Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Nos últimos quatro anos, a meta de inflação fixada pelo Banco Central em 4,5%, com base no comportamento do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sempre esteve bem acima desse valor. Na realidade, a meta foi cumprida graças à generosa margem de tolerância de dois pontos de percentagem em relação aos 4,5% como centro da meta, de tal sorte que a inflação de 2014, medida em 6,41%, tangenciou o valor limite.
Forçoso, no entanto, é reconhecer que o cumprimento da meta só ocorreu graças ao artifício de retardar reajustes dos preços administrados, em especial energia elétrica, petróleo e seus derivados, o que provocou forte desequilíbrio de preços relativos, rompendo o que poderíamos chamar de harmonia da constelação de preços. Agora, os artifícios numéricos apresentam a fatura.
Tudo indica que o ano de 2015 será tempo de aceleração inflacionária. Várias são as componentes dessa aceleração. A mais óbvia é a ineludível correção dos preços defasados que, por isso mesmo, numa catalogação de tipos de inflação seria a “inflação corretiva”. A partir daí, como numa causação circular, estruturas de custos terão de ser ajustadas e desses ajustes vai surgir a “inflação de custos”, completando a cadeia da “espiral inflacionária”.
Outra pressão sobre os preços advém da desvalorização da taxa de câmbio que, pela via da importação, é outra faceta da “inflação de custos”. Não faz muito, a relação era de 1,6 reais/1,0 dólar e se situa atualmente ao redor de 2,8 reais. Uma rápida e forte desvalorização que, contudo, pode ter um efeito favorável sobre a exportação e o balanço de comércio, ainda que parcialmente mitigado pela conjuntura internacional de preços,.
Como se fosse pouco, a adversidade climática deve comprometer o suprimento de água e energia, escassez que pressiona o nível geral de preços através do que se convencionou chamar de “choques de oferta”, posto que, como fator limitativo, impactam sobre a produção.
Trazer a taxa de inflação para o centro da meta, incumbência que recai sobre os ombros do atual Ministro da Fazenda, é tarefa hercúlea e que demanda de tempo. A combinação das diversas componentes da pressão inflacionária leva à probabilidade da taxa de inflação para este ano de 2015 vir a situar-se no intervalo entre 7 e 8%.
Na verdade, o ambiente político em nada favorece a política de austeridade necessária para alcançar o reequilíbrio das contas públicas e assim afastar do cenário nacional o agravamento da inflação. Após um tempo de bonança que permitiu a distribuição inconsequente de vantagens e favores, um Executivo enfraquecido pela má condução da política econômica e pelo descontentamento social que o aperto geral provoca, encontra sérias resistências no Legislativo. Há fissuras no “presidencialismo de coalizão” que em nada facilitam o diálogo entre os três Poderes.
Houve época em que o estudo da Economia, como disciplina dos Cursos de Direito, era denominado Economia Política. Nos dias atuais, com a taxa de inflação em alta, a produção nacional em declínio e a consequente queda no nível do emprego, a Economia nunca foi tão dependente da Política para lograr a reversão dessa sequência perversa.
No mundo real, os ajustes necessários para reconquistar a confiança, alcançar o equilíbrio fiscal, revitalizar o comércio exterior e conter as pressões inflacionárias não têm efeito instantâneo. Vai levar tempo.
Jornal do Commercio de 16 de março de 2015.