Inovação, qualificação profissional e dados pautam reunião da CBTIN na CNC

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Encontro destacou integração entre Sistema Comércio, avanço da inteligência artificial nos negócios e necessidade de regulação equilibrada para o setor

A transformação digital do setor terciário, o avanço da inteligência artificial e os desafios regulatórios estiveram no centro dos debates da reunião da Câmara Brasileira de Tecnologia da Informação e Inovação (CBTIN), realizada em 8 de abril, na sede da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), no Rio de Janeiro.

O encontro reuniu representantes de federações, especialistas e áreas técnicas para alinhar estratégias voltadas à qualificação profissional, à inovação e ao fortalecimento institucional do comércio, serviços e turismo.

Ao abrir a reunião, o coordenador-geral das Câmaras do Comércio e Serviços da CNC, Luiz Carlos Bohn, ressaltou o papel do colegiado como espaço permanente de diálogo e construção conjunta de soluções.

“Aqui é um momento de escuta ativa da CNC, um fórum para a discussão de assuntos importantes, e para através das contribuições apresentadas identificar soluções para o segmento”, afirmou.

 Ele também destacou que o trabalho das Câmaras é contínuo, com demandas que são tratadas ao longo de todo o período.  

O coordenador da CBTIN, Antonio Florencio de Queiroz Junior, deu as boas-vindas aos participantes e reforçou a importância da organização da pauta e da atuação integrada. Ao longo do encontro, ele também chamou atenção para a necessidade de ampliar o reconhecimento do comércio como protagonista econômico.

“O comércio hoje responde por 80% do PIB do Brasil. Nós temos que trabalhar e começar a tentar mudar isso ”, disse, ao defender políticas de fomento mais equilibradas entre os setores.

A reunião foi mediada pela gerente da Assessoria das Câmaras Brasileiras do Comércio e Serviços (ACBCS), Andrea Marins.

Integração do Senac e formação profissional em tecnologia

Um dos principais temas da reunião foi a apresentação das ações integradas do Senac Departamento Nacional (DN) com os Departamentos Regionais, voltadas à formação de profissionais em tecnologia da informação. A iniciativa busca alinhar a educação profissional às demandas do mercado, com foco em competências da economia digital, como IA, dados e cibersegurança.

O Programa 4.0 do Senac foi destacado como eixo estruturante dessa estratégia, com parcerias firmadas com grandes empresas de tecnologia e atualização contínua dos currículos. Atualmente, mais de 155 mil pessoas participam das plataformas educacionais vinculadas a essas parcerias.

Outro ponto relevante foi o avanço no segmento de games, considerado estratégico pela instituição, com a ampliação do portfólio para mais de 20 títulos e atualização constante dos cursos, acompanhando tendências globais e demandas do mercado.

Além da formação, o Senac também apresentou a Rede Senac de Inovação, que conecta 14 Departamentos Regionais em um ecossistema colaborativo voltado ao desenvolvimento de soluções para o setor produtivo. A rede atua com foco em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), além de oferecer serviços especializados às empresas, como consultorias, diagnósticos e soluções tecnológicas.

Inteligência artificial e desafios da governança

A aplicação da inteligência artificial nos negócios foi outro eixo central do debate. A apresentação da Diretoria de Inovação e Tecnologia da Informação (DITI) destacou que a IA deixou de ser diferencial competitivo para se tornar elemento estrutural das operações empresariais.

Dados apresentados indicam que 88% das organizações já utilizam IA em ao menos uma função, enquanto o custo médio de incidentes relacionados a vazamento de dados no Brasil alcança R$ 7,19 milhões. Nesse contexto, a governança surge como fator crítico para mitigar riscos e garantir escalabilidade.

Durante o debate, foi enfatizado que 87% das empresas brasileiras ainda não possuem políticas estruturadas de governança de IA, o que amplia a exposição a riscos operacionais e reputacionais. A pauta também abordou a necessidade de equilibrar inovação e regulação, evitando entraves ao desenvolvimento tecnológico.

Queiroz reforçou a preocupação com o tema ao destacar o valor estratégico dos dados. “Isso é um ativo que não tem preço […] o valor dessas informações é enorme”, afirmou, alertando para a importância de políticas adequadas de proteção e uso dessas informações.

“Precisamos avançar na discussão de como a IA deixou de ser aplicada de forma pontual e passou a ser integrada aos processos de negócio centrais, como gestão de preços, estoques, crédito, atendimento e relacionamento com clientes. Estamos vivenciando o uso cada vez maior de modelos e agentes de IA totalmente embarcados em sistemas de gestão. São capazes de apoiar decisões operacionais em tempo real, liberando a força humana principalmente para funções mais estratégicas.

