Conflito de idéias entre Fazenda e BC

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Jornal do Commercio   Editoria: Economia   Página: A-4


O Ministério da Fazenda e o Banco Central não falam a mesma língua. Esta é a opinião de especialistas no mercado financeiro após analisar os movimentos de ambos na última semana.

Jornal do Commercio   Editoria: Economia   Página: A-4


O Ministério da Fazenda e o Banco Central não falam a mesma língua. Esta é a opinião de especialistas no mercado financeiro após analisar os movimentos de ambos na última semana.


Enquanto a Fazenda tenta conter a desvalorização do dólar frente ao real, a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária aponta para a possibilidade do aumento de taxa básica de juros, que desde setembro do ano passado está estacionada em 11,25%.


Para evitar o que o ministro Guido Mantega chamou de “derretimento” da moeda americana, que desde 1999 não tinha sua cotação tão baixa, o Ministério da Fazenda tomou três medidas.


A primeira é acabar com a cobrança de 0,38% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas operações de câmbio dos exportadores. Outra medida é autorizar que exportadores deixem toda sua receita com vendas externas lá fora. Por fim, a Fazenda decidiu cobrar IOF na entrada de capital estrangeiro destinado a aplicações de renda fixa, principalmente títulos públicos. O principal objetivo é evitar deterioração do saldo positivo da balança comercial brasileira nos próximos anos.


Impacto


No lançamento das medidas, Mantega não quis comentar o impacto que as ações terão sobre o valor do dólar em relação ao real. De acordo com o ministro, haverá redução na entrada de capital de curto prazo no País, mas a idéia não é ter impacto brusco no câmbio. Ele ainda disse que as medidas terão efeito semelhante à queda da taxa de juros, já que vão diminuir as vantagens de investidores externos aplicarem recursos no País.


Na contramão da iniciativa da Fazenda, o Copom divulgou na ata de sua 133ª reunião que, apesar da votação unânime na manutenção da taxa, os membros do comitê pensaram em reajustar a Selic. “Um ajuste da taxa básica de juros contribuiria para reforçar a ancoragem das expectativas, não apenas para 2008, mas também no médio prazo, e para reduzir o descompasso entre as trajetórias da demanda e oferta agregadas”, diz a ata, que ainda alerta que o Copom irá monitorar atentamente a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.


“Há um conflito sério e falta coerência de idéias. As filosofias do Ministério da Fazenda e do Banco Central são diferentes”, disse o economista da Tendências Consultoria, Leonardo Miceli.


Para ele, que defende a manutenção da taxa em 11,25%, a visão do Ministério está errada em evitar a queda do dólar. “A moeda americana se desvaloriza frente a todas as moedas do mundo, não só em relação ao real”, comentou.


O economista vê pontos positivos nas medidas, como o fim da cobertur cambial dos exportadores, mas acha que elas não devem ter impacto. “As medidas são inócuas. É um exemplo de política macroeconômica ruim achar que mudar a taxa de câmbio de um regime de câmbio flutuante pode ajudar. Principalmente não sendo por causa de desvalorização do real, mas do dólar.”


O ex-diretor do Banco Central e chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, acredita que o capital estrangeiro não vai deixar de entrar no Brasil no ritmo atual, como pretende o Ministério da Fazenda. Segundo ele, o que ocorre são algumas saídas pontuais de recursos, motivadas pela volatilidade do mercado americano.


Controle dos juros


Freitas defende, em contrapartida, que não é necessário aumentar a taxa básica de juros. “O Banco Central fica preocupado com as conseqüências do superaquecimento da economia. Não dá para adivinhar a cotação do dólar até o final do ano, mas a moeda americana deve se estabilizar ou cair”, afirmou. Para o ex-diretor do BC, mais importante do que as medidas de Mantega é o controle dos juros. “O ideal é manter a taxa como está. A chance de derrubá-la era no ano passado, quando ainda não havia tantas incertezas quanto agora. Esses alertas do BC só prejudicam.”


Na avaliação do diretor da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, o Banco Central deveria repensar o reajuste. “Talvez seja mais prudente aceitar um pouquinho mais de inflação no curto prazo do que aumentar a taxa básica de juros. Eu recomendaria um pouco mais de paciência, mas parece que o Banco Central está tomando um caminho mais seguro.”


Póvoa diz que é difícil equilibrar as ações do Banco Central e da Fazenda. Para ele, nenhum dos dois lados conseguirá sucesso sem que antes ocorram reformas.


“Economia é a arte de lidar com um cobertor curto. O Brasil tem um problema fiscal que desequilibra o País e os juros baixos não são suficientes para aquecer a demanda. Em vez de subir os juros, o governo deveria fazer uma reforma fiscal, mas parece que a questão fiscal está for a da agenda deste governo”, completou.

 


 


 




 

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