Gazeta Mercantil Editoria: Nacional Página: A-4
Para representantes de sindicatos de trabalhadores, o desempenho da economia também deve ser levado em consideração nas negociações de reajustes salariais. Com a inflação em baixa nos últimos anos, a incorporação desse novo item poderia garantir ganhos reais maiores.
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Para representantes de sindicatos de trabalhadores, o desempenho da economia também deve ser levado em consideração nas negociações de reajustes salariais. Com a inflação em baixa nos últimos anos, a incorporação desse novo item poderia garantir ganhos reais maiores. No ano passado, o PIB cresceu 5,4%, enquanto a média Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e usado como referência nas negociações salariais, registrou variação de 3,9%.
Segundo o supervisor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), José Silvestre de Oliveira, o crescimento econômico cria um ambiente mais favorável para as negociações, mas não é possível estabelecer uma correlação entre o desempenho do PIB e os ganhos reais.
Somente em 2004, após expansão de apenas 1,1% das riquezas no ano anterior, uma parcela mais significativa das negociações (44,2%) resultou em aumento real igual ou superior à variação do PIB. Em 2005, um ano depois de o Brasil crescer 5,7%, nenhuma categoria conseguiu ganhos proporcionais, segundo levantamento do Dieese. “É necessário discutir como se trazer o patamar de crescimento do País à mesa de negociações, como incorporá-lo aos salários”, afirma Oliveira.
“Nós também temos de garantir uma participação no bolo”, comenta Cláudio Aureliano Moreira, da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), ligada à Força Sindical. “O estudo mostra uma preocupação. O crescimento econômico é importante, mas sem distribuição de renda não serve de nada. É preciso incorporá-lo ao aumento real de salários”, completa o secretário geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Carlos Cordeiro. Os sindicalistas participaram ontem da divulgação do balanço das negociações dos reajustes salariais em 2007 realizado pelo Dieese.
Uma referência é o aumento de 9,2% do salário mínimo concedido a partir de março que, além da inflação medida pelo INPC nos últimos doze meses, incorporou o crescimento real do PIB de dois anos antes. Segundo o coordenador de pesquisa do Dieese, Francisco Oliveira, as negociações podem incluir o crescimento do PIB ou o desempenho do setor da economia.
“Alguns sindicatos já conseguem ter elementos setoriais nas negociações”, diz, citando o caso da indústria automotiva. No final de outubro de 2007, embalados pela expansão das vendas das montadoras, os metalúrgicos de São Paulo conseguiram reajuste de 7,45%, ante o INPC de 4,78%.
No ano passado, 95,9% de 715 negociações analisadas pelo Dieese garantiram, no mínimo, a reposição das perdas. O percentual é próximo ao obtido em 2006, quando 96,3% dos 655 acordos e convenções coletivas resultaram em reajustes iguais ou superiores à variação do INPC. Entre 2006 e 2007, subiu o número de categorias que assegurou ganho real, de 86,3% para 87,7% das negociações. No período, entretanto, diminuiu a parcela de negociações com aumento real superior a 2,01%, de 36,6% para 20,9% das categorias com reajustes acima da inflação.
“Não há dúvidas de que a taxa de inflação tem determinado a magnitude do reajuste. Quanto menor a inflação, maior é número de negociações com reajustes iguais ou superiores ao INPC”, diz José Silvestre Prado de Oliveira. No entanto, não se observa uma relação direta com relação ao crescimento do PIB, reforça o supervisor do Dieese.
Para 2008, Oliveira projeta um cenário semelhante para as negociações salariais ao do ano passado. Com projeções de crescimento do PIB entre 4,5% e 5%, o cenário continua favorável, avalia. “E a tendência é de que a inflação de 2008 não fuja muito dos patamares registrados em 2007”, conclui o supervisor.