Inflação: redução de meta não exige sacrifício

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Jornal do Commercio   Editoria: Economia   Página: A-2


O cenário econômico e as expectativas do mercado para a inflação em 2007 e 2008 abrem espaço para a redução do centro da meta na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), nesta quarta-feira. Na avaliação de economistas ouvidos pelo Jornal do Commercio, a mudança não exigiria sacrifício excessivo para o País, temor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Jornal do Commercio   Editoria: Economia   Página: A-2


O cenário econômico e as expectativas do mercado para a inflação em 2007 e 2008 abrem espaço para a redução do centro da meta na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), nesta quarta-feira. Na avaliação de economistas ouvidos pelo Jornal do Commercio, a mudança não exigiria sacrifício excessivo para o País, temor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A fixação de uma nova meta de 4% para 2009 – contra os atuais 4,5%, que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já disse querer manter – é considerada importante para gerar uma maior previsibilidade e levar o Brasil a um nível de inflação mais próximo à da média dos países emergentes, em torno de 3% ao ano.


O último relatório de mercado do Banco Central mostra que a mediana das estimativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que baliza a meta de inflação, foi mantida em 3,59% para 2007 e 4% em 2008, bem abaixo do centro de 4,5% para os dois anos. Na última semana, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reduziu de 3,8% para 3,4% sua projeção para a inflação medida pelo IPCA este ano e estipulou 4% para o ano que vem.


Margem


“Caso isso se confirme, serão três anos seguidos com um resultado abaixo do centro, o que dá margem para a autoridade monetária reduzir a meta para 2009”, diz a economista do instituto Maria Andréia Parente. Ela pondera que, se de um lado a inflação se mostra estabilizada, por outro o crescimento econômico ainda tem ficado aquém do esperado.


“O Conselho terá que pesar e combinar os fatores juros, inflação e crescimento. Ao definir a meta, o CMN vai estar desenhando na cabeça dos agentes econômicos uma determinada trajetória para a taxa Selic”, alerta.


Para o economista-chefe da área de macroeconomia da LCA Consultores, Luis Suzigan, a meta pode ser reduzida, mas de forma comedida, mantendo seu centro em ao menos 4% nos próximos cinco anos. A parcimônia ao traçar o novo percentual é justificada pela imprevisibilidade de choques externos sobre os preços no futuro, bem como uma possível pressão da melhora do nível de emprego e renda sobre o custo dos serviços. “Essas pressões, aliadas a uma meta mais baixa, podem levar a uma política monetária mais restritiva e comprometer o crescimento”, observa.


Sua análise do quadro inflacionário, entretanto, não inclui qualquer situação que leve a inflação a ficar acima do centro da meta, especialmente em função do aumento das importações e seu impacto sobre os preços internos e a boa evolução do investimento produtivo, que reduz o risco de gargalos de oferta pelos próximos dois anos. A LCA estima que o IPCA atinja 3,5% este ano e 3,6% em 2008, levando em conta um câmbio médio de R$ 2.


Adotar um alvo mais baixo para a inflação é uma forma de gerar mais previsibilidade para a economia, argumentam alguns economistas. “Isso estimula o consumo da população, que pode se organizar melhor e contar com mais renda, bem como o investidor, que terá mais segurança e não terá de optar pelo mercado financeiro”, exemplifica Caio Megale, economista-chefe da Mauá Investimentos. Ele lembra que, mesmo com uma meta de 4%, o Brasil ainda estará longe da inflação média de 3% dos demais países emergentes. A atual inflação abaixo de 4,5% e as expectativas ancoradas entre 3,8% e 4% para o IPCA são a prova cabal de que perseguir uma meta menor não demandará sacrifício ao País.


Já a manutenção do centro de 4,5% pode acabar sendo um tiro pela culatra na opinião de Megale. O economista alega que o ganho em termos de PIB seria muito pequeno e não justificaria o impacto negativo que poderia ser gerado sobre as expectativas do mercado.


“A inflação depende do nível de atividade e das expectativas. Se a meta de 2009 fica em 4,5%, quem trabalhava com 4% vai começar a elevar suas expectativas e isso pode se refletir em aumento de preços”, diz. Esse tipo de reação do mercado poderia ser mais danosa ao crescimento.


Ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas tem uma posição mais alinhada com a do ministro da Fazenda, Guido Mantega. A permanência da meta de 4,5% é tida como prudente por não sacrificar o crescimento econômico. Ancorar as expectativas em uma meta menor desde já, avalia, pode manter a taxa de juros nominal mais alta por mais tempo. “O presidente Lula está certo. Houve uma dose adicional de sacrifício para o setor real da economia nos últimos dois anos e pagamos o preço alto de crescer pouco.”


Credibilidade


Ao contrário dos que pregam que assumir uma meta menor daria mais credibilidade ao Banco Central, Freitas crê que isso pode por em xeque essa credibilidade ao mínimo sinal de elevação de preços. “Fatores que hoje estão favoráveis como o câmbio, podem não se manter assim de forma permanente. Nesse caso o BC terá que elevar os juros para não colocar essa credibilidade em jogo”, aponta. Freitas lembra casos como o do Chile, que levou dez anos para chegar à atual meta de inflação de 3%.


O amadurecimento do regime brasileiro de metas poderia vir com algumas modificações. O diretor-executivo do Itaú e ex-diretor de Política Econômica do BC, Sergio Werlang, acredita que o voto nominal dos componentes do CMN deixaria clara a posição de cada membro, a exemplo do Comitê de Política Monetária (Copom). A vantagem disso seria a maior transparência e previsibilidade das decisões do Conselho, formado por membros da Fazenda, Planejamento e Banco Central.


Em relação à banda de tolerância, de 2% para cima ou para baixo, Werlang diz que ainda não é o momento de alterá-la. Ele explica que na maior parte dos países que adotam o sistema de metas ela é fixada em 1%, mas a maioria utiliza um índice de preços ajustado, não o índice cheio como o Brasil. “Por conta disso precisamos de uma banda um pouco maior, mas que poderia cair a 1,5% em um futuro próximo”, afirma.


O economista Caio Prates, do Grupo de Conjuntura da UFRJ, também concorda na manutenção da banda atual, combinada com uma meta de 4% para 2009. “É bom manter uma margem de flexibilidade para o caso de mudanças à frente.” Prates avalia que assumir uma meta de 4,5% para 2009 em um momento em que as expectativas de inflação estão abaixo desse número é um erro.

  




 


 

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