Gazeta Mercantil Editoria: Finanças Página: B-1
O anúncio da taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que desacelerou o corte da Selic e as primeiras leituras da inflação em setembro vão dominar a agenda econômica brasileira nesta semana.
A divulgação concentrada de dados relevantes para avaliação de cenários tende a adicionar volatilidade aos ativos financeiros, mas não comove experientes analistas, para quem a tendência dos indicadores dificilmente surpreenderá.
Gazeta Mercantil Editoria: Finanças Página: B-1
O anúncio da taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que desacelerou o corte da Selic e as primeiras leituras da inflação em setembro vão dominar a agenda econômica brasileira nesta semana.
A divulgação concentrada de dados relevantes para avaliação de cenários tende a adicionar volatilidade aos ativos financeiros, mas não comove experientes analistas, para quem a tendência dos indicadores dificilmente surpreenderá.
O PIB vai acelerar, a inflação deve permanecer resistente à queda, vitaminada pelos preços dos alimentos, e o Banco Central deve usar a ata do Copom para estender ao mercado sua própria lição de casa: acompanhar “atentamente” a evolução do cenário macroeconômico até a próxima reunião.
O Copom reduziu, na quarta-feira passada, a taxa Selic de 11,50% para 11,25% por unanimidade e tem agendada a penúltima reunião do ano para os dias 16 e 17 de outubro. “Os indicadores mostram que não há espaço para desaforo e o comportamento do mercado internacional será o gatilho de revisão ou reafirmação de cenários dos próximos meses”, avisa Zeina Latif, economista-chefe do Real ABN Amro. “A demanda deve crescer ao ritmo de 6% ao ano. A inflação caminha para o centro da meta, de 4,5%, com a pressão dos alimentos se espraiando para outros segmentos. O câmbio não deve exibir apreciação importante.”
Oportuno consenso
A economista do Real ABN Amro não contempla a possibilidade de o Copom voltar a cortar o juro básico nas próximas reuniões.
“É evidente que essa perspectiva não é para sempre, mas nossa visão é de que o Copom já deveria ter interrompido a redução da Selic. Não podemos dizer que o BC ou o mercado estão sendo surpreendidos pelos dados.”
O corte da Selic em 0,25 ponto percentual e o placar unânime da decisão não impressionaram Zeina Latif. “Seria uma incongruência, após dois cortes de 0,50 ponto, o Copom interromper o movimento. E o placar também não poderia ser diferente, levando-se em conta o dissenso nos resultados das três reuniões anteriores. Se ele fosse reprisado, o mercado colocaria em xeque a coesão da própria diretoria do Banco Central e sua avaliação do momento”, diz.
Choques sem fronteira
Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor de Política Monetária do BC e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), discorda e vê espaço para a continuidade do processo de corte da taxa Selic.
“A decisão tomada pelo Copom, de desacelerar a queda da Selic, foi sábia, apropriada para o momento. Mas o juro real brasileiro ronda 7,5% e ainda é razoavelmente elevado. Pode cair mais. No Chile, por exemplo, país que está convivendo com inflação da ordem de 5% ao ano, o juro real é de 0,5%.”
Freitas Gomes lembra que o juro real também declina pela alta da inflação e não só pela queda do juro nominal.
Ele pondera que o Chile mostra que não é apenas o Brasil que está passando por choques de preços. “O Brasil está sofrendo choques de oferta e outros países também. E até pelas características desses choques, fortemente representados por preços de alimentos, não dá para fazer ilações permanentes sobre o cenário atual.”
Temporada de balanço
Para Freitas Gomes, a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sobre o juro norte-americano no próximo dia 18 será fundamental para as projeções de todos os mercados e indicadores macroeconômicos.
Zeina Latif concorda e alerta que o mercado internacional já embutiu a perspectiva de corte das fed funds (a taxa básica de juros dos Estados Unidos) nos preços dos ativos. “A dúvida é se o corte será superior a 0,25 ponto percentual”, diz. E, sendo 0,25 ponto, o que o mercado vai querer saber é qual alerta o Fed emitirá. Se o comunicado for conservador ou não sinalizar novos cortes, os riscos para os mercados serão grandes”, pondera a economista-chefe do Real ABN.
Ela lembra que a reunião do Fed ocorrerá pouco antes da temporada de divulgação de balanços de bancos internacionais, que deverão dimensionar os estragos provocados pela crise do setor imobiliário norte-americano.
Câmbio e expectativas
Freitas Gomes também alerta para o posicionamento do Fed e chama atenção para uma repercussão favorável, e muito oportuna, do corte do juro norte-americano neste mês. “Se o Fed cortar o juro em 0,25 ou 0,50 ponto e emitir sinais concretos de afrouxamento monetário, a decisão levará a um imediato enfraquecimento do dólar e, portanto, à valorização das moedas consideradas ”commodities”, como a nossa.”
Um novo ciclo de valorização do real tem o poder de influenciar as expectativas de inflação, o que segundo o economista “vai na contramão dos choques de oferta que estão puxando os índices atualmente”.
“O Brasil não está vivendo um processo inflacionário e isso precisa ficar claro e entendido. Daí a vigilância para que avaliações de momento não contaminem expectativas tão favoráveis, sobretudo para inflação, sustentadas até há pouco.”
Agenda da semana
Segunda-feira – Relatório Focus, balança comercial (1 semana setembro), IPC-S (1 leitura setembro), IBGE divulga Produção Industrial Regional (julho);
Terça-feira – IPC-S Capitais (1 leitura setembro), IBGE divulga Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (agosto);
Quarta-feira – IGP-M (1 prévia setembro), IPC-Fipe (1 quadrissemana setembro), IBGE divulga PIB (2 trimestre);
Quinta-feira – Ata do Copom, IBGE divulga Pesquisa Mensal Industrial de Emprego e Salário (julho);
Sexta-feira – sem indicadores previstos. kicker: O comportamento do mercado externo será o gatilho para a revisão ou reafirmação de cenários dos próximos meses, diz economista