A recuperação, nos primeiros meses do ano, das vendas no varejo, da produção e vendas de veículos, e do valor dos salários sinaliza que o país tem reagido de forma positiva aos impactos da crise financeira mundial, afirmou nesta quarta-feira (25) o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em audiência pública no Senado.
A recuperação, nos primeiros meses do ano, das vendas no varejo, da produção e vendas de veículos, e do valor dos salários sinaliza que o país tem reagido de forma positiva aos impactos da crise financeira mundial, afirmou nesta quarta-feira (25) o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em audiência pública no Senado. Para Meirelles, contribuíram para essa reação o amadurecimento do mercado interno e o montante de reservas internacionais e de depósitos compulsórios disponíveis no início da crise, permitindo que o governo adotasse medidas necessárias à proteção da economia nacional.
– Apesar de enfrentar problemas, o Brasil está hoje em melhores condições que a grande maioria dos países emergentes – afirmou ele. Meirelles falou aos senadores das comissões de Assuntos Econômicos (CAE) e de Acompanhamento da Crise Financeira e de Empregabilidade, em audiência pública conjunta.
Para o presidente do Banco Central, a expressiva queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no último trimestre de 2008 deve ser avaliada como uma redução do acelerado crescimento verificado no período anterior – o país registrou 6,8% de crescimento do PIB no terceiro trimestre de 2008 e 1,3% nos três meses seguintes. Apesar de a queda refletir problemas enfrentados pela economia real, disse, a manutenção de índices positivos dão tranquilidade para a gestão da crise.
Conforme dados apresentados pelo economista, a venda de veículos, que caiu a 180 mil unidades mensais em dezembro de 2008, chegou a 260 mil unidades comercializadas em janeiro, patamar próximo ao observado antes de crise (280 mil carros). Movimento semelhante, disse, vem ocorrendo nas vendas no varejo, que em janeiro cresceram 1,4% em relação ao mês anterior.
Para Meirelles, os dados positivos podem ser explicados pelo fato de o volume de crédito doméstico no país (US$ 620 bilhões), antes da crise, ser significativamente superior ao montante de crédito externo (US$ 97 bilhões), reduzindo a exposição do país à turbulência no mercado internacional. Em consequência, disse, a expectativa das taxas de juros continuou declinante, ao contrário do ocorrido em outras crises. Conforme explicou, a forte dependência externa do país no passado obrigava a elevação das taxas de juros em momentos de crise na economia global.
Também a redução da parcela de dívida pública atrelada à variação cambial e o aumento da fatia de débitos pré-fixados ou atrelados a índices de preços foram apontados como fatores relevantes para a estabilidade da economia. Em consequência, observou, a expectativa de queda de inflação se mantém, mesmo com toda a turbulência na economia mundial.
“Poupança precisa mudar”
Meirelles disse que será inevitável revisar as regras do sistema de poupança, devido à tendência declinante dos juros no país, mas que está fora de sua competência arbitrar a solução. Como o cálculo da rentabilidade da poupança é atrelado à Taxa Referencial (TR), esse investimento vem ganhando valorização frente a demais aplicações, por causa da queda na taxa Selic, os juros primários fixados pelo Conselho de Política Monetária (Copom).
Em áreas do governo, o temor é de uma ampla saída dos investidores para a poupança, em prejuízo de outros investimentos influenciados pela Selic e que geram recursos para diversas áreas de crédito, como o capital de giro das empresas, crédito pessoal e o financiamento de carros. Meirelles admitiu que essa questão é um desafio para o governo e, ainda, para o Congresso, já que as mudanças necessárias também dependem de alterações legislativas.
– Esse é, de fato, um desafio. De um lado, é a poupança dos pequenos aplicadores e, de outro, temos também a questão dos mutuários do Sistema Financeiro da Habitação. Em última análise, será uma questão desafiante, que vai fazer jus à capacidade política e intelectual do Congresso – disse.
Spreads
A questão da poupança foi levantada pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP), em audiência conjunta das comissões de Assuntos Econômicos (CAE) e de Acompanhamento da Crise Financeira e de Empregabilidade. No debate, outro assunto de destaque foram os spreads bancários, termo que se refere à diferença entre as taxas de juros pagas aos aplicadores e as cobradas aos tomadores de empréstimos. Ultimamente, este tem sido um tema recorrente no Congresso, já que os senadores identificam nos spreads um dos fatores que mais influenciam para as altas taxas de juros no país.
O senador César Borges (PR-BA) chegou a dizer que a questão dos spreads sempre vem sendo abordada de forma “evasiva” pelas autoridades. Antonio Carlos Junior (DEM-BA) observou que o crescimento do spread tem grandes repercussões sobre o cidadão comum e as pequenas e médias empresas. Em resposta, Meirelles disse que a queda do diferencial entre as taxas para aplicadores e tomadores de recursos requer um aumento na competição entre os bancos e, nesse sentido, salientou que as instituições oficiais podem desempenhar papel importante, já que controlam mais de 50% do mercado financeiro nacional.
Mas um nível maior de competição e mesmo uma ação mais agressiva dos bancos públicos, para captar clientes e com isso induzir a queda dos spreads, conforme o presidente do BC, também está na dependência da adoção do “cadastro positivo” no país. Ele lembrou que há projeto, em tramitação na Câmara dos Deputados, nesse momento, prevendo a portabilidade das informações cadastrais dos clientes, quando este optar por transferir sua conta para outro banco.
– Depois de vinte anos, é muito difícil uma pessoa ou empresa passar para outro banco. É como se começasse do zero – comentou.
Ao senador Roberto Cavalcanti (PRB-PB), Meirelles disse que o cadastro positivo poderá ajudar a quebrar a desconfiança dos bancos com relação a novos clientes. Com o novo mecanismo, opinou, quem tem um bom histórico de crédito, terá facilidade em obter financiamento em qualquer banco. Em sua manifestação durante o debate, Roberto Cavalcanti havia alertado para o risco de o cadastro positivo se tornar um “cadastro impositivo”.
Mesmo com essa situação favorável, o presidente do Banco Central destacou a adoção de medidas para ampliar a liquidez no mercado de crédito, como o aumento de recursos para financiamentos via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a elevação de aportes no crédito rural. Ao manifestar preocupação com a perda da capacidade de financiamento dos bancos pequenos e médios, Meirelles informou que o Banco Central estuda mecanismos para dar maior competitividade a esse segmento.
Agência Senado, 25 de março de 2009.