A economia brasileira vista do exterior (Jornal do Commercio, 07/01/2010)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


Na primeira década deste Século, surgiu um grupo de quatro países cujas economias, pelo seu desempenho, passaram a chamar a atenção dos demais: Brasil, Rússia, Índia e China, que ficaram conhecidos como os BRIC’s, acrônimo cunhado pela instituição financeira Goldman& Sachs. Segundo o prestigioso semanário inglês, The Economist, a inclusão do Brasil junto ao trio de economias emergentes, num primeiro momento, causou estranheza. As décadas perdidas não o qualificavam para formar o quarteto.


Contudo, a forma pela qual o País administrou sua economia, num quadro de recessão mundial, gerado, com todos os seus desdobramentos, a partir do  refinanciamento temerário das hipotecas nos Estados Unidos, faz hoje letra morta de qualquer restrição ou ceticismo ao seu lugar entre as economias emergentes. Haja vista que, sem abandonar o G-77, o Brasil faz parte, por direito de conquista, do grupo de países que formam o chamado G-20.


Hoje, é um fato inconteste que o Brasil foi um dos últimos países a ser atingido pela crise recessiva e um dos primeiros a dela sair. Constatada a queda do Produto Interno Bruto (PIB), por dois trimestres consecutivos, as autoridades governamentais não hesitaram em injetar liquidez na economia e a praticar, seletivamente, uma política de renúncia fiscal temporária, dirigida às atividades industriais cujas interações sobre o resto da economia permitiram conter a severidade da desaceleração econômica. A par disso, o crédito mais fácil para os menos abastados fez com que o consumo interno compensasse, em parte, a perda de sustentação da economia provocada pela retração das exportações.


A resistência aos ventos fortes, que sopravam do Hemisfério Norte, colocou o País, nos dias de hoje, num quadro favorável, do ponto de vista, tanto  econômico, como social. A verdade é que o Governo do Presidente Lula teve, desde o primeiro momento, a sabedoria de dar continuidade às políticas implantadas por seu antecessor. No plano econômico financeiro, obedeceu aos dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal e manteve o compromisso com as metas de inflação e o sistema de taxas flutuantes de câmbio, garantindo assim o poder de compra do Real. No plano social, não só manteve, como ampliou, os programas de redistribuição da renda, incorporando grandes contingentes ao mercado formal de trabalho.


Em suma, a capacidade de resistir à crise pode ser sintetizada no fato de as reservas cambiais haverem alcançado a cifra de US$ 239 bilhões e a taxa anual de inflação ao redor de 4%. Atualmente, há sólidas razões para considerar como altamente provável, em 2010, uma taxa de expansão do PIB entre 5% e 6%.      


De um modo geral e sob vários aspectos, o Brasil supera os demais BRIC’s, pelo fato de ter unidade línguística, não sofrer conflitos étnicos ou religiosos, não ter problemas fronteiriços e ostentar uma pauta diversificada no comércio exterior. Paradoxalmente, em que pese o reconhecido passivo educacional, apresenta ilhas de competência em importantes domínios, no campo do conhecimento.  


Se o estrangeiro tem, nos dias atuais,  uma visão favorável do Brasil, materializada pelo fluxo de recursos externos aplicados no mercado financeiro e na Bovespa ou investidos diretamente na produção, nem por isso o futuro promissor é visto sem reservas. Subsistem dificuldades a superar. De imediato, o dilema colocado pelo real valorizado, que pune os exportadores e desfavorece a produção nacional frente às importações. Para além de 2010, pesa, nas expectativas, o crescente déficit fiscal,  em face de uma carga tributária no limite do suportável, manejada por uma ineficiente e gigantesca Administração Pública. Por isso mesmo, embora o País, visto de fora, esteja atravessando uma conjuntura favorável, que contrasta com as vicissitudes sofridas pela Europa e pelos Estados Unidos, não se pode admitir um otimismo excessivo, em face dos  vários problemas ainda não solucionados.    


Publicado no Jornal do Comércio, 07/01/2010


 

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