Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-2
A crise internacional ainda não foi suficiente para abortar planos de investimento produtivo no Brasil. Dados preliminares do Banco Central (BC) revelam que ingressaram US$ 4 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto (IED) neste mês, até ontem. Mesmo sendo um resultado parcial, já é um volume recorde para meses de janeiro. Mas o País não ficou imune ao nervosismo externo. Neste mês, estrangeiros retiraram US$ 1,8 bilhão de aplicações em bolsa de valores e títulos de renda fixa.
Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-2
A crise internacional ainda não foi suficiente para abortar planos de investimento produtivo no Brasil. Dados preliminares do Banco Central (BC) revelam que ingressaram US$ 4 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto (IED) neste mês, até ontem. Mesmo sendo um resultado parcial, já é um volume recorde para meses de janeiro. Mas o País não ficou imune ao nervosismo externo. Neste mês, estrangeiros retiraram US$ 1,8 bilhão de aplicações em bolsa de valores e títulos de renda fixa. Os dólares voltaram aos países de origem e derrubaram os preços no mercado brasileiro.
No ano passado, o País recebeu US$ 34,616 bilhões em Investimentos Estrangeiros Diretos (IED, o maior valor já registrado pela série estatística do BC, iniciada em 1947, mais que o dobro do registrado em 2006 (US$ 18,782 bilhões). O montante equivale a uma média mensal de cerca de US$ 2,9 bilhões. Apesar do recorde, o valor do ano passado ficou um pouco abaixo dos US$ 35 bilhões previstos pelo BC. Na previsão feita pelo BC para 2008, de investimentos estrangeiros de US$ 28 bilhões, são considerados apenas novos investimentos. Em dezembro, esses investimentos somaram US$ 886 milhões.
“A despeito da volatilidade externa, os ingressos (de IED) continuam significativos. Os recursos têm entrado pelos fundamentos e pela confiança na economia brasileira. Há saída de recursos em aplicações de mais curto prazo, como as ações e renda fixa”, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Para o BC, o resultado do IED e o acesso que companhias brasileiras têm a empréstimos internacionais mostram que a crise não deteriorou a confiança dos estrangeiros com relação ao País. Lopes prevê que o mês termine com US$ 4,5 bilhões de IED.
O economista-chefe do Banco Safra, Eduardo de Faria Carvalho, avalia que não é surpresa ver os bons resultados do IED. Ele explica que o investimento na construção de uma fábrica ou ampliação de uma unidade, por exemplo, é fruto de uma decisão de longo prazo. “Esses recursos têm entrado pelas perspectivas da economia brasileira. Eles olham para os fundamentos e não para o sobe-e-desce das bolsas”, disse. Mas se o setor produtivo não tem sentido a crise internacional, o mercado financeiro tem sofrido com a turbulência. Em janeiro, até hoje, US$ 1,8 bilhão em aplicações financeiras deixaram o Brasil. “A crise atinge os investimentos de curto prazo de forma direta, quase imediata”, disse Carvalho.
A saída parece não ter surpreendido o BC. “Era de se esperar que o investidor de bolsa saísse daqui também”, disse Altamir Lopes. Ele argumenta que a retirada desses recursos é fruto de um movimento global, que derrubou praticamente todas as bolsas mundiais.
A saída de estrangeiros, porém, não acontece apenas na Bovespa. É o que mostram os dados do fluxo cambial de janeiro, que teve saldo negativo total de US$ 1,65 bilhão até o dia 24. O chamado fluxo financeiro, que registra operações em bolsa, títulos, IED, empréstimos, remessas de lucros, entre outros, teve saída líquida de US$ 4,844 bilhões. Apesar disso, Lopes mostra tranqüilidade a respeito do quadro geral e diz que ainda não foi acesa a luz amarela.
O professor da USP Fabio Kanczuk avalia que houve certo “pânico” inicial com a piora do noticiário internacional, mas não demonstra preocupação. Ele aponta a expectativa de novo corte do juro nos EUA como a principal notícia positiva. “A redução do juro americano faz com que investidores estrangeiros tenham mais ganho no Brasil. Isso aumenta a atratividade do País e deve amenizar essa fuga do início do ano”, diz.
Negócios
Para economistas, a forte entrada de IED neste mês, um número acima da média, pode ter sido influenciado pelo ingresso de recursos para pagamento de algum grande negócio fechado recentemente. Poderia estar relacionado, por exemplo, à compra, por US$ 5,5 bilhões, da MMX, controlada pelo empresário Eike Batista, pela mineradora inglesa Anglo American.
A perspectiva, dizem os economistas, é de que os investimentos estrangeiros este ano fiquem próximos dos US$ 34,6 bilhões de 2006. “Gostaria de ver os dados com detalhes, porque é um número muito alto, em função da crise financeira internacional”, afirmou Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e hoje assessor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “Algum fator extra deve ter entrado em cena para que o número ficasse tão alto.”
Gomes de Almeida considera natural que haja desaceleração no ritmo de investimentos estrangeiros no País até que o cenário internacional fique mais claro. “O cenário continua muito favorável para o investimento externo no Brasil, e a razão principal é o crescimento da nossa economia.”
O presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima, lembra que, se projetado para o ano, o número parcial de janeiro sinaliza um ingresso de US$ 53 bilhões ao País. “É óbvio que isso não vai se repetir, mas os próximos dados deverão ser muito bons, a despeito da incerteza em relação ao crescimento global.” A previsão da Sobeet para este ano é de ingresso de quase US$ 35 bilhões em investimento direto estrangeiro, repetindo o recorde de 2006.
Na avaliação de Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, a tendência geral dos Investimentos Estrangeiros Diretos no Brasil é de desacelerar gradualmente. A crise internacional, segundo ele, deve frear um pouco quem vai decidir investir no País e isso deve ser mais sentido nesse primeiro semestre. Também a crise de energia poderia afugentar investidores, observa o economista. “Se de fato se consolidar um cenário de energia ainda mais cara este ano, como esperamos, parte dos investidores pode ficar arredio e esperar para ver como a situação será resolvida”.
No ano passado, o setor que mais recebeu investimentos estrangeiros foi o de metalurgia, que ficou com US$ 4,699 bilhões dos recursos que entraram. Em seguida ficaram os setores financeiro (US$ 4,524 bilhões) e de mineração (US$ 3,249 bilhões). O setor de serviços como um todo ficou com 46,9% dos investimentos recebidos, enquanto o industrial teve 39,3%, e o restante ficou com o agropecuário e o extrativo mineral.