Déficit em conta corrente dá um salto e investimento ajuda a cobrir rombo

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O Estado de São Paulo   Editoria: Economia   Página: B-1


Contrariando as expectativas do mercado e do próprio Banco Central, a conta de transações correntes – que registra as transações de mercadorias e serviços do Brasil com o exterior – teve em janeiro forte saldo negativo: US$ 4,23 bilhões. Impulsionado por um superávit mais fraco na balança comercial e remessas elevadas de lucros e dividendos, a conta corrente atingiu o pior resultado desde outubro de 1998.

O Estado de São Paulo   Editoria: Economia   Página: B-1


Contrariando as expectativas do mercado e do próprio Banco Central, a conta de transações correntes – que registra as transações de mercadorias e serviços do Brasil com o exterior – teve em janeiro forte saldo negativo: US$ 4,23 bilhões. Impulsionado por um superávit mais fraco na balança comercial e remessas elevadas de lucros e dividendos, a conta corrente atingiu o pior resultado desde outubro de 1998. Com isso, pela primeira vez desde maio de 2003 o resultado acumulado em 12 meses entrou no terreno negativo, com déficit de US$ 1,17 bilhão.


Nos dados divulgados ontem pelo BC, o principal destaque foi a conta de remessas de lucros e dividendos. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, citou três motivos para as altas remessas de janeiro, de US$ 3,025 bilhões: boa lucratividade das empresas estrangeiras, real valorizado – que torna mais barato o envio de dólares – e a necessidade de muitas empresas de cobrir de posições no exterior por causa da crise americana.


Com as remessas fortes, a conta de serviços mais que dobrou seu déficit em janeiro, atingindo US$ 5,5 bilhões. Já a balança comercial, com o forte aumento das importações, que também são impulsionadas pelo real valorizado, teve superávit de US$ 944 milhões, menos da metade do registrado em janeiro de 2007. Para fevereiro, o BC já trabalha com projeção de novo déficit, de US$ 1,7 bilhão.


Mas, pelo menos por enquanto, a virada mais rápida do que se esperava nas transações correntes não provoca turbulências ou questionamentos sobre a saúde da economia brasileira e não afeta o mercado de câmbio. Isso porque outras contas, como a de investimentos estrangeiros diretos (IED) – direcionados para a produção – e a de empréstimos de médio e longo prazos, mostram ingressos de dólares em níveis superiores aos recursos que saíram da conta de transações correntes. “Nós estamos conseguindo financiar o déficit na conta corrente com fluxos mais estáveis de recursos externos”, disse Altamir.


Além disso, o crescimento acentuado das reservas nos últimos meses levou o Brasil a se tornar credor externo líquido no mês passado, ou seja, o valor dos ativos brasileiros no exterior tornou-se superior à dívida externa. Isso faz com que o País dependa hoje muito menos de geração de dólares pela conta corrente para manter a estabilidade econômica.


Economistas vêem o movimento de déficit em conta corrente como positivo para a saúde econômica do Brasil, pois significa que está havendo aumento nos investimentos (pela importação de bens de capital) e maior lucratividade das empresas (pelas remessas de lucros).


É a opinião da economista-chefe do ABN Amro, Zeina Latif. “O déficit não é preocupante. Para um país como o Brasil, que precisa investir, acelerar a taxa de investimentos privados, o movimento é até saudável.” Ela explica que a reversão na conta corrente não está causando temor no mercado porque os investidores percebem que há capacidade de financiamento e solidez dos fundamentos econômicos por causa dos indicadores. “Seria um problema se houvesse preocupação dos investidores, o que poderia levar a uma desvalorização cambial. Mas não é isso o que está ocorrendo.”


Por outro lado, foram os superávits em conta corrente que viabilizaram a eliminação da vulnerabilidade externa, que durante anos atrapalhou o crescimento do País. Os saldos positivos permitiram aumentar as reservas internacionais – tidas como o maior seguro contra turbulências externas e apontadas como fator de sustentação do descolamento da economia brasileira em relação à crise.


Por isso, a ala desenvolvimentista do governo olha com preocupação para o longo prazo, caso se confirme uma trajetória de déficits crescentes. O medo é que saldos negativos crescentes deteriorem, a partir de 2009, a boa posição externa brasileira, levando a uma pressão pela desvalorização do real. A alta do dólar e outras moedas poderia ser um fator de realimentação da inflação e de interrupção de investimentos.

 


 


 


 


 

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