evitáveis, como pneus desgastados, problemas no sistema de freios, suspensão comprometida e iluminação inadequada.
“O impacto de um acidente não se limita ao momento da colisão. Ele chega às famílias, ao sistema público de saúde, à previdência e à economia do País”, explicou.

Números que exigem ação
Dados apresentados durante o encontro reforçam a gravidade do problema. Estudo elaborado pela CNC aponta que, somente em 2023, o Brasil registrou 22.034 mortes em acidentes envolvendo veículos automotores. Embora o número seja inferior ao pico histórico de 2014, quando foram registradas 24.138 mortes, o cenário ainda demanda atenção permanente e políticas públicas mais eficazes.
Sob a ótica econômica, o impacto também é expressivo. Considerando o Valor de Vida Estatístico, estimado em R$ 3,03 milhões por vítima, os acidentes de trânsito ocorridos em 2023 representaram um custo aproximado de R$ 66,7 bilhões para a sociedade brasileira.
“São recursos que deixam de ser investidos em áreas essenciais como educação, saúde, infraestrutura e qualidade de vida”, observou o coordenador da CBCPAVE.
Prevenção que salva vidas
Simulações realizadas pela Confederação indicam que a implantação de um programa estruturado de inspeção técnica veicular periódica poderia gerar benefícios superiores aos custos. Considerando um custo médio estimado de R$ 200 por inspeção, com potencial de atendimento a 20 milhões de veículos por ano, o investimento anual seria da ordem de R$ 4 bilhões.
Nesse cenário, uma redução estimada de 5,4% nos acidentes fatais já seria suficiente para justificar economicamente a medida, o que representaria a preservação de cerca de 1.190 vidas em apenas um ano.
“Quando falamos nesses números, deixamos de tratar apenas de estatísticas. Estamos falando de famílias que permaneceriam completas e de histórias que continuariam sendo escritas”, frisou Leitão.

Educação como base da segurança
Falando em nome dos parlamentares presentes, o deputado federal Idilvan Alencar (PSB-CE) destacou que a pauta da segurança viária está diretamente ligada à educação e à formação de cidadãos mais conscientes desde a infância.
“Segurança também é educação. Se não educarmos as crianças para o trânsito, para o meio ambiente e para a responsabilidade coletiva, é muito mais difícil mudar comportamentos na vida adulta”, afirmou.
O parlamentar citou a experiência do Ceará como exemplo de política pública bem-sucedida, ao integrar o setor produtivo à educação profissionalizante. Segundo ele, o estado estruturou uma ampla rede de escolas técnicas, com cursos como o de mecânica automotiva, desenvolvidos em parceria com o setor de autopeças, o que resultou em empregabilidade próxima de 100% dos formandos.
“A educação profissional é uma resposta concreta para dois desafios: formar cidadãos mais conscientes e suprir a falta de mão de obra qualificada que limita o crescimento da indústria”, ressaltou.

Educação e produtividade industrial
Para o diretor executivo da Aliança Aftermarket Automotivo Brasil, Luiz Sergio Alvarenga, o debate reforça que investir em educação profissional deixou de ser apenas uma pauta social e passou a ser uma agenda estratégica de desenvolvimento econômico.
“O setor de autopeças é muito carente de mão de obra qualificada. A experiência do Ceará mostra que educação é fundamental para ter um país melhor e um setor mais forte”, afirmou. Segundo ele, a replicação desse modelo em outros estados pode contribuir diretamente para o aumento da produtividade e do PIB nacional.
Inspeção como segurança pública
O representante do Sindicato das Empresas de Inspeção Veicular e de Equipamentos para Produtos Perigosos do Estado de São Paulo (Sivesp), Cláudio Torelli, reforçou que a inspeção técnica veicular deve ser compreendida como parte da política de segurança pública, especialmente no transporte de cargas perigosas.
“Quando falamos da inspeção de caminhões que transportam combustíveis e produtos químicos, estamos falando de evitar grandes tragédias nas rodovias. O trabalho do inspetor e do mecânico é, na prática, um trabalho de preservação da vida”, destacou.
Conscientização e responsabilidade coletiva
Durante o encontro, o coordenador da CBCPAVE reforçou que a discussão sobre inspeção veicular deve ocorrer com equilíbrio e sensibilidade social, considerando a realidade econômica da população brasileira.
“Não se trata de impor uma medida, mas de construir uma cultura de prevenção, manutenção e segurança veicular. Segurança no trânsito é uma responsabilidade compartilhada entre poder público, setor produtivo e sociedade”, defendeu.
Segundo ele, a inspeção técnica não deve ser vista como burocracia ou punição ao cidadão, mas como uma política mínima de proteção coletiva, capaz de reduzir acidentes, salvar vidas e aliviar a pressão sobre o sistema público de saúde.
Como parte da agenda, a CNC entregou aos parlamentares uma cartilha técnica sobre inspeção veicular, desenvolvida com o objetivo de subsidiar o debate no Congresso Nacional. O material não apresenta uma proposta fechada, mas busca ampliar a reflexão sobre a importância da prevenção e da segurança viária no País.
“O nosso papel, enquanto entidades representativas, é contribuir tecnicamente para um debate responsável, equilibrado e humanizado. Prevenir tragédias é sempre mais eficaz do que reagir a elas”, concluiu Ranieri Leitão.

Fotos: Paulo Negreiros