Valor Econômico Editoria: Brasil Página: A-4
Com o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre ficou mais difícil para a economia brasileira fechar 2007 com um crescimento de 5%, como espera o governo. A taxa não é considerada impossível pelos analistas, mas vai exigir uma expansão mais acelerada na segunda metade do ano.
Valor Econômico Editoria: Brasil Página: A-4
Com o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre ficou mais difícil para a economia brasileira fechar 2007 com um crescimento de 5%, como espera o governo. A taxa não é considerada impossível pelos analistas, mas vai exigir uma expansão mais acelerada na segunda metade do ano. Se não houver revisões do desempenho do PIB de janeiro a junho, a economia terá de avançar, na série com ajuste sazonal, cerca de 1,5% no terceiro e 1,5% no quarto trimestre, na comparação com os trimestres imediatamente anteriores, de acordo com cálculos de Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC, e de Alexandre Schwartsman, economista-chefe para a América Latina do ABN AMRO. No primeiro trimestre, o PIB cresceu 0,9% e no segundo, 0,8%. O mercado esperava uma variação de 1,2% de abril a junho.
Para alguns analistas, o resultado do PIB um pouco abaixo do esperado abre espaço para que o Banco Central siga em sua trajetória de cortes graduais dos juros. Há quem acredite, porém, que a expansão forte da demanda, combinada à alta dos preços de alimentos, fará o BC interromper em breve a trajetória de queda da Selic.
Bassoli manteve a previsão de um crescimento de 5,1% neste ano. Para ele, o desempenho da agropecuária no primeiro semestre ficou muito abaixo do que sugerem os números sobre a produção agrícola neste ano. Bassoli acredita que ou haverá uma recuperação na segunda metade do ano ou o IBGE vai revisar os dados de janeiro a junho, período em que a agropecuária subiu apenas 1,4% em relação ao mesmo intervalo de 2006. As previsões, diz, apontam para um crescimento de 5% a 6% do setor em 2007. Bassoli ressalta que a demanda segue em alta firme. “Ficou mais difícil crescer 5% neste ano, mas é algo factível”, diz, lembrando que, no terceiro trimestre de 2006, o PIB avançou 2,8%.
A economista Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados, elevou a sua projeção para a expansão do PIB em 2007, de 4,6% para 4,8%. Ela ressalta principalmente o bom desempenho da indústria, que teve alta de 7,2% no segundo trimestre na comparação com o mesmo período de 2006 – e do comércio, que registrou avanço de 8,1% de abril a junho. “E a agropecuária também tem potencial para se recuperar nos próximos trimestres.”
Parte do resultado um pouco mais fraco do que se esperava no segundo semestre se deveu à questão dos estoques, como ressalta Schwartsman. A demanda agregada cresceu 6,3% de abril a junho, abaixo dos 5,4% registrados pelo PIB. A diferença se explica pela redução na velocidade de formação de estoques, que ficou 38% abaixo do mesmo período de 2006, segundo o ABN AMRO. Para Schwartsman, o mais provável é que o PIB cresça 4,5% em 2007.
O economista-chefe do Pátria Banco de Negócios, Luís Fernando Lopes, tem uma avaliação mais pessimista. Para ele, os números do PIB mostraram uma desaceleração da atividade econômica na ponta. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, com ajuste sazonal, a economia vem perdendo força, afirma Lopes.
No terceiro trimestre de 2006, houve alta de 2,8%, percentual que caiu para 1,1% no quarto, 0,9% no primeiro trimestre deste ano e 0,8% no segundo. Isso equivale a uma taxa anualizada de 3,24% . Nesse cenário, Lopes decidiu revisar sua projeção para este ano de 4,6% para 4,4%. Ele acredita que a indústria e o comércio podem se acomodar no segundo semestre, lembrando ainda que o cenário externo é um pouco menos positivo. Para Lopes, o Brasil ainda enfrenta restrições de oferta que impedem um crescimento de 5%.
O consultor de análise econômica do Itaú, Joel Bogdanski, não vê riscos inflacionários no crescimento do PIB. Com o investimento em expansão e uma inflação em 12 meses ainda bem abaixo do centro da meta, de 4,5%, ele acredita que há espaço para o BC promover dois cortes de 0,25 ponto percentual nas próximas duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). O economista Francisco Pessoa, da LCA Consultores, que estima um PIB de 4,7% para 2007, não vê razão para a interrupção na trajetória de corte dos juros, nem acredita que o BC fará isso. “O PIB não teve um crescimento desprezível, mas não é um espetáculo.” Pessoa diz que o consumo privado não constitui pressão de alta dos preços, avaliando que a inflação dos alimentos, inclusive, acaba por ter um efeito de retrair o consumo. “Não há pressão que justifique uma parada no corte dos juros.”
