Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
A revolução tecnológica da agroindústria brasileira começou nos anos 50, com a criação das Empresas de Assistência Técnica Rural, as Emater, que se instalaram em diversos Estados brasileiros, adaptando o modelo de extensão agrícola dos Estados Unidos. Pouco mais tarde, as Emater passaram a fazer parte, em termos nacionais, da Associação Brasileira de Assistência e Crédito Rural, a ABCAR.
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
A revolução tecnológica da agroindústria brasileira começou nos anos 50, com a criação das Empresas de Assistência Técnica Rural, as Emater, que se instalaram em diversos Estados brasileiros, adaptando o modelo de extensão agrícola dos Estados Unidos. Pouco mais tarde, as Emater passaram a fazer parte, em termos nacionais, da Associação Brasileira de Assistência e Crédito Rural, a ABCAR.
Congregando os melhores técnicos da ABCAR, arregimentados pelo então Ministro da Agricultura, Cirne Lima, em 1973, surgiu a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Naquela época, os “extensionistas” estavam fascinados pelos estudos de Norman Borlaug, geneticista e fitopatologista americano que, com suas variedades de alto rendimento, ajudou a libertar o México da importação de trigo e vários países da Ásia da importação de arroz. Era o tempo da Campanha Mundial contra a Fome promovida pela FAO (Freedom From Hunger Campaign), e Borlaug tinha sido premiado, por seus estudos e pesquisas sobre a seleção de variedades, com o Nobel da Paz de 1970.
A Embrapa foi constituída com a finalidade não só de ampliar o sentido dos serviços de extensão rural, como para incluir a pesquisa, os estudos e o desenvolvimento dos cultivos e da pecuária em áreas tropicais e subtropicais, que não eram objeto da investigação científica em países do Hemisfério Norte. No salto da seleção das variedades mais produtivas e das técnicas de manejo na produção animal, até chegar aos transgênicos, a Embrapa transformou-se num centro de investigação agropecuária e florestal que é hoje ponto de referência mundial.
Como empresa pública, a Embrapa está estruturada com bastante flexibilidade, o que facilita suas ações sobre um vasto e diversificado território. A partir da Sede, em Brasília, há quinze unidades centrais de coordenação e uma rede descentralizada de unidades operativas, dotadas de vários graus de liberdade para organizar suas tarefas. Essa liberdade, na contramão da herança ibérica, é muito provavelmente um dos ingredientes do êxito da Embrapa, cujo processo de investigação científica se desdobra em várias Embrapas: a de produção animal, grãos e leguminosas, floresta e silvicultura e até meio ambiente.
Do amplo leque temático da Embrapa, valeria destacar, entre muitas de suas ações, o Zoneamento Agroecológico do Nordeste, área de 1.600 mil km2, que também inclui o Norte de Minas Gerais. O propósito do zoneamento é o de caracterizar esse espaço geográfico em função da diversidade de seus recursos naturais, identificando potencialidades e limitações para o desenvolvimento de vinte culturas, num espectro que vai do amendoim e do algodão herbáceo até a mamona e o sisal. De posse das informações técnicas resultantes da pesquisa científica, torna-se possível aos agricultores fazer as escolhas certas e atuar eficientemente sobre esse meio rural.
Cabe destacar, também, o papel desempenhado pela Embrapa na valorização agropecuária do cerrado brasileiro, região que, embora abranja todos os Estados nordestinos, localiza-se preponderantemente no Planalto Central. Com mais de dois milhões de Km2, é uma imensa área de savana com grande biodiversidade. Nela, em dois espaços distintos, a vegetação é formada não só de árvores espaçadas de pequeno porte como de densas florestas, d’onde, possivelmente, advém a qualificação de cerrado. Por volta da década de 1950, o cerrado, com seus solos ácidos e pobres em minerais, como o fósforo, cálcio e magnésio, e sua baixa fertilidade natural, era, praticamente, um vazio demográfico.
Nos dias atuais, o cerrado explode na produção de grãos e leguminosas e é a origem de 70% da produção pecuária do País. Em torno da produção agropecuária, vão se formando centros urbanos e pode-se dizer que, mesmo sem a construção de Brasília, o Planalto Central jamais seria o vazio demográfico de outrora. Foi a disseminação da informação derivada das pesquisas da Embrapa que tornou possível transformar o cerrado brasileiro, começando pela calagem dos solos e a identificação de suas características fisico-químicas e prosseguindo com a seleção de variedades adaptadas às condições climáticas e ao combate às pragas que atacam os cultivos.
Obviamente, como toda intervenção do Homem sobre a natureza tem um custo alternativo sobre o meio ambiente, há quem aponte os riscos do desenvolvimento agropecuário sobre o importante ecossistema da região, nascedouro de grandes rios e abrigo da fauna e da flora autóctone. Não fosse, porém, a valorização econômica do cerrado, o Planalto Central não seria uma fonte de abastecimento alimentar, para o Brasil e para o mundo, no preciso instante em que a população mundial atinge a telúrica cifra de 7 bilhões de habitantes. Aliás, é mesmo a Embrapa que projeta, como um imperativo, dobrar a atual produção de aumentos até 2030, para abastecer os mercados consumidores do mundo.
Interagindo com instituições de pesquisa agroalimentar de países como Estados Unidos e China, a Embrapa embarca, agora, num ambicioso projeto de construção de um dos maiores bancos genéticos do mundo. Reforçando sua posição de referência mundial, na medida em que, como empresa pública, possa estar resguardada das transações políticas inerentes a um presidencialismo de coalizão.
Jornal do Commércio,14 de novembro de 2011