Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
O que existe hoje não é propriamente uma crise do capitalismo, como um todo, mas uma crise parcial do sistema financeiro, associada a uma crise fiscal. Os bancos emprestaram mais do que deviam e ficaram insolventes ou ilíquidos. Alguns quebraram, outros foram socorridos, transferindo suas crises para os Governos e Bancos Centrais. Paralelamente, os Governos que praticaram uma excessiva política de bem estar social, também quebraram, como é o caso da Irlanda e da Grécia e, em menor escala, Portugal, Espanha e Itália.
No fundo, o que se viu foi um desregramento total, por falta ou desrespeito de uma norma disciplinar reguladora, principalmente na imposição de adequados e prudentes limites operacionais ao sistema financeiro e às Bolsas de Valores.
A excessiva alavancagem do sistema financeiro, aliada à desenfreada multiplicação dos contratos de derivativos nas Bolsas de Futuros, transformou-se em desequilíbrios fiscais e em dívidas soberanas dos Governos que, desde 2007 até hoje, estão obstruindo a operacionalidade dos mercados, amedrontando os investidores, provocando a retração dos investimentos e do consumo. É uma crise complexa, fácil de entender, mas extremamente difícil de ser corrigida. Em suma, é uma crise de confiança.
A situação dos países da União Europeia é emblemática. Com exceção da Alemanha, estão todos altamente endividados e com sérios problemas de desemprego. Nos Estados Unidos, a situação não aparenta tão difícil, mas há o enorme risco de agravamento face aos gastos militares decorrentes da crise política no Oriente Médio e na Ásia Central.
É importante recapitular que a crise começou nos Estados Unidos com a insolvência dos empréstimos imobiliários e explodiu em 15/9/2008, com a falência do Lehman Brothers, a quebra do Bear Stearns e da Merrill Lynch, transformando-se em uma crise sistêmica, que atingiu todos os bancos, o mercado de capitais e as Bolsas de Valores e Futuros. Em seguida, a crise ocorreu também na Europa, pelas mesmas razões.
Os Bancos Centrais e os Governos encamparam as dívidas dos Bancos, comprando seus ativos “tóxicos”. O volume das operações foi de tal monta (cerca de US$ 3 trilhões) que a crise financeira transformou-se em crise fiscal. O Governo dos Estados Unidos gasta muito mais do que arrecada, principalmente gastos militares, Na Europa, pelo mesmo caminho e estimulados pela aceitação do euro, vários países se endividaram muito além da conta.
Atualmente, os Governos dos Estados Unidos e da Europa estão tão endividados que não têm margem para uma ação anticíclica. Daí que a crise fiscal transformou-se em crise do desemprego.
Infelizmente, não há uma perspectiva de solução a curto ou médio prazo, pois para combater o desemprego, os Governos precisariam mobilizar recursos, mediante o corte de gastos. Os Estados Unidos precisam cortar os gastos militares no Iraque, Afeganistão e Oriente Médio, mas confrontam fortes resistências institucionalizadas, inclusive do Partido Republicano e da indústria bélica. A única saída é a “fabricação” de dólares, com vêm fazendo. Na Europa, os países mais afetados pela crise, como a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, estão conseguindo rolar a dívida com grandes dificuldades, com a ajuda do FMI, do BCE e do MCE, através de maciças emissões de euros.
A situação do Brasil é diferente. Os bancos brasileiros estão solventes e, ao contrário da Europa, eles é que são credores do Governo. Em boa parte, a economia brasileira está sendo sustentada pela demanda da China, que impulsiona as exportações, beneficiando a agroindústria e a mineração, com destaque para as grandes empresas como a Vale, a Petrobrás, as siderúrgicas, os produtores de celulose, os frigoríficos, e outras.
Isto significa dizer que, a curto prazo, a crise americana e europeia está tendo efeito reduzido sobre a economia brasileira. Enquanto a China estiver no comando da expansão do comércio mundial, o Brasil estará razoavelmente blindado.
Alguns analistas consideram que a única solução para a crise seria um “novo modelo econômico” ou uma “nova ordem mundial”, mas isso é, em verdade, uma utopia, longe da realidade.
Também não faz sentido esperar a “quebra dos Estados Unidos”. Os Estados Unidos não vão quebrar. Até mesmo porque, se isso acontecesse, seria como a queda do Império Romano, no século VI D.C., seguido de 800 anos da longa noite da Idade Média.
Sem dúvida, devemos ser mais prudentes e realistas, conservando a confiança e o otimismo. E aguardar.
Jornal do Commércio, 1 de maio de 2012