Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-3
O Banco Central divulgou ontem a pesquisa que faz toda semana com analistas do mercado financeiro. Sobre a taxa básica de juros, que subiu meio ponto percentual na semana passada, deu o previsível: as apostas são de mais altas até o fim do ano, levando a Selic para 12,75% ao ano em dezembro – um ponto acima dos atuais 11,75%.
Se isso de fato ocorrer – e o BC historicamente costuma seguir as expectativas do mercado -, o Brasil correrá na contramão da maioria dos países.
Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-3
O Banco Central divulgou ontem a pesquisa que faz toda semana com analistas do mercado financeiro. Sobre a taxa básica de juros, que subiu meio ponto percentual na semana passada, deu o previsível: as apostas são de mais altas até o fim do ano, levando a Selic para 12,75% ao ano em dezembro – um ponto acima dos atuais 11,75%.
Se isso de fato ocorrer – e o BC historicamente costuma seguir as expectativas do mercado -, o Brasil correrá na contramão da maioria dos países. A perspectiva de recessão nos Estados Unidos, que levaria, em tese, a atividade econômica global para baixo, tende a forçar a autoridade monetária dos países a reduzir os juros internos – isso ajudaria a estimular o consumo e os investimentos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, estimativas feitas pelo banco de investimentos JP Morgan projetam uma taxa anual de 1,75% no fim do ano, ou meio ponto abaixo dos atuais 2,25%. Para a prestigiosa revista britânica The Economist, a taxa do Reino Unido também recuará meio ponto, para 4,50% ao ano, o mesmo ocorrendo com a Zona do Euro. Mesmo países que, a exemplo do Brasil, ainda sofrem com surtos inflacionários ocasionais, não devem elevar os juros internos. É o caso da Rússia e da Turquia, que devem encerrar 2008 com os mesmos 3,5% e 7,75%, segundo o Global Data Watch.
A discrepância leva o economista e ex-ministro Delfim Netto a falar até em uma situação que “beira o escândalo”: “Temos de aumentar 2% no diferencial entre os juros nominais em comparação com os países desenvolvidos”. Há uma semana, o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), tradicionalmente avesso a opiniões desse tipo, reconheceu temer esse aumento no “diferencial” entre os juros. Com isso, estimula-se o que os economistas chamam de “arbitragem” (o investidor toma recursos no exterior pagando juros menores e aplica no local que paga taxas mais elevadas). O efeito colateral disso, alerta o FMI, é uma valorização ainda maior e artificial da moeda doméstica (no caso brasileiro, o real), o que traria problemas para as exportações.
exportações. Uma prova disso está na mesma pesquisa do BC com o mercado. O saldo da balança comercial este ano foi revisto para baixo pela quinta semana consecutiva: de US$ 25,30 bilhões para US$ 25 bilhões. Também ontem, o Ministério do Desenvolvimento divulgou que a balança está positiva em US$ 4,26 bilhões este ano, até a terceira semana do mês. É uma queda de 63,7% em relação ao mesmo período de 2007. As importações estão crescendo a um ritmo muito superior ao das exportações: as primeiras dispararam mais de 40%, enquanto as vendas ao exterior subiram 13%.
Outro dado negativo, e que guarda íntima ligação com a tendência de alta para os juros (e mesmo com a elevação ocorrida há uma semana) é na projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) este ano: caiu de 4,7% para 4,6%. Para 2009, foi mantida a estimativa de 4%. Ambas são menores do que a projeção oficial do governo, de 5% para os dois anos.
O Focus, nome dado ao boletim semanal do BC, também é pessimista com a inflação. As expectativas subiram para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que deve fechar o ano, na avaliação dos analistas ligados a bancos e corretoras, em 4,71% – na semana passada, eram esperados 4,66%. Se isso se confirmar, o IPCA ficará acima do centro da meta fixada para o período, de 4,5%. Há uma margem de tolerância de dois pontos, para cima e para baixo, mas a diretoria do Banco Central costuma mirar o centro da meta na definição da política monetária.
Os demais indicadores inflacionários também tiveram as projeções elevadas. O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) subiu de 5,81% para 6%; o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) teve a previsão aumentada de 6,02% para 6,21%; e o Índice de Preços ao Consumidor (IPC, medido na capital paulista) ficaria em 4,08%, ante 4,03% da semana anterior.