Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: B-6
O mercado financeiro reforçou o cenário que deve ser usado como argumento pelo Banco Central (BC) para elevar o juro nesta semana. No relatório Focus divulgado ontem, a projeção dos analistas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 4,50% para 4,66% em 2008, acima do centro da meta de inflação, de 4,50%, pela primeira vez desde o início do levantamento.
Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: B-6
O mercado financeiro reforçou o cenário que deve ser usado como argumento pelo Banco Central (BC) para elevar o juro nesta semana. No relatório Focus divulgado ontem, a projeção dos analistas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 4,50% para 4,66% em 2008, acima do centro da meta de inflação, de 4,50%, pela primeira vez desde o início do levantamento. Para o mercado, o juro vai subir 1,50 ponto percentual nos próximos meses, começando com 0,25 ponto amanhã, quando termina a reunião de dois dias do Comitê de Política Monetária (Copom).
Os analistas ouvidos no levantamento pioraram todas as projeções de inflação que são acompanhadas pelo BC. Na visão do mercado, os preços têm subido em praticamente todos os segmentos, o que gera reflexo nos vários indicadores. No Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M), que reajusta os contratos de aluguel, por exemplo, a expectativa de alta passou de 5,81% para 6,02%, na quinta alta consecutiva.
O economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, avalia que, por enquanto, alimentos geram a pressão mais evidente. Também é possível observar alguma elevação em tarifas públicas e serviços. Ele alerta, porém, para a chance de reajuste dos combustíveis no médio prazo. A gasolina e o gás de cozinha são controlados pelo governo, que não alterou os preços a despeito da disparada do petróleo no mercado internacional. Para ele, a alta poderia vir após as eleições municipais de outubro.
O tom negativo também teve reflexo no cenário para 2009, quando o IPCA deve ficar em 4,40%, contra aposta anterior de 4,30%. “Isso mostra que o mercado realmente pode ter se contaminado pelo discurso do BC”, diz o economista do Schahin.
Com a inflação acima do centro da meta, as projeções para o nível do juro subiram pela terceira semana seguida. Agora, o mercado acredita que a taxa deve terminar o ano em 12,75%, contra aposta anterior de 12,50%. Atualmente, a Selic está em 11,25%.
O aperto na economia deve começar amanhã, quando termina a reunião do Copom. Para o mercado, será anunciada alta de 0,25 ponto. Depois, analistas prevêem aumentos maiores, de 0,50 ponto cada em junho e julho. Então, o Copom concluiria o processo com a última elevação de 0,25 ponto em setembro ou outubro, o que completaria o ciclo de alta de 1,50 ponto porcentual.
Para 2009, há expectativa de que o BC retorne a taxa para o atual patamar, de 11,25%, o que indica corte de 1,50 ponto no decorrer do próximo ano.
Contas externas
Os analistas pioraram ainda mais suas projeções para as contas externas. A expectativa para 2008 do déficit em transações correntes, que contabiliza as trocas de mercadorias, serviços e rendas com o exterior, saltou de US$ 12,1 bilhões, na semana passada, para US$ 16 bilhões nesta semana.
O professor de economia da Fundação Getúlio Vargas, André Luiz Sacconato, explica o número com dois movimentos. O primeiro é a reação à alta do juro, que deve trazer mais dólares para o país, pode derrubar a taxa de câmbio, acelerar as importações e diminuir o saldo comercial. O segundo movimento é posterior e pode ser mais duradouro: como a crise americana está longe da solução, o estrangeiro pode retornar o investimento feito no Brasil se houver piora do quadro na maior economia do mundo.