Na baixa renda, quase 60% estão endividados

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O Estado de São Paulo  Editoria: Economia  Página: B-16


O crédito já faz parte do orçamento do brasileiro de baixa renda. Mais da metade (58,8%) dessa população tem hoje até quatro financiamentos contratados e 72,5% parcelam as compras.

O Estado de São Paulo  Editoria: Economia  Página: B-16


O crédito já faz parte do orçamento do brasileiro de baixa renda. Mais da metade (58,8%) dessa população tem hoje até quatro financiamentos contratados e 72,5% parcelam as compras. Os empréstimos avançam nas camadas de menor poder aquisitivo, apesar de o juro cobrado nos financiamentos ainda ser considerado alto por 38,6% dessa faixa da população.


Isso é o que revela a pesquisa sobre as Decisões de Consumo do Público de Baixa Renda, uma radiografia inédita dos hábitos de compra desse grupo de consumidores feita pelo Programa de Administração de Varejo (Provar) em parceria com o Canal Varejo.


“A população de baixa de renda já conta com o crédito no dia-a-dia”, afirma a responsável pela pesquisa e coordenadora do Canal Varejo, Patrícia Vance. A pesquisa, que ouviu 300 consumidores com renda média mensal familiar de R$ 986,61 na cidade de São Paulo em agosto , mostra que essa população encontra poucos obstáculos para obter empréstimos.


A metade dos entrevistados declarou que não enfrenta dificuldades na aprovação do crédito para fazer compras e 53,5% usam os financiamentos oferecidos pelo comércio.


“A loja virou banco”, afirma Patrícia. Ela se baseia em outro resultado da pesquisa para fazer essa afirmação, além do grande número de parcerias fechadas nos últimos tempos entre bancos e lojas.


A coordenadora observa que, nas questões qualitativas da pesquisa, 40,6% dos entrevistados apontaram a confiança depositada pelos lojistas como o principal sentimento despertado quando conseguem a aprovar o crédito. “Isso explica por que essa camada da população prefere ir à loja para obter financiamento do que ao banco, que ainda tem uma imagem negativa para esse público. A loja antecipa um sonho de consumo ao aprovar o crédito para a compra de mercadorias.”


A pesquisa confirma com números o que a experiência dos lojistas já indicava. A época mais importante para o consumidor ter crédito é o fim do ano, com 48,3% dos entrevistados.


A baixa renda também é freqüentadora assídua dos shoppings centers, com 54,3% dos entrevistados declarando que vão de uma a até três vezes por semana aos centros de compra. Apesar disso, Patrícia ressalta que esse grande fluxo de pessoas nos shoppings não se traduz em vendas na mesma proporção, exceto nos shoppings que estão próximos de estações de metrô.


Um quarto do público de menor poder aquisitivo vai ao shopping durante a semana para almoçar com os colegas de trabalho e 32% daqueles que freqüentam nos fins de semana têm como objetivo o lazer. “A baixa renda vai ao shopping, mas não compra como poderia”, diz ela.


Essa também é a constatação de Luís Henrique Stockler, diretor de Marketing e Expansão da rede de lojas Multicoisas, especializada em produtos para casa.”A baixa renda olha o produto no shopping e compra na loja de rua”, diz o executivo.


A razão para isso é a diferença de preço. No caso da sua empresa, que tem 60 lojas, das quais 36 na rua e 24 em shoppings, o preço de um mesmo produto, porém de marca diferente, pode ser até 20% mais alto na loja de shopping em relação à de rua. Ele explica que, nas lojas de rua de consumo popular, as marcas que fazem parte do sortimento são as mais em conta em razão do perfil do consumidor. Por isso, existe esse diferencial de preço.


De acordo com a pesquisa, mais de 80% dos consumidores de baixa renda vão ao shopping sempre quando há liquidação. Mas , quando essa população decide comprar no shopping, o gasto médio é elevado, de R$ 207,21, aponta a pesquisa.


Na análise de Stockler, esse resultado não é contraditório com o fato de a baixa renda preferir ir às compras na loja de rua no lugar das lojas de shoppings. O executivo destaca que o gasto médio é elevado nos shoppings porque essa população compra principalmente nos grandes magazines e lojas âncoras que oferecem facilidade de parcelamento, especialmente no cartão de crédito e no cartão próprio. “Cerca de 90% desses consumidores de menor renda optam pelo crediário agressivo”, constata.


Fazer compras pela internet ainda é um enigma para a baixa renda, aponta a pesquisa: 64,4% dos entrevistados dizem que confiam nas lojas que vendem produtos pela internet, mas 60,4% consideram essa transação perigosa.


A enquete mostra que 89,7% dos entrevistados nunca compraram pela rede mundial de computadores. “A internet tem grande potencial na baixa renda, mas falta informação”, diz Patrícia, ressaltando 44,6% dos entrevistados consideram complicado esse tipo de compra.


 


 


 


 

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