A crise do capitalismo (Jornal do Commercio de 14 de outubro de 2011)

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Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

A economia mundial entrou em pânico em agosto de 2008, após a falência do Banco Lehman Brothers e as dificuldades de liquidez dos grandes bancos americanos e europeus, resultante de uma alavancagem operacional irresponsável, com base em ativos de alto risco. A crise de 2008 ainda não terminou e não se sabe quando e como terminará.

Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo

A economia mundial entrou em pânico em agosto de 2008, após a falência do Banco Lehman Brothers e as dificuldades de liquidez dos grandes bancos americanos e europeus, resultante de uma alavancagem operacional irresponsável, com base em ativos de alto risco. A crise de 2008 ainda não terminou e não se sabe quando e como terminará.

O mundo está vivendo, nos dias atuais, uma crise do capitalismo. Muitos perguntam e afirmam que o capitalismo pode acabar. É lógico que não, A previsão de Karl Marx, feita há mais de 160 anos, de que a globalização e a concentração das mega empresas multinacionais levariam à auto-destruição do capitalismo, provou ser dogmática e irrealista. Até porque Marx não previu o aparecimento da Sociedade Anônima, que resultou numa difusão e democratização do capital.

O capitalismo, como modo de produção que emprega intensamente máquinas e equipamentos, tornando o trabalho humano mais produtivo, sempre existirá. Estatal ou privado, em uma combinação relativa entre o capital e o trabalho. A questão se resume em que os meios de produção (capital) estejam em poder do Estado, capitalismo estatal, ou em mãos de empresários privados.

Para chegar à produção, necessariamente, a matriz da administração empresarial prescreve uma combinação de fatores que abrange um punhado de dirigentes e diretores, de um lado, e uma multidão de trabalhadores, do outro. Dessa forma, repetimos, o capitalismo será estatal ou privado, mas sempre será capitalismo.

Não dá para imaginar a “ditadura do proletariado”, ou seja, os operários no comando político e na direção das empresas. Nem mesmo o que parece uma versão moderna do marxismo, do tipo sugerido por Antonio Gramsci, em que o poder político e o comando das fábricas ficariam sob a direção das Centrais dos trabalhadores, ou seja, um modelo típico de “república sindicalista”, como imaginado, de algum modo, no Governo João Goulart. Uma forma de governo e de sistema econômico que alguns ideólogos pretendem implantar no Brasil.

A questão mais importante é saber se os trabalhadores estarão melhores e mais felizes num sistema ou no outro. Por exemplo, nos Estados Unidos ou na antiga União Soviética.

 A atual crise do capitalismo é o produto de uma distorção dos avanços tecnológicos, que embasaram a prevalência do sistema financeiro sobre o sistema produtivo. O modelo capitalista vai da agricultura à industria, passando pelo comércio e os transportes. O sistema financeiro entrava nesse modelo como um complemento, o “transporte financeiro da produção”, como dizia o mestre Eugênio Gudin. Isso mudou ou está mudando.

Os avanços na tecnologia das comunicações abriram novos espaços ao sistema financeiro e ao mercado de capitais. Aliado aos excessos do sistema liberal e à falta de regulação, os Bancos de Investimentos americanos e europeus, assim como as Bolsas de Futuros, em especial na vertigem dos contratos de derivativos, produziram uma alavancagem impressionante das operações financeiras, completamente fora do alcance dos Bancos Centrais e das agências reguladoras. Bancos grandes, pequenos e médios tornaram-se insolventes, em meio a uma crise sistêmica que obrigou a uma intervenção nunca vista dos Bancos Centrais e dos Governos. A absorção dos “ativos tóxicos” dos bancos resultou numa surpreendente crise fiscal nos Estados Unidos e na Europa.

Ao lado de toda essa extravagância da omissão regulatória e da falta de limites operacionais, surgiram os bônus de excelência na gestão administrativa. Ambiciosos e inescrupulosos administradores financeiros passaram a receber fabulosas participações nos lucros antecipados da alavancagem desmedida. Tornou-se comum a remuneração anual de dezenas de milhões de dólares aos gestores do sistema financeiro, prática que hoje se tornou comum também nas grandes empresas produtivas.

Esse é o quadro da nova crise do capitalismo, que ainda não terminou e cujo desfecho não se pode prever.

Jornal do Comércio, 14 de outubro de 2011

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