Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
A crise econômico-financeira que assolou o mundo, a partir de 2008, chegou também ao Brasil, com violência. As exportações brasileiras que haviam crescido 16,5% em 2006 e em 2007, foram duramente atingidas, sofrendo pesada redução a partir de outubro de 2008, registrando uma queda ainda maior em 2009, com significativa perda anual de US$ 45 bilhões. O impacto sobre a produção industrial revelou uma queda de 19% no quarto trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009, período em que cerca de 750 mil trabalhadores brasileiros perderam seus empregos.
Mas a crise mundial encontrou a economia brasileira bem fundamentada, com um sistema bancário sólido e perfeitamente enquadrado às sadias normas dos Acordos da Basiléia. Paralelamente, dispunha o Banco Central do Brasil de dois instrumentos eficientes, segundo os dados de setembro de 2008: R$ 272 bilhões em depósitos bancários compulsórios, que passaram a ser liberados para irrigar a liquidez do sistema, e US$ 207 bilhões de reservas cambiais, que vinham sendo acumuladas desde 2007. A utilização desses recursos, ao lado das medidas fiscais anticíclicas, que estimulavam o consumo de bens duráveis, como automóveis, aparelhos eletrodomésticos, móveis e material de construção, afastou os efeitos negativos da crise e infundiu a confiança e segurança aos empresários e consumidores nacionais.
Ao longo desse período de recuperação, a economia brasileira se destacou no contexto internacional, apesar da queda do comércio exterior, como um porto seguro para as aplicações e investimentos estrangeiros, favorecidos pela abundante liquidez “empoçada” nos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa. Em 2009, o Brasil recebeu o ingresso de mais de US$ 70 bilhões de financiamentos e US$ 25 bilhões de investimentos estrangeiros diretos. Em conseqüência, e a fim de impedir uma desastrosa valorização cambial, o Banco Central do Brasil passou a comprar os dólares excedentes, acumulando reservas cambiais que chegam, hoje, a mais de US$ 240 bilhões, algo nunca antes imaginado.
As reservas internacionais blindaram a economia brasileira de possíveis reflexos e evolução negativa da crise mundial e a cada dia, nova capitais procuram aplicação no mercado brasileiro, particularmente na Bolsa de Valores de São Paulo. De acordo com um velho ditado chinês, a crise, no Brasil, se transformou em oportunidade.
A meu ver, cabe ao Governo brasileiro tirar todo partido dessa oportunidade, o que significa, primordialmente, usar com inteligência e eficácia uma parte dessas reservas acumuladas na crise, para financiar a importação dos equipamentos que o país precisa para deslanchar os grandes projetos de infraestrutura do PAC, tais como energia elétrica, indústrias de base, portos, ferrovias e rodovias, além de, necessariamente, dar cobertura aos investimentos nas áreas petrolíferas recém descobertas.
Sem dúvida, essa seria uma ação de bom senso, para dar sentido prático e dinâmico às nossas reservas cambiais, praticamente sem uso. Isso significa, a propósito, salientar a contradição que se observa hoje, em várias oportunidades, de levantamentos de novos empréstimos em moeda estrangeira pela Petrobrás, Banco do Brasil, BNDES e, até mesmo pelo Tesouro Nacional. A hora é de liquidar o que resta da dívida externa oficial e colocar as reservas cambiais a serviço do expressivo programa de restauração e desenvolvimento econômico, que o Governo já tem pronto, na prateleira.