As bases do conhecimento (Jornal do Brasil, 28/04/2008)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo



Os Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) estimam, para as 58 universidades vinculadas à União, um aumento de 72% na oferta de vagas nos próximos cinco anos. Em números absolutos, supõem aumentar, de 133 mil para 280 mil, o número de vagas, com o objetivo principal de expandir a oferta nos cursos noturnos. Como um caso extremo, pretende-se que a Universidade Federal da Bahia passe das atuais 80 vagas, nesses cursos, para cerca de 2.700.

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo



Os Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) estimam, para as 58 universidades vinculadas à União, um aumento de 72% na oferta de vagas nos próximos cinco anos. Em números absolutos, supõem aumentar, de 133 mil para 280 mil, o número de vagas, com o objetivo principal de expandir a oferta nos cursos noturnos. Como um caso extremo, pretende-se que a Universidade Federal da Bahia passe das atuais 80 vagas, nesses cursos, para cerca de 2.700. É fácil imaginar o impacto que tal aumento representaria na contratação de professores em diferentes disciplinas, se disponíveis no mercado em número e capacitação, assim como na contratação de funcionários para os serviços administrativos.


É bem verdade que a adesão das Universidades Federais ao REUNI é voluntária e não há dúvida de que a expansão dos cursos noturnos corresponde ao anseio de muitos, que, tendo de conciliar trabalho e estudo, não têm outra opção. A idéia inicial era estimular apenas as instituições recém criadas, ou que instalassem novos campi, a oferecer cursos noturnos, mas a expectativa de recursos abundantes, gerada pelas autoridades, levou à proliferação indiscriminada de projetos para criação de tais cursos.


Sem entrar no mérito das disciplinas que seriam oferecidas e na qualidade do ensino que seria ministrado, parece que, uma vez mais, o Governo federal estaria dando ênfase a novas iniciativas no domínio do ensino superior, sem cuidar primordialmente do ensino fundamental, embora, nesse nível de ensino, a atribuição corresponda prioritariamente aos Estados e Municípios.


O ensino fundamental é  certamente fundamental, o que levou a OECD a criar o Programa Internacional do Estudante (cuja sigla em inglês é PISA), mediante o qual se realizam diversos testes para comparar, internacionalmente, a capacidade de aquisição de conhecimento dos estudantes através de um domínio mínimo de linguagem, matemática e ciências.  Essa experiência é levada a cabo, a cada três anos, pela OECD, tendo como alvo estudantes na faixa etária entre 15 e 16 anos. O PISA, ao acrescentar a capacidade de leitura e interpretação de um texto à matemática e às ciências, supõe que todo estudante deva ter os instrumentos necessários para resolver problemas do cotidiano. Lamentavelmente, na classificação das comparações internacionais, o Brasil está na parte inferior da tabela, à frente apenas de alguns poucos países de pequena projeção, tanto no plano político, como no econômico.


A ênfase no ensino da matemática e das ciências é uma componente essencial do ensino básico para, mais adiante, habilitar a força-de-trabalho a participar, com maior capacidade produtiva, no processo do desenvolvimento econômico. Além disso, estudantes com bom conhecimento dessas disciplinas formam naturalmente um contingente de futuros engenheiros e cientistas, sendo ponto pacífico hoje que pesquisa e desenvolvimento (P&D) constituem componente importante do crescimento econômicos das nações.


Como o ensino da matemática é um processo de natureza seqüencial , que não permite saltar etapas, é importante estimular  o raciocínio lógico e apurar a concentração do aluno, interagindo, ao mesmo tempo, com o ensino de ciências, como no caso da física.


Num mundo global, em que as tecnologias têm presença dominante no cotidiano das pessoas e as inovações estão na raiz da capacidade de competição de empresas e nações, mais importante do que uma política que leve à criação desmesurada de cursos noturnos é reconhecer, pela falta de boa formação, o enorme déficit de professores de matemática, física, química, biologia etc, no ensino básico.


Publicado no Jornal do Brasil de 28/04/2008.

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