Consequências da exploração do xisto (Jornal do Commercio de 09 de agosto de 2013)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

De repente, o gás de xisto que Sergio Quintella, em recente exposição perante o Conselho Técnico da CNC, batizou de a extraordinária “nova” fonte de energia, passou a ocupar a atenção dos meios de comunicação.

O xisto é o nome genérico de rochas suscetíveis de transformação, identificadas pelo fato de serem nitidamente laminadas. O xisto betuminoso, uma dessas rochas, é também conhecido como folhelho ou xisto argiloso.

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

 

De repente, o gás de xisto que Sergio Quintella, em recente exposição perante o Conselho Técnico da CNC, batizou de a extraordinária “nova” fonte de energia, passou a ocupar a atenção dos meios de comunicação.

O xisto é o nome genérico de rochas suscetíveis de transformação, identificadas pelo fato de serem nitidamente laminadas. O xisto betuminoso, uma dessas rochas, é também conhecido como folhelho ou xisto argiloso.

Não é de hoje que se busca explorar petróleo e gás a partir do xisto. Mas a exploração só se tornou economicamente viável como resultado de inovações introduzidas no processo de extração.

Na década de 1990, o texano Georges Mitchell, à frente de uma empresa de petróleo, desenvolveu novo procedimento de exploração que combina a perfuração horizontal com a técnica do fracionamento (em inglês fracking) hidráulico da rocha. O fluído utilizado, que resulta da mistura do gel muito caro (bentonina) com o uso da água, tornou economicamente viável o fracionamento que cria fendas na rocha, das quais emanam gás metano e óleo cru, este último, mais difícil de ser extraído, por sua viscosidade.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a partir dessas inovações, surgiu nos Estados Unidos o “boom” da exploração do petróleo e gás baseado no xisto, com projetos bilionários, que se espalharam por todo o território e geraram novos postos de emprego, até mesmo em áreas até então secundárias do Meio Oeste dos Estados Unidos. Essa exploração virou febre na Pensilvânia, a terra do “Coronel” Drake, como se fosse uma volta ao passado.

Na América do Sul, Argentina e Brasil, com reservas de xisto importantes e bem disseminadas geograficamente, teriam, em tese, a oportunidade de explorar, em terra firme, a produção de petróleo e gás. Estima-se que as reservas correspondam a mais de 700 trilhões de pés cúbicos de gás na Argentina e 200 trilhões no Brasil. Contudo, em matéria de interesse na exploração, o Brasil está mais avançado e poderia ser o segundo maior produtor das Américas, tanto assim que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) já estuda a regulação desse tipo de atividade.

A mudança na matriz energética dos Estados Unidos, com a presença do gás de xisto e consequente independência das importações de hidrocarbonetos, terá, como assinalou Sergio Quintella em sua palestra, “profundas implicações na geopolítica, na localização de indústrias de energia intensivas e no preço do petróleo, gás e energia elétrica”.

A AIE refere-se a um “choque de oferta”, ao estimar que a produção mundial de petróleo deve aumentar, entre 2012 e 2018, em 8,3 milhões de barris/dia, o que significa que o mercado de petróleo e gás está se tornando um mercado favorável aos compradores e poderá resultar em perda de poder para o cartel da OPEP, com impacto adverso para Venezuela e Equador, na América Latina.

De imediato, contudo, essa perspectiva não parece ter influído no ânimo dos investidores para a exploração do petróleo do pré-sal, na plataforma continental do Brasil. Grandes esperanças estão depositadas nas reservas do campo de Libra, objeto do leilão previsto para outubro próximo.

A abundância de gás para geração térmica de eletricidade poderá, em termos de longo prazo, justificar, hoje, o abandono da construção de centrais nucleares em países como Alemanha e Japão.

Acima de tudo, a grande transformação, na matéria em foco, deverá ser de natureza geopolítica. Haverá uma provável perda relativa de interesse nas relações comerciais dos Estados Unidos com os países do Oriente Médio. A primavera árabe aumentou o nível de incertezas na região e hoje está claro que ainda há muitas inquietações políticas e religiosas que afligem os países do Oriente Médio e subordinam suas relações comerciais com o Mundo Ocidental e o Mundo Asiático. No fundo, nos dias atuais, na base dessas inquietações está o petróleo. E alguns analistas chegam a dizer que, sob muitos aspectos, o petróleo governa o mundo.

 

Jornal do Commércio, 09 de agosto de 2013.

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