Selic: maioria prevê corte de 0,25 ponto

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Jornal do Commercio  Editoria: Economia  Página: A-3


A turbulência financeira causada pela crise de empréstimos do setor imobiliário americano e a piora dos últimos índices de inflação divulgados no País devem levar o Comitê de Política Monetária (Copom) a frear o ritmo de redução da taxa básica de juros (Selic) na reunião de amanhã e quarta-feira. De 27 analistas consultados pelo Jornal do Commercio e Bloomberg, 25 apostam que a autoridade monetária optará por corte de 0,25 ponto percentual, inferior ao realizado nas duas reuniões anteriores (0,5 ponto).

Jornal do Commercio  Editoria: Economia  Página: A-3


A turbulência financeira causada pela crise de empréstimos do setor imobiliário americano e a piora dos últimos índices de inflação divulgados no País devem levar o Comitê de Política Monetária (Copom) a frear o ritmo de redução da taxa básica de juros (Selic) na reunião de amanhã e quarta-feira. De 27 analistas consultados pelo Jornal do Commercio e Bloomberg, 25 apostam que a autoridade monetária optará por corte de 0,25 ponto percentual, inferior ao realizado nas duas reuniões anteriores (0,5 ponto). Os outros dois acreditam que não haverá corte na taxa. Caso a projeção da maioria se confirme, o BC baixará a Selic de 11,5% para 11,25% ao ano, na 18ª diminuição consecutiva desde setembro de 2005.


No último Boletim Focus – pesquisa semanal do Banco Central com instituições financeiras – a média projetada pelo mercado para o fechamento da taxa de juros passou de 10,73% para 10,79% neste ano e de 9,83% para 9,9% em 2008. Já a média para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 3,77% para 3,86% este ano e de 3,98% para 4,01% no ano que vem.


Desde o último encontro do Copom, em junho, o desempenho da economia mundial passou a ficar sob ameaça e até mesmo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já admite um possível impacto sobre a economia em 2008, se a crise se agravar. O novo quadro trouxe uma preocupação a mais para a autoridade monetária: o câmbio. “A combinação de uma atividade econômica aquecida e uma maior pressão de preços por choque de oferta de alimentos não seria preocupante se o dólar continuasse caminhando para R$1,80/R$ 1,70. O fator que podia aliviar a inflação (favorecendo as importações) passou a ser fonte de incerteza”, diz o estrategista-sênior para a América Latina do WestLB, Roberto Padovani.


Para o economista, a crise antecipou a necessidade de maior cautela pelo Banco Central, que já deve desacelerar a redução da Selic para 0,25 ponto percentual nessa reunião. “Antes acreditava em um corte de 0,5 ponto, mas o risco inflacionário aumentou”, observa Padovani, que elevou de 3,4% para 3,7% sua projeção para o IPCA em 2007 e de 3,7% para 4,1% em 2008. “Se a pressão sobre os índices de inflação vem de choque de oferta ou não, o fato é que está mais alta e gera inércia inflacionária para o próximo ano. Não se sabe ainda quais serão os respingos em 2008”, pondera.


Luz Amarela


O Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco alerta, em relatório, que deve ser acesa uma luz amarela a partir do dado mais forte do IPCA-15 e do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), que em agosto tiveram alta de 0,42% e 0,98%, bem acima das projeções do mercado. O documento dá destaque para um novo foco de pressão surgido em agosto no índice: o núcleo de serviços, que avançou para 0,51% (contra variação de 0,22% em julho). Ainda que esse dado seja pontual, o Bradesco acredita na deterioração das expectativas para o IPCA de 2007, sob a influência da alta de preços dos derivados do trigo e da manutenção, em patamar ainda mais elevado, dos preços das carnes.


Mesmo esperando o fim da influência altista dos preços do leite, o Departamento econômico do Bradesco revisou de 3,6% para 3,92% sua projeção para o IPCA neste ano. Essa mudança vem junto com a revisão da expectativa para o dólar, de R$ 1,80 para R$ 1,90 no fim do ano, alterada em função da volatilidade trazida pela crise financeira à taxa de câmbio. Esse quadro deve gerar maior cautela por parte do Banco Central desde já, aponta o Bradesco, que espera que a Selic seja reduzida para 11,25% ao ano esta semana. O banco ainda não definiu projeções para as próximas reuniões.


O ex-diretor do BC e consultor da Confederação Nacional do Comércio (CNC) Carlos Thadeu de Freitas, considera que ainda não há motivos para a autoridade monetária parar a trajetória de queda da Selic, já que mesmo com a elevação das expectativas de inflação elas ainda se mantêm abaixo da meta de 4,5%, tanto em 2007 quanto em 2008. Embora o nível de consumo neste ano esteja 13% maior que o de 2006, Freitas avalia que o nível de endividamento da população já está chegando ao limite e deve ser um freio natural nesse processo. “O Copom já está de olho em 2008, por isso não deve levar tanto em conta a inflação corrente”, frisa.


