O Estado de São Paulo Editoria: Economia Página: B-4
O maior comprometimento da renda do brasileiro com o crediário já começa a ter reflexos, ainda que discretos, na inadimplência. No primeiro trimestre, o calote do consumidor aumentou 6,5% em relação a igual período de 2007, segundo o Indicador Serasa de Inadimplência, que reúne dados de todo o País. Só em março, o calote subiu 4,7% na comparação com o mesmo mês de 2007.
O Estado de São Paulo Editoria: Economia Página: B-4
O maior comprometimento da renda do brasileiro com o crediário já começa a ter reflexos, ainda que discretos, na inadimplência. No primeiro trimestre, o calote do consumidor aumentou 6,5% em relação a igual período de 2007, segundo o Indicador Serasa de Inadimplência, que reúne dados de todo o País. Só em março, o calote subiu 4,7% na comparação com o mesmo mês de 2007. A alta foi de 9,8% ante fevereiro.
“Neste ano, estamos observando um crescimento gradual da inadimplência”, observa o gerente de Análise Setorial da Serasa, Marcos Abreu. O indicador reúne informações sobre cheques sem fundos, títulos protestados, dívidas vencidas com bancos, financeiras e cartões de crédito.
O dado mais significativo do indicador é o aumento da inadimplência das dívidas com cartões de crédito e financeiras. O valor médio das pendências no primeiro trimestre foi de R$ 446,06, cifra 37,5% maior em relação à registrada no mesmo período de 2007.
“Há uma sinalização perigosa na inadimplência do cartão de crédito”, diz Abreu. Ele observa que houve um acesso maior ao cartão de crédito por consumidores que não estavam acostumados a usar esse meio de pagamento.
Além disso, diz o economista, contribuiu para o aumento da inadimplência em geral a expansão do endividamento, puxada pelo alongamento dos prazos, pelos juros menores nos últimos meses e pela recuperação dos rendimentos. Com o aumento da inflação dos alimentos neste início de ano e das despesas típicas do período com impostos (IPVA, IPTU) e educação, o quadro mudou. “A inflação subiu e sobraram menos recursos para pagar as dívidas.”
Outro indicador de março confirma que a inadimplência do consumidor aumentou. O índice de inadimplência líquida da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) encerrou o mês passado com variação de 7,6%. É a maior taxa para um mês de março desde 2001. Está 0,5 ponto porcentual acima da inadimplência líquida de março do ano passado e é 0,7 ponto porcentual maior do que o dos últimos cinco anos para o mês de março. A inadimplência líquida é o saldo entre o número de crediários inadimplentes com prestações em atraso acima de 30 dias e os carnês que foram renegociados, dividido pelas vendas financiadas de três meses anteriores.
“Acendeu o sinal de alerta”, diz o economista da ACSP, Emilio Alfieri. Ele observa que, pela primeira vez nos últimos meses, em março o volume de crediários inadimplentes aumentou mais rapidamente do que o total de financiamentos em atraso cuja dívida foi renegociada. Ele pondera que, por enquanto, o índice de inadimplência está muito longe de atingir dois dígitos. Mas destaca que não há mágica para compatibilizar o descasamento entre o ritmo de expansão do crédito e o aumento da renda.
Até agora, a situação não se deteriorou porque houve o ingresso de uma nova camada da população no mercado de consumo, diz o economista. Dados da ACSP apontam que, no ano passado, 20 milhões de consumidores que nunca tinham comprado a prazo ingressaram no cadastro da associação.
“O momento é de transição no mercado de crédito”, diz o sócio da RC Consultores, Fábio Silveira. Ele observa que, até fevereiro, o cenário era bastante positivo para o crédito. Com a elevação dos juros cobrados do consumidor em março, que deverá ser sancionada pela alta da taxa básica de juros na reunião desta semana do Banco Central, deve ocorrer uma desaceleração no crédito. “A expansão continua, mas em ritmo menor por causa da inadimplência, que funciona como um corretivo endógeno do crédito.”
Apesar dos bancos e das lojas informarem que a inadimplência continua estável, empresas especializadas em recuperação de crédito confirmam a alta do calote. Nos últimos 30 dias, a Senarc, especializada em renegociação de dívidas, teve um aumento no volume de trabalho. Segundo o diretor da empresa, Celso Amâncio, cresceu 15% a procura de bancos, lojas e financeiras por serviços de cobrança para crediários inadimplentes.
Consumidores fazem dívidas para pagar outras dívidas
O brasileiro está fazendo dívida para pagar outra dívida. Em fevereiro deste ano, o saldo de recursos emprestados a pessoas físicas aumentou R$ 4,1 bilhões em relação ao mês anterior.
Segundo dados do Banco Central (BC), o estoque da dívida, que tinha encerrado janeiro em R$ 246,6 bilhões, subiu para R$ 250,7 bilhões em fevereiro. Em contrapartida, os novos empréstimos concedidos em fevereiro somaram R$ 48,1 bilhões.
“Por esses números pode-se concluir que R$ 44 bilhões dos créditos liberados em fevereiro foram usados para saldar dívidas dentro do próprio sistema”, observa o consultor para o sistema financeiro e economista pela Universidade de Brasília, Humberto Veiga.
Uma parte dos endividados assumiu novas dívidas para quitar outras já existentes. Outra parte dos endividados liquidou suas pendências e outros consumidores ingressaram em seu lugar.
Pesquisa sobre o perfil dos inadimplentes realizada em março pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) confirma a procura por novos empréstimos para quitar dívidas antigas. A enquete, que consultou 823 consumidores inadimplentes em março, revela que 55% dos que levantaram crédito consignado, aquele com desconto diretamente do salário ou da aposentadoria, usaram o dinheiro para quitar outras dívidas.
No Banco BMG, por exemplo, um dos líderes do crédito consignado para funcionários públicos, pensionistas e aposentados, 70% dos que contraíram empréstimo consignado liquidaram outros financiamentos com juros maiores.