Copom mantém taxa Selic em 11,25%

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Jornal do Commercio  Editoria: Economia  Página: A-3


O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano, pela quarta vez consecutiva. Analistas do mercado financeiro já haviam manifestado no Boletim Focus a expectativa de que a taxa fosse mantida. A decisão, unânime e sem viés, veio acompanhada de uma pequena alteração no tradicional comunicado divulgado após a reunião, mas que pode sinalizar a retomada da alta dos juros muito em breve, segundo os analistas.

Jornal do Commercio  Editoria: Economia  Página: A-3


O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano, pela quarta vez consecutiva. Analistas do mercado financeiro já haviam manifestado no Boletim Focus a expectativa de que a taxa fosse mantida. A decisão, unânime e sem viés, veio acompanhada de uma pequena alteração no tradicional comunicado divulgado após a reunião, mas que pode sinalizar a retomada da alta dos juros muito em breve, segundo os analistas. A mudança foi a inclusão da palavra “atentamente” ao texto da reunião de janeiro.


“Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 11,25% ao ano, sem viés. O Comitê irá monitorar atentamente a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”, afirma o comunicado.


Diante da sutil mudança, os economistas não descartam o início do ciclo de aperto monetário a partir da próxima reunião, em abril. O cenário deverá ficar mais claro a partir da quinta-feira que vem, quando o BC divulga a ata da reunião de ontem e expõe todos os seus argumentos para a manutenção da Selic nos níveis atuais.


“Acreditamos que o Copom mantenha o discurso duro na ata de quinta-feira, já que os fatores de risco para a trajetória futura da inflação continuam”, afirma o economista da Concórdia Corretora, Elson Teles. Antes mesmo de terminar a reunião, o mercado futuro de DI já apontava para uma possível alta dos juros nas próximas reuniões. Para abril, as projeções indicam Selic em 11,5%, ou seja, alta de 0,25 ponto percentual, afirma o economista da corretora López León, Flávio Serrano. Segundo ele, os dados do mercado mostram que em dezembro a taxa estaria em 12,5%.


O economista da Gap Asset Management, Alexandre Maia, diz que faria todo sentido o BC começar a elevar os juros em abril. Segundo Maia, embora a inflação de curto prazo tenha arrefecido, ela diz muito pouco. “O cenário não melhorou. Pelo contrário. Piorou.” A explicação do economista está na escalada dos preços das commodities, sejam metálicas, agrícolas ou de energia. “O BC está coeso com sua decisão. Os emergentes estão demandando muitas commodities, o que tem pressionado os preços.” Segundo ele, a alta das commodities tem se transformado numa grande dor de cabeça para todos os países emergentes em relação aos índices de inflação.


Na opinião do economista do ABN Amro Asset Management, Hugo Penteado, além da alta das commodities, o que tem preocupado os dirigentes do BC é o crescimento da economia nacional acima do seu potencial. Isso cria possíveis pressões inflacionárias no futuro e podem demanda uma alta dos juros. Para Penteado, o BC estará atento a dois importantes fatores até a próxima reunião. O primeiro é o comportamento da demanda. “Há possibilidade dela se acomodar. Mas a dúvida é em que nível ela vai se acomodar. Se for acima do potencial, há necessidade de alta dos juros.” Outro ponto de monitoramento é a ampliação da capacidade instalada do País.


Apostas


Penteado e Maia acreditam que a retomada de alta dos juros no Brasil possa ocorrer já em abril. Maia aposta que até o fim do ano, o BC promova a elevação de 1,5 ponto percentual da Selic. O economista do ABN Amro é mais pessimista. Para ele, o BC será obrigado a elevar em cerca de três pontos percentuais a taxa de juros. “E não adianta fazer uma elevação gradual, como ocorreu na Colômbia. Terá de ser uma alta rápida para surtir efeito.” A manutenção da Selic em 11,25% ao ano devolveu a liderança dos maiores juros reais do mundo ao Brasil.


Segundo levantamento da consultoria UPTrend, com a decisão de ontem a taxa real brasileira fica em 6,73% ao ano, contra 6,69% da Turquia. O economista-chefe da consultoria, Jason Vieira,disse que a mudança no ranking deve-se à retomada do ciclo de queda dos juros por parte da Turquia e manutenção por parte do Brasil.


Empresários criticam BC


Após a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter pelo quarto mês consecutivo a taxa básica de juros em 11,25% ao ano, representantes de entidades patronais se manifestaram contra o anúncio. Para a Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp) o Copom erra há três anos e meio na escolha da taxa de juros. “A nossa permanente defesa do crescimento se tornou, com o passar do tempo e diante do renitente conservadorismo do Banco Central, algo repetitivo, até monótono para a imprensa e a sociedade. Somos o país que pratica a maior taxa de juros do planeta. Acabamos de passar a Turquia, tornando-nos os primeiros nesse injusto ranking mundial”, disse o presidente da Fiesp/Ciesp, Paulo Skaf.