A tendência futura preocupa o professor do Departamento de Economia da PUC do Rio de Janeiro, Luiz Roberto Cunha. Ao contrário da maioria, ele entende que o aumento dos preços internacionais dos alimentos pode ser uma mudança estrutural, já que tem como uma de suas principais causas o aumento do consumo na China e na Índia, países de enorme população e em processo de rápida urbanização. No Brasil o grupo alimentos deve fechar o ano com alta de 10%, depois de três anos de variações próximas a zero, estima Cunha.


Administrados 


“Este ano, o que ajudou a segurar a inflação foram os preços administrados (tarifas públicas, indexadas aos IGPs), que devem ter alta em torno de 2,3%. Para 2008, entretanto, o IGP de 4,5% vai pressionar esse grupo. Isso se soma ao fato de que os bens duráveis não terão mais a ajuda do câmbio. Não haverá a famosa âncora verde (câmbio e preços agrícolas) para segurar os preços. Assim, a inflação em 2008 já deve ficar bem próxima dos 4,5% da meta”, prevê Cunha.


A economista Cassiana Fernandez, da Mauá Investimentos, acredita que o BC será mais conservador já nesta reunião, cortando apenas 0,25 ponto percentual, para evitar o repasse do atual choque dos alimentos para outros preços da economia.


“O preço dos ativos indica que o BC pode elevar a taxa básica em 2008, mas não trabalhamos com essa hipótese. Pelo contrário, acreditamos que haverá espaço para novos cortes”, diz Cassiana. A Mauá projeta uma parada em 2007 após a reunião de setembro, com a retomada da trajetória de queda da Selic em 2008. A economista destaca que o nível de utilização de capacidade da indústria (NUCI) – que em agosto ficou em 5,7% segundo a Sondagem da FGV -, não deveria tirar o sono dos diretores do BC. “O boom de investimentos iniciado no segundo trimestre de 2006 deve começar a maturar agora. O colchão de investimentos passados vai criar uma oferta suficiente para suprir a demanda crescente”, afirma.


A projeção da Mauá Investimentos é de que até o segundo trimestre, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) tenha tido alta de 12% sobre o igual período do ano passado. “Ao fim de 2007 o investimento estará há dois anos crescendo o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil. O investimento em princípio é demanda, mas conforme vai maturando se traduz em oferta”, analisa a economista.


Demanda  


A economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli, segue a mesma linha de argumentação. Em seu comentário econômico, ela destaca que “no campo da atividade econômica, é inegável o forte crescimento da demanda doméstica, impulsionada pela melhora do emprego e renda, além da forte expansão do crédito. Acreditamos, porém, na aceleração do processo de expansão da capacidade produtiva nos próximos meses, resultado da maturação dos investimentos realizados ao longo dos últimos trimestres. Sendo assim, ainda que existam riscos de uma maior pressão sobre os preços derivada do aquecimento econômico, estes não nos parecem tão elevados. Mantivemos, dessa forma, nossa projeção de 4,0% de alta para o IPCA em 2008”.


Entre os economistas contatados pelo Jornal do Commercio, apenas Istvan Kasznar, conselheiro econômico da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) e Marcel Pereira, economista-chefe da RC Consultores, esperam uma posição ainda mais conservadora do BC, com manutenção da Selic em 11,5% ao ano. “Tecnicamente a turbulência internacional e seu impacto no câmbio não chegam a ameaçar a meta de inflação, mas o histórico do Copom é de botar o pé no freio”, justifica Pereira, lembrando também que o resultado do Índice de Preços ao Atacado (IPA-M) indicou que o repasse da desvalorização cambial sobre os preços dos produtores ficou bem acima do esperado, prolongando o efeito causado pela alta de preços dos alimentos. A RC Consultores acredita em um retorno ao ritmo de cortes de 0,25 ponto percentual, na reunião de outubro.


A ansiedade do mercado em relação à reunião do Copom desta vez se divide com a atenção dada ao próximo encontro do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), marcada para o próximo dia 17. A decisão da autoridade monetária americana sobre um possível corte nos juros da maior economia mundial terá efeitos diretos sobre a política monetária brasileira. “Se o Fed baixar os juros o Brasil deve voltar a receber uma enxurrada de dólares e capital de curto prazo que migrou durante a crise, o que se refletirá sobre a taxa de câmbio. O melhor seria o Copom fazer explicações sucintas nesta ata, para evitar problemas com uma nova mudança de cenário”, ressalta Carlos Thadeu de Freitas.


 

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