Há quem acredite, porém, que o aquecimento da economia fará o BC ser mais cauteloso daqui para frente, embora os investimentos em alta garantam maior capacidade produtiva. “A atividade é um fator de risco para a inflação. O BC tende a ser cauteloso e deve cortar 0,25 ponto na próxima reunião e depois, interromper os cortes até o fim do primeiro semestre”, prevê a economista Marcela Prada, da consultoria Tendências. Além da inflação dos alimentos preocupar, o quadro internacional é um fator de incerteza, diz ela.
Governo festeja 22 trimestres seguidos de crescimento
A boa performance do Produto Interno Bruto (PIB), no segundo trimestre do ano, não autoriza o governo a relaxar, seja na vigilância contra o recrudescimento inflacionário, seja no desempenho das contas públicas, avisou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Para ele, ao contrário, agora é hora de avançar no controle do gasto do setor público e na redução da carga tributária.
O ministro foi informado pelo IBGE, na noite da terça feira, que o crescimento do PIB chegou a 5,4% no segundo trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2006. Ele passou a informação para o presidente Lula, que estava em Estocolmo (Suécia), por volta de 1h30 da madrugada de quarta-feira, e ontem comentou: “Foi muito bom. Um crescimento acima do que estávamos esperando”. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, os dados do IBGE apontam para um crescimento “robusto e equilibrado”.
Bernardo acredita que os dados do terceiro e quarto trimestres serão “talvez até melhores do que este”, o que o leva a prever um crescimento superior a 5% este ano. Duas razões alimentam essa expectativa: no ano passado, no mesmo período, os trabalhadores da indústria automobilística estavam em greve – este ano não estão – e de lá para cá os juros básicos da economia tiveram queda substancial.
O crescimento do investimento, de 13,8% no segundo trimestre sobre o mesmo período de 2006, é um indicador “excepcional” que, para o ministro do Planejamento, é a prova do acerto da política econômica, com a ampliação do crédito, a redução dos juros e a desoneração de alguns impostos para o setor de bens de capital. “O empresariado está apostando que o crescimento é sustentável”, avalia, e o aumento da oferta de bens e serviços, indicado pela formação bruta de capital fixo, sustentará a performance do PIB sem pressões inflacionárias. “Aparentemente, as condições para o crescimento sustentado estão dadas e não há mais o risco de ser um vôo de galinha”, disse Bernardo.
Assim, ressaltou, é hora de avançar na política fiscal, sobretudo no controle das despesas correntes do governo federal. Tão logo esteja aprovada a prorrogação da CPMF e da Desvinculação das Receitas da União (DRU) para até 2011, o governo terá que iniciar um trabalho mais agressivo no Congresso para empurrar a tramitação do projeto de lei complementar nº 1, que limita o gasto com a folha de pagamento do funcionalismo público dos três Poderes, à variação do IPCA mais 1,5% ao ano até 2016. O empenho político do governo terá que se voltar, também, para a aprovação da política de reajuste do salário mínimo com base na variação anual do INPC mais a taxa de crescimento real do PIB de dois anos imediatamente anteriores. Essa fórmula deverá valer até 2011.
O ministro da Fazenda, em entrevista coletiva, afirmou que os dados mostram a existência de um ciclo sustentado que deve ser mantido no restante de 2007 e nos próximos anos e, portanto, não traz preocupações com a possibilidade de uma inflação de demanda gerada por um superaquecimento da economia.
“A inflação será sempre combatida por este governo, mas não há motivo de preocupação. O crescimento está equilibrado, com aumento da oferta e com o investimento aumentando a uma taxa que é o dobro da elevação do produto”, disse Mantega.
Ele ressaltou que a elevação de 10,6% no investimento do primeiro semestre, comparado com igual período de 2006, permite o crescimento da economia com aumento da oferta. “Já podemos configurar a existência de um ciclo de crescimento econômico. São 22 trimestres consecutivos. Essa é a boa notícia. É o ciclo mais longo desde os anos 90”, disse.
Os indicadores das contas nacionais deste ano desmentem, segundo avaliação de Mantega, o risco de o país estar vivendo um processo de desindustrialização (“doença holandesa”). Outro ponto importante, segundo ele assinalou, é o impacto negativo das importações (1,3 ponto percentual), menor que o 1,4 ponto do mesmo período de 2006.
Em nota à imprensa, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, salientou que o controle da inflação e o fato de o país estar mais resistente às turbulências externas ajudam nesse cenário de crescimento sustentado. A nota diz : “Pelo lado da demanda, o crescimento tem sido liderado pela expansão da demanda doméstica, tanto o consumo quanto o investimento, sem dúvida beneficiados pelo ambiente de estabilidade econômica, consubstanciado em maior resistência a turbulências externas e inflação consistente com a trajetória das metas. Pela ótica da oferta, cabe destacar a forte expansão da produção industrial”.