Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Já se vê, claramente, hoje, que a crise sistêmica que está abalando os mercados mundiais teve origem na desenfreada especulação produzida pela alavancagem do processo de securitização conduzido pelos bancos de investimentos e pelas operações de “futuros”, “derivativos” e “opções”, nas Bolsas de Valores e de Mercadorias, facilitadas pela falta de regulação e frouxa fiscalização.
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Já se vê, claramente, hoje, que a crise sistêmica que está abalando os mercados mundiais teve origem na desenfreada especulação produzida pela alavancagem do processo de securitização conduzido pelos bancos de investimentos e pelas operações de “futuros”, “derivativos” e “opções”, nas Bolsas de Valores e de Mercadorias, facilitadas pela falta de regulação e frouxa fiscalização. Aos primeiros sinais de crise seguiu-se uma “corrida bancária”, que gerou um problema de perda de liquidez e de confiança no mercado, de proporções imprevisíveis. Felizmente, as autoridades do Tesouro dos Estados Unidos e do Federal Reserve Bank estão atuando com coragem e rapidez, assim como os Bancos Centrais europeus, e tudo indica que a crise gerada no sistema bancário americano está caminhando para uma solução.
Nos últimos 75 anos, as crises se repetiram em várias oportunidades, como em 1929/33, na “grande depressão dos anos 30”, e em 1939/45, durante a 2ª Guerra Mundial. Mais recentemente, tivemos a crise de 1991 no Japão, de 1994 no México, de 1997, na Ásia, de 1998 na Rússia, de 1999 no Brasil, de 2001 nos Estados Unidos, quando a Bolsa de Nova York fechou por três dias, após o ataque terrorista às torres do World Trade Center. O mundo não acabou por causa dessas crises, que foram superadas.
A crise financeira atual apresenta muitas semelhanças com a grande depressão dos anos 30, com a diferença de que, hoje, a teoria econômica tem muito mais recursos para formular um diagnóstico e as autoridades fiscais e monetárias americanas estão utilizando os meios mais adequados para controlar rapidamente os acontecimentos e impedir que a crise provoque danos irreversíveis. Por outro lado, é um fato evidente de que o mundo já não depende tanto da economia americana, a julgar pela forte presença no mercado internacional dos países emergentes, como a China, a Rússia, a Índia e outros, inclusive o Brasil, sustentados por amplos mercados domésticos e não só pelo comércio com os Estados Unidos.
As autoridades americanas estão intervindo fortemente nas grandes empresas financeiras em dificuldades, inclusive na área dos seguros, proibindo operações de alto risco e reforçando a regulação das operações financeiras e bursáteis.Os bancos de investimentos, responsáveis pelos excessos de securitização e pela especulação incontrolada, estão sendo liquidados, sofrendo intervenção das autoridades ou transformando-se em bancos comerciais, com a supervisão e a ajuda financeira do Federal Reserve e do Tesouro. As restrições de crédito estão sendo amenizadas pela criação da maior liquidez no sistema bancário, embora se possa criticar a contradição do processo de criação dessa liquidez mediante expansão da dívida mobiliária do Governo, eis que expande de um lado e contrai do outro. Certamente, o mais apropriado seria proceder a expansão monetária, sem recorrer à política fiscal.
Os problemas mais agudos estão sendo superados, após o enorme susto causado pela falência do Banco Lehman Brothers. Desde então, o Bank of America encampou o Merril Lynch e o Countrywide, o J.P. Morgan absorveu o Bear Stearns e o Washington Mutual e o Citi encampou o Wachovia. O mesmo está acontecendo na Europa, também com apoio maciço dos Bancos Centrais, com a encampação do Northern Rocks (Inglaterra), a sustentação do IKB (Alemanha) e o socorro ao Banco Fortis (Bélgica). Paralelamente, o Governo americano estatizou as duas empresas gigantes do mercado imobiliário, a Fannie Mae e a Freddy Mac, e também assumiu o controle da AIG, a maior empresa de seguros do mundo.
Finalmente, espera-se a aprovação pelo Congresso americano de um programa de sustentação da liquidez, no montante de US$ 700 bilhões, além de mais de US$ 600 bilhões já injetados no mercado. Os danos que já foram causados são irreversíveis, mas a execução desse programa poderá atalhar uma crise-sistêmica, de proporções imprevisíveis.
É indispensável superar a crise de confiança. Isso pode levar tempo, mas tudo indica que as medidas adotadas pelos Estados Unidos estão sendo realizadas em tempo e em doses suficientes. A pujança dos mercados emergentes, liderados pela China, vai ajudar a sustentar o nível das atividades econômicas e a reduzir as proporções da crise, através da continuidade do processo de globalização. A continuidade do ritmo de crescimento da China passa a ser a grande interrogação.
Ao que tudo indica, o Governo brasileiro está atento à crise e preparado para administrar a política fiscal com prudência e comedimento. O sistema bancário nacional e as empresas de seguro brasileiras gozam de boa saúde. Impõe-se maior vigilância nas operações da Bovespa/BMF, conferindo mais responsabilidade às empresas de auditoria. O caminho é esse.