A Fiesp afirma não encontrar razões plausíveis para que o governo não reduza a Selic e combata o que eles chamam de “conseqüente danosa sobrevalorização do real, que tira a competitividade do produto nacional nos mercados globalizados”. “Sabemos que está crescendo uma dívida a ser paga no futuro, e que ela será, como tudo neste País, mais uma responsabilidade a ser resolvida pela sociedade brasileira. E seja quem for que estiver no governo. Esse compromisso – em razão de modestos índices de crescimento do PIB verificados até o ano passado, do câmbio sobrevalorizado, dos juros da dívida interna -, será apenas de quem trabalha e produz”, afirmou Skaf.


O presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Armando Monteiro Neto, observou que a queda dos juros é crucial para reverter a valorização do real. “A manutenção dos juros amplia o diferencial em relação aos juros americanos e exacerba o processo de valorização da moeda brasileira, que provoca danos a segmentos industriais”. No entanto, Monteiro Neto disse que a decisão não surpreendeu, já que as atas das reuniões anteriores sinalizavam para essa definição, também antecipada pelos mercados.


Firjan


A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) defende que deve haver corte de juros, mas antes serão necessárias reformas estruturais. “Para os industriais do Estado do Rio de Janeiro, a aprovação das reformas estruturais contribuiria para a retomada do processo de corte da taxa de juros básica. Nesse sentido, a reforma tributária se torna um passo importante, desde que não seja acompanhada por aumento de carga tributária. A racionalidade tributária, passando pela transparência dos gastos públicos, constitui condição necessária para a sustentabilidade do desenvolvimento brasileiro”, comentou em nota a Firjan.


O presidente da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), Orlando Diniz, garante que a economia cresceria R$ 1,56 bilhão com o corte de 0,25 ponto percentual da taxa de juros. Em nota, Diniz diz que a cautela do Banco Central não é condizente com o cenário de inflação mais confortável que se desenha, apesar das incertezas no mercado internacional. “Além disso, o governo deveria mover esforços para inverter a trajetória ascendente dos gastos correntes, iniciativa que ficou de fora da proposta de reforma tributária.


Sem limitadores de gastos e uma efetiva proposta de redução da carga, os juros seguirão elevados”, afirmou o presidente. Segundo Diniz, a economia com o corte seria equivalente a cerca de uma vez e meia o que foi arrecadado com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em janeiro deste ano.


A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) considerou inexplicável a manutenção da taxa. “A ata da reunião anterior revelava forte preocupação das autoridades monetárias com a trajetória inflacionária. Mas os índices de preços, em especial o IPCA, não confirmaram essas expectativas. Ao contrário, o susto passou e a inflação refluiu, tornando inexplicável o conservadorismo do Copom e a manutenção da taxa pela quarta reunião consecutiva” afirmou o presidente da entidade, Abram Szajman.


Na avaliação do presidente, outros fatores, como a desvalorização do dólar e as quedas nas taxas de juros norte-americanas, também abriram espaço para que houvesse uma redução de 0,25 ponto percentual. “Na reunião passada achamos até compreensível a cautela, mas muita coisa mudou nesses 45 dias, tanto no cenário externo como no interno. Esperamos que ao menos a próxima ata reconheça esses avanços e acene com a retomada dos cortes na reunião de abril”, disse Szajman.


O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, acredita que a decisão do Copom pode ser vista com cautela, mas criticou o fato de a taxa de juros brasileira ser a maior do mundo. “Com a redução das taxas de juros no exterior, aumentou o diferencial em favor do ingresso de capitais estrangeiros de curto prazo, o que pressiona a taxa cambial e afeta negativamente muitos setores. Esperamos que o Banco Central retome o mais rapidamente possível o processo de redução dos juros, para incentivar os investimentos e o crescimento. Para tanto é preciso que o governo administre a política fiscal no sentido da contração dos gastos públicos, para abrir espaço ao crescimento não inflacionário do consumo privado”, disse Burti.


A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) considerou prudente a manutenção da Selic. “O Copom vem preservando as conquistas econômicas e sociais desse governo ao contribuir, de maneira decisiva, para a manutenção da inflação dentro da meta estabelecida pelo Ministério da Fazenda”, disse o vice-presidente da Acrefi, José Arthur Assunção. “Eu cheguei até a defender a elevação da Selic na última reunião do Copom. Mas com a forte queda da taxa de juros americana, os juros brasileiros, apesar de nominalmente inalterados, ficaram objetivamente mais altos, o que ajudou no combate à inflação. Por isso, não creio que seja ainda necessário a elevação da taxa nominal.”




 

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