O petróleo, o Brasil e a Rússia (Jornal do Commercio de 29 de dezembro de 2014)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

Deixando de lado as vicissitudes por que passa a Petrobras e o imperativo da revisão de seu cronograma de investimentos, cabe fazer uma reflexão sobre as perdas e ganhos em termos geopolíticos, pelo fato do preço do barril de petróleo ter caído de US$ 115 para US$ 58, entre julho e dezembro.

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

Deixando de lado as vicissitudes por que passa a Petrobras e o imperativo da revisão de seu cronograma de investimentos, cabe fazer uma reflexão sobre as perdas e ganhos em termos geopolíticos, pelo fato do preço do barril de petróleo ter caído de US$ 115 para US$ 58, entre julho e dezembro.

A partir da autossuficiência energética dos Estados Unidos, impulsionada pelo “fracking” hidráulico na obtenção de gás de xisto, o mercado mundial tornou-se um “mercado comprador”. O que não quer dizer que a acomodação e essa nova situação esteja isenta de sobressaltos.

A Arábia Saudita com suas imensas reservas e baixo custo de extração do petróleo tem sido historicamente um regulador do mercado, aumentando ou reduzindo sua oferta para determinar o preço. Desta vez, com o olhar no longo prazo, joga na baixa com o objetivo de desencorajar a expansão da produção nos Estados Unidos e tornar inviável, no futuro mediato, as “energias limpas”, a eólica e a solar.

De pronto, três países são os grandes afetados pela intensidade da queda do preço do barril de petróleo: Iran, Rússia e Venezuela. No plano mundial, deixando de lado a questão do enriquecimento do urânio, a presença do Iran está confinada ao Oriente Médio e a da Venezuela circunscrita à América do Sul e ao Caribe. Em escala mundial a pergunta que se impõe é a do reflexo sobre a Rússia do novo mercado mundial de petróleo e gás.

A Governadora do Banco Central russo já advertiu que se o barril de cru se mantiver nos níveis atuais a contração do Produto Interno Bruto (PIB) poderá chegar a 4,5% desenhando um quadro de recessão. A primeira reação do rublo frente ao dólar e ao euro foi tratar de defendê-lo com a elevação da taxa de juros, numa escalada brusca que passou de 5,5% para 17%. Embora não sirva de consolo, nesse particular o Brasil perdeu a primazia.

Do ponto de vista russo, e isso pode ser visto mais como um desejo do que uma realidade a ser alcançada, espera-se que no prazo de 12 meses, com um “preço objetivo” estabilizado em torno de US$ 70 o barril, o rublo volte a valorizar-se em relação ao dólar e ao euro. Se tal não acontecer haverá o risco de “default”.

Á primeira vista, a queda dos preços do petróleo e gás daria alívio aos países importadores, especialmente a Europa. Com energia mais barata, vários países da Zona do Euro teriam folga no poder de compra para gastar em outros consumos, impulsionando a demanda global. Mas, na verdade, não há ganhos a obter com as dificuldades da Rússia.

A deterioração da economia russa alcança fortemente a Alemanha, cuja corrente de comércio é da ordem de 76 bilhões de euros. Conjugada com as sanções impostas à Rússia pelo caso da Ucrânia, a deterioração do rublo atinge empresas da área de energia como a BP e a Total. Com o rublo enfraquecido, caíram as vendas dos fabricantes de automóveis. No caso da Volkswagen, a queda foi de 8%, mas as demais empresas como a Ford, Peugeot e Citroën também acusam contração em seus negócios.

O caso da Rússia, ainda hoje grande potência militar, deve preocupar sobremaneira o Ocidente, e o Brasil em particular, porque ás sanções econômicas soma-se, agora, o baixo preço do gás, a grande fonte de produção de divisas que lhe permitia manter, pela via da importação, um nível confortável de consumo interno.

 

Jornal do Commercio de 29 de dezembro de 2014.

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