Perspectiva do crescimento econômico (Jornal do Commercio, 24/06/2008)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


O crescimento da produção de bens de capital e a expansão dos investimentos em 2007 esvaziaram a teoria do “produto potencial”, baseada no fato de que a inflação seria uma conseqüência inevitável sempre que a demanda agregada superasse, ex-ante, a oferta do lado da produção, dado o limite técnico da capacidade produtiva instalada.


Contra essa tese, é possível argumentar que a economia cresce e se desenvolve sob pressão, isto é, ninguém investe ante a per

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


O crescimento da produção de bens de capital e a expansão dos investimentos em 2007 esvaziaram a teoria do “produto potencial”, baseada no fato de que a inflação seria uma conseqüência inevitável sempre que a demanda agregada superasse, ex-ante, a oferta do lado da produção, dado o limite técnico da capacidade produtiva instalada.


Contra essa tese, é possível argumentar que a economia cresce e se desenvolve sob pressão, isto é, ninguém investe ante a perspectiva de uma conjuntura de recessão. Pelo contrário, é quando a demanda agregada se aproxima dos limites técnicos da capacidade produtiva que surgem os investimentos, que vão dar sustentação ao ciclo de crescimento econômico. A menos que essa limitação seja no setor de logística da infra-estrutura, de responsabilidade do Governo, que não realiza os investimentos necessários. Aí, a questão é diferente.


Em 2007, como em anos anteriores, o Banco Central desenvolveu uma ação intensa no sentido de frear a expansão do consumo e dos investimentos, impondo sobre o mercado as taxas básicas de juros mais altas do mundo. Não conseguiu. Apenas produziu uma deterioração no desequilíbrio das contas públicas, consolidando a idéia de superioridade da política fiscal sobre a política monetária, seja para acautelar-se ante as pressões inflacionárias, seja para promover o crescimento econômico e a criação de empregos.


No ano passado, a produção de bens de capital cresceu 47,2% com destino à agricultura, 20,1% para a construção civil, 25,2% para a área de energia elétrica, 18,8% para o setor transportes e 16,2% para fins industriais. Isso puxou a expansão do PIB nacional, estimada em 5,2%, e ainda assentou as bases para que esse crescimento continue em 2008. Entretanto, persiste o atraso nos investimentos da infra-estrutura.


Não faltará quem diga que o Brasil cresceu em 2007 graças ao controle da inflação pelo Banco Central,  uma tese que fica cada vez mais difícil sustentar. O que não significa dizer que a inflação promove o crescimento. Porque isto também não é verdade. O crescimento econômico depende de muitas variáveis, entre as quais, sem dúvida, se inclui a estabilidade monetária (inflação baixa e sustentável), longe, porém, de ser uma condição sine qua non.


A maioria dos analistas considera que, inevitavelmente, a economia norte-americana vai desacelerar e, possivelmente, não crescerá mais do que 1% ou 2%, em 2008. Embora esse resultado possa configurar uma crise de grandes proporções, é oportuno lembrar que um crescimento de apenas 1%, nos Estados Unidos, representa um aumento de US$ 150 bilhões no PIB, o mesmo que seria um crescimento de 15% no Brasil. Contudo, seria muito diferente o resultado se o PIB dos Estados Unidos caísse 1%. Aí, sim, o abalo mundial podia ser mais sério, inclusive atingindo o Brasil.


Na atual conjuntura de incertezas, tudo pode acontecer. Mas uma coisa parece claro: a massa de investimentos em curso, no Brasil, vai garantir a continuidade do crescimento em 2008. É uma questão inercial, a continuidade de realização de grandes projetos em curso nas áreas de energia elétrica, telecomunicações, transporte, mineração, siderurgia, petróleo e petroquímica, papel e celulose, além de inúmeros projetos menores de construção de termelétricas, cimento, construção civil, etc.


Nesse caso, mesmo que haja uma tendência à redução do consumo de bens duráveis financiado por crédito bancário e comercial, a demanda desses produtos continuará sustentada, agora pelo aumento da renda gerada pelos empregos propiciados pelos novos projetos. A dificuldade é prever o que poderá acontecer no setor automobilístico, onde os financiamentos de veículos leves estão sendo feitos a prazos de até 96 meses.


Publicado no Jornal do Commercio de 24 de junho de 2008.

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