Crédito ao consumidor

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Jornal do Commercio    Editoria: Opinião   Página: A-17


Felizmente as autoridades da área econômica desistiram da idéia – se é que realmente pensaram nisso a sério – de sugerir ao comércio, indústria e bancos uma puxada de freio de mão no credito ao consumidor, a pretexto de afastar “perigo iminente” de inflação ou o risco de inadimplência devido a “exageros” nos prazos de financiamento.

Jornal do Commercio    Editoria: Opinião   Página: A-17


Felizmente as autoridades da área econômica desistiram da idéia – se é que realmente pensaram nisso a sério – de sugerir ao comércio, indústria e bancos uma puxada de freio de mão no credito ao consumidor, a pretexto de afastar “perigo iminente” de inflação ou o risco de inadimplência devido a “exageros” nos prazos de financiamento. Uma das justificativas informadas por assessores ministeriais foi que medidas dessa natureza inibiriam a elevação da taxa básica de juros na próxima reunião do Copom, em abril. Isso, em virtude do teor da ata da última reunião divulgada pelo Banco Central, em que a assombração reaparece.


Não é razoável o receio que toma conta de certas cabeças quando têm que se haver com os desequilíbrios que a aceleração do crescimento produz. Em sua maioria eles são facilmente previsíveis e não deveriam assustar ninguém. Basta aceitar uma verdade simples: no processo de desenvolvimento quando se resolve um problema ele criou mais dois e cada um desses dois criou outros tantos e assim por diante. Desenvolvimento não é equilíbrio e, portanto, é preciso estar preparado para lidar com novos problemas sem se precipitar ou inventar “soluções” miraculosas.


A “crença” que o desenvolvimento mais robusto e a melhoria da renda salarial ameaçam a estabilidade é um despropósito. Não existe mais aquela corrida de preços e salários, nem correção automática. Todos os acordos salariais feitos nos últimos nove a doze meses (e que são mais de oitocentos) resultaram em reajustes ligeiramente superiores ao aumento dos preços e foram mais que compensados pelo aumento da produtividade. Os ganhos de produtividade superaram 3% (o Dieese informa um ganho real médio de 2% para 88% dos acordos). É preciso prestar atenção nas formas de remuneração, que estão mudando: cerca de 25% da remuneração dos trabalhadores se devem à apropriação de resultados e ganhos das empresas, quer dizer estão ligados ao próprio lucro e portanto não exercem pressão inflacionária de qualquer natureza. O Brasil tem condições internas muito importantes para sustentar um crescimento de 5% do PIB, com taxa de 4,5% de inflação e um bom déficit em conta corrente, o que é irrelevante diante do volume de reservas de 196 bilhões de dólares.


Devemos aceitar definitivamente o fato que quem faz o crescimento é o empresário e ele está investindo agora porque está próximo de sua capacidade e sabe que haverá demanda lá na frente. Se o governo vai ao setor privado e diz que está pensando em medidas para cortar a demanda, simplesmente esfria o ânimo de investimento dos empresários e frustra o desenvolvimento.


Já a decisão do Banco Central de aumentar a fiscalização com relação aos empréstimos bancários é correta. Trata-se de olhar se os empréstimos estão sendo concedidos com garantias adequadas, prevenindo para que não se repita no Brasil a patifaria que contaminou o sistema financeiro nos Estados Unidos. Isso não é corte de crédito nem restrição ao número das prestações. É um reforço de fiscalização absolutamente adequado. O financiamento da compra de um automóvel em 36 meses pode ser menos ou mais seguro que um de 72 meses, dependendo das garantias: se o cidadão tem um emprego permanente ou um perfil de renda mais sólido, o tipo normal de comportamento, é isso que faz a diferença.


No final, essa idéia que é possível restringir o volume de crédito fixando um período de financiamento não foi mesmo feliz.


Delfim netto – Professor Emérito da FEA-USP. Ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

 




 


 

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