Crise freia queda nos juros ao consumidor

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Folha de São Paulo  Editoria: Dinheiro  Página: B-1


Dados preliminares do Banco Central mostram que a tendência de queda dos juros nos empréstimos bancários, verificada desde o começo deste ano, pode ter sido interrompida.

Nos 15 primeiros dias de agosto, as taxas deixaram de cair, quebrando trajetória registrada desde fevereiro. A média praticada na quinzena foi de 35,9% ao ano, idêntica à vista em julho.

Folha de São Paulo  Editoria: Dinheiro  Página: B-1


Dados preliminares do Banco Central mostram que a tendência de queda dos juros nos empréstimos bancários, verificada desde o começo deste ano, pode ter sido interrompida.

Nos 15 primeiros dias de agosto, as taxas deixaram de cair, quebrando trajetória registrada desde fevereiro. A média praticada na quinzena foi de 35,9% ao ano, idêntica à vista em julho.


Analistas afirmam, porém, que esse fenômeno pode ser passageiro, e ainda é cedo para falar no fim dos cortes de juros aos consumidores.


A constatação de que as taxas deixaram de cair coincide com o período de forte turbulência no mercado internacional causada pela crise imobiliária nos Estados Unidos. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, entende que os dois fatos têm relação. “Isso [a crise] acabou freando qualquer movimento das taxas”, diz.


Na quinzena, a média dos empréstimos para empresas teve juro de 23%. Para pessoas físicas, de 47%. Os números são iguais aos praticados em julho.


Lopes disse que o que levou o nervosismo internacional para os empréstimos foram os juros futuros. Nesse mercado, são projetadas taxas para os próximos meses. Essa é uma das principais referências quando bancos estabelecem o quanto vão cobrar nos empréstimos.


“No ambiente turvo do início de agosto, as taxas futuras subiram fortemente. Era de se esperar que isso chegasse ao crédito”, diz o vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), Miguel de Oliveira.


Segundo o BC, o que mais subiu foi a taxa de captação -custo do dinheiro usado pelo banco nos empréstimos. Na quinzena, a taxa subiu 0,2 ponto, para 11% anuais, na primeira alta desde abril de 2005.


Mas a taxa futura não é a única influência. O professor do Ibmec São Paulo Marcelo Moura diz que situações de turbulência são acompanhadas por operações conservadoras dos bancos.


Isso, segundo ele, pode ter reduzido a oferta de dinheiro no mercado. “Se o mercado estima que o risco aumentou, a concessão de empréstimos é dificultada, seja para outros bancos [médios e pequenos] ou para clientes.”


Mas especialistas avaliam que a interrupção da redução dos juros pode ter sido temporária e que o mês pode fechar com recuo . A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) não comentou a interrupção do corte de juros dizendo se tratar de número preliminar do mês.


Crédito tem expansão de 21% em 12 meses


O volume de empréstimos no sistema financeiro continua em alta e superou os R$ 800 bilhões em julho. O número foi divulgado ontem pelo Banco Central. Conforme relatório mensal, o mercado de crédito teve expansão de 1,7% no mês passado na comparação com junho. Em 12 meses, a carteira teve crescimento de 21,5%. Ao todo, o Brasil tem R$ 813,3 bilhões em empréstimos.


Com o aumento das operações em julho, o crédito já representa 32,7% do PIB. O percentual é 0,4 ponto percentual maior que o observado em junho e o mais alto desde novembro de 1995, quando essas operações representavam 33% do PIB. Apesar do crescimento, a marca está longe do recorde histórico de 36% visto em janeiro de 1995 e de patamares de países mais desenvolvidos.


O próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, disse ontem à noite, em São Paulo, considerar o percentual baixo em relação a outros emergentes, o que mostraria potencial de crescimento. Citou os casos do Chile, em que a proporção chega a 70%, e da Malásia (117%).

“O crescimento tem sido bastante disseminado, seja entre as empresas ou nas pessoas físicas”, diz o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Segundo ele, a indústria e o comércio têm liderado a expansão no segmento empresarial. Já nas operações pessoais, o financiamento de veículos e o crédito consignado -com desconto em folha de pagamento- lideram.


“Os resultados dão indicação de que a boa conjuntura verificada ao longo dos últimos dois anos ainda persiste, mesmo contando com uma base comparativa mais forte”, avalia estudo do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). Para os economistas da entidade, um ponto positivo é que o crédito para as empresas tem apresentado ritmo de crescimento parecido com a evolução dos empréstimos para as famílias, o que não acontecia nos anos anteriores. Apesar da alta no volume de crédito neste ano, a inadimplência nos empréstimos teve um pequeno recuo entre dezembro do ano passado e julho, passando de 5% para 4,7%.


Com a maior concessão de empréstimos, o BC também apurou a queda das taxas em julho, ao contrário do que ocorreu na primeira quinzena de agosto. O juro médio caiu de 36,7% para 35,9%. Para empresas, foi de 23,7% para 23%, no menor nível desde junho de 2000. Para as pessoas físicas, queda de 47,8% para 47%, a mais baixa desde julho de 1994. “Os números são positivos.


Ainda assim, as taxas são muito altas. Houve queda, mas ainda é muito pouco para levar os juros brasileiros ao patamar internacional”, ressalta o vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), Miguel de Oliveira.


No cheque especial, por exemplo, o juro caiu meio ponto percentual, para 139,2% ao ano. Na comparação com o cheque, o crédito pessoal tem custo menor, de 65,1%. Oliveira avalia que o ritmo de cortes praticado pelo sistema financeiro está aquém do que poderia ser realizado. Para ele, é preciso reduzir o chamado “spread” bancário -parcela que compõe juros e é cobrada nos empréstimos para cobrir os custos do banco e ajudar a compor suas margens de lucro. Na média, o “spread” caiu 0,7 ponto em julho, para 25,1 pontos.


 


 


 


 


 

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