Para o coordenador da CBTIN, um ponto que precisa ser acompanhado pela Câmara é a discussão da segurança da informação e da propriedade intelectual a partir da intensificação do uso de agentes de IA. 

“No comércio, esses agentes operam com acesso a dados e informações dos mais diversos tipos. O desafio crítico de 2026 será garantir que eles atuem dentro de parâmetros claros de governança, ética, alinhamento com os objetivos estratégicos das empresas, e com supervisão humana sobre as decisões automatizadas para garantir segurança da informação.”

Queiroz frisou que as empresas do comércio e serviços precisam fortalecer suas práticas de proteção de dados e controles de acessos para mitigarem riscos cibernéticos, especialmente em ambientes e pontos de venda integrados e multicanais.

Governança nas empresas

O analista da DITI, Guilherme Soares, destacou o avanço da inteligência artificial (IA) no ambiente empresarial e os desafios relacionados à governança e à segurança de dados. Em sua apresentação, ele ressaltou que a tecnologia já está consolidada em muitas operações e, a cada dia, deixa de ser um diferencial competitivo.

“A inteligência artificial não é mais algo novo no nosso dia a dia, e não é mais necessariamente uma vantagem competitiva”, afirmou. Ele afirmou que a IA já está integrada a diversos processos de negócios, especialmente no relacionamento com clientes no comércio, serviços e turismo.

Apesar dos avanços, Guilherme Soares alertou para os riscos associados ao uso da tecnologia sem estrutura adequada. “Quando eu crio uma nova ferramenta para consumir dados em massa, eu estou também expondo esses dados em massa se não houver a devida governança”, explicou.

O representante da DITI também enfatizou que incidentes envolvendo IA e dados tendem a crescer com a ampliação do uso da tecnologia. “A nossa intenção não deve ser chegar a 0% de incidente, mas minimizar o número de incidentes e, principalmente, os impactos desses incidentes”, afirmou, defendendo a adoção de políticas estruturadas de segurança da informação.

Outro ponto de atenção é o custo financeiro desses episódios. Segundo ele, os prejuízos com vazamento de dados e falhas operacionais podem alcançar cifras elevadas, reforçando a necessidade de preparação das empresas.

Acompanhamento legislativo e atuação institucional

Durante a reunião, a assessora da Diretoria de Relações Institucionais (DRI) da CNC, Jenifer Freitas, apresentou um panorama das principais frentes de atuação da entidade no Congresso Nacional e no Poder Executivo, com foco na agenda regulatória de tecnologia e inovação.

Ela frisou a realização, em junho, de uma agenda institucional com presidenciáveis, que incluirá, pela primeira vez, um capítulo específico dedicado às prioridades do setor de tecnologia. A proposta é consolidar contribuições das federações para apresentar aos candidatos demandas consideradas estratégicas para o desenvolvimento de políticas públicas.

No campo legislativo, ela destacou o acompanhamento do Projeto de Lei nº 2.338/2023, que trata da regulamentação da inteligência artificial no Brasil e está em análise na Câmara dos Deputados. Segundo Freitas, a CNC tem atuado para garantir que a regulação ocorra de forma equilibrada, evitando entraves à inovação. A entidade também defende ajustes no texto para não restringir o uso de soluções tecnológicas em atividades onde há escassez de mão de obra, especialmente no setor de serviços.

A assessora também ressaltou outras propostas em tramitação, como o PL nº 4.675/2025, voltado à regulação de mercados digitais, e o PL nº 4.752/2025, que institui o marco legal da cibersegurança. Este último está em fase de análise interna para definição de posicionamento da CNC, com abertura para contribuições das federações.

Outro ponto de atenção é a construção de uma política nacional de economia de dados, atualmente em discussão no Executivo. Jenifer Freitas alertou para a necessidade de maior participação do setor de comércio e serviços nesse debate, historicamente mais concentrado na indústria, e reforçou a importância de reunir informações do setor para subsidiar a atuação institucional em Brasília.

Atuação em rede e fortalecimento do setor

Ao longo da reunião, foi recorrente a defesa da atuação integrada entre as entidades do Sistema Comércio. Para Queiroz, o trabalho em rede é fundamental para ampliar o impacto das iniciativas. “Atuamos de maneira integrada, em rede, e assim devemos continuar”, afirmou.

A pauta também reforçou o papel da CBTIN na formação de profissionais para novas demandas do mercado, na promoção da inovação e na construção de propostas que fortaleçam a competitividade do setor terciário.

Com discussões que envolveram educação, tecnologia, regulação e mercado, a reunião evidenciou o avanço das agendas estratégicas da CNC e a importância da tecnologia como vetor de transformação econômica e social no País.

Julio César Guimarães-6499

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