Estratégia comercial alimenta incertezas

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O Estado de São Paulo  Editoria: Economia  Página: H-2


No ano passado, o Brasil movimentou US$ 281,2 bilhões nos portos, resultado de US$ 160,6 bilhões em exportações e de US$ 120,6 bilhões em importações. Mas amargou um sinal que tende a se manter nas contas dos próximos anos.


Em 2007, o saldo positivo de US$ 40 bilhões foi US$ 6,4 bilhões menor que o do ano anterior – um reflexo do ritmo mais acelerado das compras externas que dos embarques de produtos brasileiros.

O Estado de São Paulo  Editoria: Economia  Página: H-2


No ano passado, o Brasil movimentou US$ 281,2 bilhões nos portos, resultado de US$ 160,6 bilhões em exportações e de US$ 120,6 bilhões em importações. Mas amargou um sinal que tende a se manter nas contas dos próximos anos.


Em 2007, o saldo positivo de US$ 40 bilhões foi US$ 6,4 bilhões menor que o do ano anterior – um reflexo do ritmo mais acelerado das compras externas que dos embarques de produtos brasileiros. Os saldos dos próximos anos, portanto, tendem a ser menos polpudos.


Fernando Ribeiro, economista-chefe da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), chama a atenção para o fato de que as exportações de 2007 foram muito favorecidas pelos preços elevados das matérias-primas comercializadas em larga escala no mercado internacional. Em valores, houve aumento de 16,6% em relação ao ano anterior.


Em quantidade, entretanto, os embarques cresceram apenas 6%, ante 22% em 2004. As importações, em valores, aumentaram 32% em 2007, duas vezes mais que as exportações.


“Apesar das reservas internacionais elevadas, não se pode descartar problemas futuros nas contas externas, provocados pela queda dos saldos comerciais”, afirma Ribeiro.


O secretário de Comércio Exterior Welber Barral afirma que o País rompeu pelo menos três vícios históricos na área de comércio exterior nos últimos anos e ganhou fôlego para se ampliar. A falta de cultura exportadora no setor empresarial era um dos vícios mais arraigados e impedia até a formação de mão-de-obra para a atividade.


A busca por mercados tradicionais, o segundo vício, foi diluída pela promoção comercial em países que não estavam entre os destinos da pauta exportadora. O terceiro vício superado foi o da venda de produtos sem valor agregado, que hoje se expressa tanto na venda de aviões da Embraer como na de carnes e outros produtos do setor agropecuário.


No comércio bilateral, a China despontou como ameaça, mas igualmente como uma mina de negócios. Em 2007, as importações de produtos chineses alcançaram US$ 12,6 bilhões e o país figurou como segundo maior provedor de bens para o Brasil, depois dos Estados Unidos. Do total importado pelo País no período, 10,5% vieram da China.


Esse fato disparou a gritaria do empresariado nacional e levou o governo a restringir o ingresso de produtos têxteis e outros itens e a aumentar as investigações de dumping e subsídios nessas importações.


Mas as exportações e as perspectivas de investimentos brasileiros na China também cresceram. Em 2007, as exportações para o mercado chinês somaram US$ 10,7 bilhões, 6,7% dos embarques brasileiros do período. Cerca de dois terços desse total correspondeu a minério de ferro e soja.


Na vertente diplomática, a política comercial contornou as negociações com grandes parceiros, manteve o foco na negociação da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e na integração sul-americana e investiu em acordos mais limitados que os de livre comércio com países em desenvolvimento.


O Mercosul tem acordos de livre comércio apenas com o Chile, Israel e a Comunidade Andina de Nações (CAN). Com a Índia, o México e a África do Sul fechou acordos de preferências tarifárias, menos abrangentes.


Nos últimos três anos, o Mercosul abortou a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), suspendeu conversas com a União Européia e começou a negociar com o Marrocos.


Para o embaixador José Botafogo Gonçalves, um dos principais negociadores comerciais do governo Fernando Henrique Cardoso, o atual governo exagerou ao vetar negociações com a União Européia e da Alca. “Prevaleceu a política indecisa, com visão de curto prazo”, diz Botafogo.


Celso Lafer, ex-chanceler de FHC, concorda com Botafogo que a inserção do Brasil nos fluxos econômicos mundiais, por meio de acordos comerciais, depende de medidas internas na infra-estrutura e logística e na adoção de um modelo mais competitivo de tributação. Mas alerta que, na medida em que outros países se adiantaram na realização de acordos de livre comércio, o Brasil se vê cada vez seus produtos serem discriminados nesses mercados. No mundo, há mais de 150 acordos de livre comércio em aplicação.


A Rodada Doha, na qual o Brasil apostou, não deverá ser encerrada este ano. Em 2009, dependerá da estratégia comercial do sucessor de George W. Bush na presidência dos Estados Unidos e do perfil do Congresso americano, que se mostra mais protecionista.


 


 


 

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