A esperança de ganhos fáceis rapidamente substituída por um ciclo de prejuízos, juros e insegurança. Um estudo inédito da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revela que a ascensão das apostas on-line (popularmente chamadas de “bets”) no Brasil deixou de ser um fenômeno de entretenimento para se tornar um problema macroeconômico. Desde a regulamentação em 2023, o gasto mensal com essas plataformas já supera os R$ 30 bilhões. Parte deste montante está sendo retirada diretamente do pagamento de contas essenciais, gerando um “efeito substituição” que deteriora o consumo real, de acordo com o estudo apresentado, nesta terça-feira (28), no Observatório do Comércio, em Brasília.
A análise técnica estabelece pela primeira vez uma relação de causalidade entre o uso das bets e a quantidade das famílias que relataram não ter condições de pagar suas dívidas. Segundo os dados apurados pela Gerência Executiva de Análise e Desenvolvimento Econômico (Geade) da CNC, o acesso excessivo às apostas on-line tem pressionado o orçamento da população, levando 268 mil famílias brasileiras à inadimplência severa, além de aumentar o tempo médio do endividamento.
Na visão do presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o poder de compra do cidadão é reduzido por essa opção de entretenimento virtual que tem efeito negativo na vida real: “As apostas on-line estão comprometendo a renda das famílias brasileiras. O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir com seriedade os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras.”
O perfil do risco
Diferentemente do que sugere o senso comum, o impacto das apostas não está restrito apenas aos mais jovens. O estudo aponta que o grupo mais vulnerável ao endividamento por jogos é composto por homens, pessoas com 35 anos ou mais e famílias de baixa renda. Contudo, há um alerta para o público com maior escolaridade: a facilidade de acesso digital e a exposição à publicidade agressiva têm feito com que esse estrato também apresente uma exposição de risco acentuada.

“O que vemos é uma mudança de hábito de consumo da população em favor de serviços. Mas o problema são gastos que colocam em risco o equilíbrio do orçamento familiar. Parcela cada vez mais significativa da renda familiar, que deveria quitar dívidas ou manter a família abastecida, está sendo direcionada para as plataformas, e o resultado é uma inadimplência muito mais difícil de ser revertida, pois o recurso frequentemente se perde sem gerar patrimônio ou consumo de bens. Nos últimos dois anos, o comércio deixou de faturar 143 bilhões de reais por conta desse fenômeno”, explica o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.
Publicidade e dívida crônica
A pesquisa da CNC indica que a exposição excessiva da renda familiar aos gatos realizados nessas plataformas é um dos principais combustíveis para o agravamento da situação financeira. O estudo prova que as famílias afetadas pelas ‘bets’ enfrentam um agravamento crônico, demorando significativamente mais tempo para resolver suas pendências financeiras do que em ciclos de endividamento comuns (como cartão de crédito ou crédito pessoal).
Os dados completos e por perfis socioeconômicos foram apresentados com foco na necessidade de políticas públicas de proteção ao consumidor e regulação da publicidade no setor. Confira o estudo completo aqui.