Desafios ao governo

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Desafios ao governo


São conhecidas as dúvidas que cercam  as expectativas dos agentes econômicos,  produtores e consumidores sobre o provável curso que a economia brasileira vai percorrer dentro de determinado horizonte de tempo, seja de expansão, seja de retração. Entretanto, não resta dúvida que, no corrente ano, as expectativas sobre o futuro mediato têm a marca do otimismo. Dois indicadores ditos “antecedentes” apontam nessa direção.

Desafios ao governo


São conhecidas as dúvidas que cercam  as expectativas dos agentes econômicos,  produtores e consumidores sobre o provável curso que a economia brasileira vai percorrer dentro de determinado horizonte de tempo, seja de expansão, seja de retração. Entretanto, não resta dúvida que, no corrente ano, as expectativas sobre o futuro mediato têm a marca do otimismo. Dois indicadores ditos “antecedentes” apontam nessa direção. Do lado da demanda, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) e, do lado da oferta, o Índice de Confiança do Empresariado Industrial (ICEI).


O ICC deriva de uma sondagem de expectativas, conduzida pela Fundação Getulio Vargas, através de amostragem de cerca de 2 mil domicílios nas principais capitas do País. Em maio deste ano,  o índice alcançou 116,1 pontos, contrastando com os 100,2 pontos de outubro de 2008, quando a contração da economia mundial chegava ao Brasil. Obviamente, o clima de otimismo assim revelado significa que os consumidores estão comprando não apenas os bens mais essenciais, mas, freqüentemente, bens duráveis de toda sorte e serviços de lazer. Conscientes da importância das variações do índice, como sinal de maior ou menor demanda para o setor, algumas Federações de Comércio, como a de São Paulo, constroem o ICC, com metodologia própria. 


Outra sondagem de expectativas do consumidor, o Índice de Confiança das Famílias (ICF), apurado mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, em todas as Unidades da Federação, também mostra um patamar elevado de otimismo em relação à capacidade de consumo. O índice, que varia de 0 a 200, alcançou 133,5 pontos em maio de 2010, bem acima do patamar de indiferença equivalente a 100 pontos. Todos os itens que compõem o índice estão acima dos 100 pontos, com destaque para as perspectivas de consumo, em 140,7 pontos. A dinâmica atual do mercado de trabalho e, principalmente, as condições favoráveis para a concessão de crédito têm contribuído para manter a confiança do consumidor em alta.


Por sua vez, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulga periodicamente um conjunto de indicadores batizado como “termômetro da indústria”. Desse conjunto, cabe destacar o ICEI,  indicador que, num intervalo de 0 a 100, traduz os valores consolidados das percepções dos empresários contidos na amostra. Quando acima de 50, revelam, dentro de certo horizonte de tempo, otimismo em relação aos seus negócios. O índice mais recente, de maio deste ano, atingiu o valor de 66,3,  contrastando fortemente com o índice de janeiro de 2009, ou seja, 47,4. Um desvio de 16 pontos de percentagem sobre os 50, que marca a posição de indiferença entre pessimismo e otimismo, demonstra, cabalmente, a confiança da indústria nacional, no que concerne à saúde da economia, no futuro mediato.


A julgar por esses indicadores, o ritmo de crescimento econômico do País, em 2010,  já estaria assegurado, embora  a sustentabilidade de uma taxa de expansão econômica flutuando ao redor de 6% ao ano, para além de 2011,  provoque algumas incertezas. As condições físicas da máquina produtiva nacional têm dois pontos de estrangulamento ou gargalos, que representam um desafio para os próximos governantes: a infraestrutura insuficiente e, em termos gerais, a falta de trabalhadores qualificados para a operação de modernos equipamentos, de elevado conteúdo tecnológico. 


O desgaste da infraestrutura econômica acendeu o sinal amarelo como entrave à continuidade do crescimento. De um modo geral, a mídia chama a atenção para a saturação dos nossos aeroportos, a insuficiência das nossas instalações portuárias e a precariedade  de nosso sistema rodoviário.


Recentíssimo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a respeito das rodovias brasileiras, indica a necessidade de  investimentos de 180 bilhões de reais em três áreas principais: recuperação, adequação e duplicação de estradas; construção e pavimentação; e obras de arte, como pontes, por exemplo. Segundo o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), apenas 13% do montante anunciado foi gasto em construção e pavimentação e menos de 10% em recuperação de rodovias. Vale lembrar que o País dispõe de 1,7 milhão de quilômetros de estradas de rodagem, dos quais apenas 7% são pavimentados.


No que respeita à mão de obra qualificada, tudo aponta para o fato de que, no atual ritmo de crescimento econômico, vários setores da nossa economia já entraram no chamado “leilão de fatores”. Na busca de pessoal capacitado, a empresa A “compra o passe” do empregado da empresa B.


Pesquisa realizada por uma organização voltada para a busca de talentos e oferta de empregos, tendo como alvo 175 mil empregados em nível de gerência e supervisão, mostra que, em oito ramos da atividade industrial, os salários estão 10% acima da média nacional. Em mineração, petróleo e gás, a remuneração do trabalho excede essa média em 20% e, nos setores afins, automobilístico e autopeças, em 13%.


Embora o País esteja vivendo momentos de alta conjuntura e o otimismo tome conta de produtores e consumidores, não há garantia de que, para o ano de 2011 e seguintes, a taxa alcançada possa ser mantida. Tal garantia depende de duas condições que, mesmo se atendidas, não produzirão efeitos de imediato: 1º) a revisão dos orçamentos públicos, a fim de conter gastos correntes e liberar recursos para investimentos em capital social e humano;  e 2º) o desenvolvimento das parcerias entre o setor público e o setor privado, que, além dos aportes para financiamento, representam a certeza de maior eficiência.


 Todos os fatores e condições acima indicados constituir-se-ão, sem dúvida, em importantes desafios para o próximo governo.


 




Antonio Oliveira Santos é presidente da

Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

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