Investment grade encurta ciclo de aumento dos juros

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Jornal do Commercio    Editoria: Economia    Página: A-2


O grau de investimento, concedido antes do que se esperava, é uma coroa com alguns espinhos, que obrigará o Banco Central a uma abordagem mais sutil da política monetária. A advertência é do ex-diretor de Dívida Pública do BC, Carlos Thadeu de Freitas, consultor da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O timing da Standard & Poor”s na decisão pegou boa parte do mercado, e o próprio BC, de surpresa, a julgar pela evolução dos mercados futuros de juros e câmbio às vésperas do anúncio.

Jornal do Commercio    Editoria: Economia    Página: A-2


O grau de investimento, concedido antes do que se esperava, é uma coroa com alguns espinhos, que obrigará o Banco Central a uma abordagem mais sutil da política monetária. A advertência é do ex-diretor de Dívida Pública do BC, Carlos Thadeu de Freitas, consultor da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O timing da Standard & Poor”s na decisão pegou boa parte do mercado, e o próprio BC, de surpresa, a julgar pela evolução dos mercados futuros de juros e câmbio às vésperas do anúncio. “Os vendidos em dólar e os detentores de swaps reversos, fartamente oferecidos pelo BC como garantia contra uma improvável desvalorização aguda do real, agradeceram penhorados,” ironizou.


A concessão do investment grade, que tende a ser acompanhada pelas demais agências de risco, deve encurtar o ciclo de elevação dos juros. “Não que haja espaço no curtíssimo prazo para redução das taxas, pelo menos até que se tenha uma dimensão mais precisa da evolução dos preços dos alimentos e da demanda interna. Porém, é certo que o Copom terá que levar em conta que o prêmio de risco cedeu e que a taxa de juro real subiu, ainda mais se comparada à taxa americana, reduzida pelo Federal Reserve a 2%”, argumenta.


Ajudado pela divulgação do IPCA e do IPCA-15 (com período de coleta encerrado no dia 15 do mês correspondente), o BC induziu uma parcela crescente do mercado a apostar em alta do juro até 14%. “Com o investment grade, isso rapidamente se alterou, em questão de horas. O DI futuro para janeiro de 2010 cedeu, e para janeiro de 2009 subiu. Sinal da aposta em um ciclo mais curto, como o BC indicou na nota, mas ele próprio punha em dúvida com a oferta de swap reverso. “Agora existe um limite para a elevação de juros,” diz Feitas.


Reajuste


Nem o reajuste de 15% no diesel e 10% na gasolina, preços-guia para os custos da agricultura e da indústria, que não havia sido previsto nos relatórios de inflação do BC, dispensa o Copom de uma correção de rota. “A ausência de menção ao possível aumento não altera o fato de que só com o “grito de guerra” na ata, anunciando a disposição de novos aumentos da taxa antes mesmo de ter um quadro mais claro sobre o impacto da primeira mexida, os mercados futuros, centrais para a definição de custo dos empréstimos privados, dispararam,” diz Freitas.


Com o grau de investimento, fundos de pensão e seguradoras estrangeiras, impedidos de alocar recursos em países e empresas com rating abaixo de BBB-, passarão a aplicar montantes crescentes no Brasil, o que aumentará a pressão sobre o dólar. “A próxima reunião do Copom já pegará o dólar em queda e a dívida pública pressionada pela necessidade de emitir títulos para enxugar a liquidez excessiva, decorrente da entrada maciça de divisas. No curto prazo, essa combinação de juros em alta e dólar em baixa piora a relação dívida/PIB, exatamente o item que mais preocupa as agências.” No plano fiscal, em que o superávit nominal decorreu do atraso na execução de despesas e do impacto favorável do dólar então em alta sobre a parcela credora das contas públicas, uma dose extra de cautela torna-se necessária. “Pelo menos no curto prazo, até que se tenha clara a extensão dos estragos na economia americana e da pressão inflacionária no Brasil, a Selic tenderá a ficar estável. Mesmo assim, haverá uma ligeira deterioração da relação dívida/PIB, no aspecto nominal, por conta da despesa maior com juros e da emissão de títulos em maior quantidade. Assim, as demais despesas terão que sofrer controle mais rigoroso, para comportar a prodigalidade do BC,” avalia Freitas.


A melhora do rating acentua o fato de que o BC está pagando um preço alto, sob a forma do diferencial entre juros internos e externos, por uma espécie de seguro contra a depreciação do real. “O BC, ao comprar dólar com expectativa de juros em alta, está tendo prejuízo. Quadro que tende a agravar-se com a mudança de cenário e o aumento no ingresso de dólares. O BC terá que se adaptar a um cenário inesperado, mesmo que positivo. Caso o Copom não entenda que o quadro tornou-se outro, bem diferente, a pressão sobre o dólar tenderá a agravar muito o déficit de transações correntes, porque irá reduzir drasticamente a receita das exportações e incentivar as importações. O lado bom é que o dólar baixo ajuda a controlar custos, mas o ajuste fino desse processo sugere encurtar e muito o ajuste, dispensando novas altas de juros,” conclui o ex-diretor do BC.


 




 


 


 


 

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