Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-3
Na tentativa de driblar as restrições orçamentárias, o Ministério do Trabalho negocia com o Sistema S (Sesi, Senai, Sesc, Senac, entre outros) alternativas para elevar a oferta de qualificação de mão-de-obra. O ministro Carlos Lupi disse que pretende pagar ao sistema para que ofereça treinamento a trabalhadores que recebem o seguro-desemprego.
Na negociação, o Sistema S teria de reduzir o custo da hora/aula, considerado elevado pelo governo.
Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-3
Na tentativa de driblar as restrições orçamentárias, o Ministério do Trabalho negocia com o Sistema S (Sesi, Senai, Sesc, Senac, entre outros) alternativas para elevar a oferta de qualificação de mão-de-obra. O ministro Carlos Lupi disse que pretende pagar ao sistema para que ofereça treinamento a trabalhadores que recebem o seguro-desemprego.
Na negociação, o Sistema S teria de reduzir o custo da hora/aula, considerado elevado pelo governo. Em contrapartida, o governo supriria a ociosidade nos cursos oferecidos pelas entidades. “Já que as vagas iam sobrar, podem cobrar só metade do preço. Para o governo, isso permitirá que o trabalhador arranje um emprego mais rápido e reduza os gastos com as parcelas do seguro-desemprego”, afirmou Lupi.
Para este ano, antes dos cortes iminentes do Orçamento por conta do fim da CPMF, estavam previstos R$ 857 milhões para a qualificação. Os recursos provêm do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), que também estão sujeitos à tesoura da equipe econômica.
Seguro-desemprego
Inicialmente, Lupi cogitou vincular o pagamento do seguro-desemprego a programas de treinamento, mas desistiu, pois isso exigiria mudanças na legislação.
“Mas vamos tentar fazer um monitoramento, oferecendo treinamento a esse trabalhador. Isso deverá, inclusive, reduzir as fraudes no seguro-desemprego”, afirmou o ministro, referindo-se a casos de trabalhadores que simulam demissões para receber o benefício.
“Sobra” 1 milhão de empregos qualificados
O Brasil registrou em 2007 o pior desempenho na inserção ou recolocação de trabalhadores no mercado formal dos últimos anos. Dados do Sine (Sistema Nacional de Empregos) obtidos pela Folha mostram que o sistema público de recrutamento captou no ano passado o número recorde de 1,927 milhão de vagas no mercado, mas somente 907 mil foram preenchidas pelo sistema.
Sobrou 1,02 milhão de postos -volume recorde. O índice de recolocação dos trabalhadores ficou em 47%, o que é o menor percentual desde 2000.
Na avaliação do Ministério do Trabalho, que é o responsável pelo Sine, a falta de qualificação dos trabalhadores foi o principal obstáculo para a (re)inserção da mão-de-obra no mercado formal.
A sobra de vagas ocorre num momento de expansão do emprego. Nesta semana, o IBGE divulgou a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas do país, que fechou o ano passado em 9,3% -o menor nível anual da série histórica iniciada em 2002.
Entre as ocupações em que houve sobra de vagas em 2007 estão motoristas de carretas e engenheiros. No caso dos “carreteiros”, só 11% das vagas oferecidas no Sine foram preenchidas. A atividade influencia no sistema de transporte de carga e pode comprometer o escoamento da produção.
“O empresário não vai colocar um caminhão que vale R$ 400 mil e uma carga ainda mais valiosa nas mãos de um trabalhador sem qualificação para a tarefa”, diz Ezequiel Nascimento, assessor especial do ministério. Entre os engenheiros, a falta de profissionais qualificados ocorreu principalmente no Estado de São Paulo.
A atividade é crucial para o crescimento econômico, pois afeta projetos de infra-estrutura. O ministério destaca que a escassez de mão-de-obra qualificada é maior nos setores que estão sendo reativados, como a indústria naval, ou naqueles que respondem mais rapidamente ao crescimento econômico, como a indústria de base.
“Se queremos crescer, é preciso superar a questão da baixa qualificação. Se não fizermos isso, essa carência de trabalhador qualificado poderá bloquear ou atenuar as possibilidades de crescimento da economia”, afirma o professor da Unicamp Cláudio Dedecca.
O especialista avalia, porém, que os índices de recolocação por parte de sistemas públicos de emprego, não apenas no Brasil como em outros países, não são muito elevados, se situando entre 50% e 60%.
“Além disso, não dá para termos esperanças. As empresas usam diferentes formas de recrutar trabalhadores no mercado. Além do sistema público, há o privado e a contratação direta”, afirma.
Dedecca diz que o país atravessou longo período sem crescimento contínuo do mercado de trabalho formal, o que teria “sucateado” as vagas existentes e também levado as empresas a não investir em treinamento.
No ano passado, o Ministério do Trabalho direcionou R$ 114 milhões para programas de qualificação. A Folha não conseguiu levantar o quanto foi efetivamente gasto.