Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Desde a revolução na Tunísia, que depôs o ditador Ben Ali, as revoltas populares espraiaram pelo Egito (que não árabe), Argélia, Líbia, Oman, Bahrein, Iemen, Jordânia e Síria. De um modo geral, esses países se diferenciam em dois aspectos básicos: os governos monárquicos (dinastias) e as ditaduras propriamente ditas.
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Desde a revolução na Tunísia, que depôs o ditador Ben Ali, as revoltas populares espraiaram pelo Egito (que não árabe), Argélia, Líbia, Oman, Bahrein, Iemen, Jordânia e Síria. De um modo geral, esses países se diferenciam em dois aspectos básicos: os governos monárquicos (dinastias) e as ditaduras propriamente ditas.
No caso da Líbia, o mais grave de todos, o ditador Muammar Muhammad al-Gaddafi assumiu o poder há mais de 42 anos e, desde então, tem sufocado e punido severamente a oposição. Recentemente, os rebeldes do Leste, com, base na cidade de Misrata, iniciaram uma forte ofensiva contra Tripoli, com o objetivo derrubar o Governo.
A revolta na Líbia transformou- se em verdadeira guerra civil e as forças armadas de Kaddafi, mais poderosas, estão matando milhares de civis revoltosos. Sérios problemas estão surgindo com a migração de mais de 100 mil líbios e tunisianos para a pequena ilha italiana de Lampedusa, no norte da África.
A Líbia é importante produtora de petróleo – 1.600 mil barris/dia – e fornecedora da Irlanda, da França, da Itália. A guerra civil paralisou as exportações, provocando forte reação dos países europeus e a formação de uma coligação de países, liderados pela França, Itália, aos quais aderiram os Estados Unidos, o Canadá, a Noruega, os países da Liga Árabe e outros.
O Conselho de Segurança de ONU, para evitar a matança de civis, declarou a Líbia “zona aérea de exclusão”, que não foi respeitado por Kaddafi. Em resposta, as forças da coligação iniciaram o bombardeio das regiões comandadas pelo Governo.
O Conselho Técnico da CNC, em 22 de março último, discutiu esse assunto em mesa redonda, buscando identificar as razões das intervenções dos países ocidentais, a posição política do Governo do Brasil e as possíveis consequências sobre a economia do mundo e do Brasil.
Em princípio, chegou-se às seguintes conclusões:
1)A reação do mundo ocidental tem por base a questão de ordem moral e humanitária, para apoiar o movimento democrático local e evitar o massacre da população civil;
2)É possível que a posição da França e da Itália se justifique tendo em vista o fornecimento do petróleo; entretanto, esse suprimento sempre foi garantido por Kaddafi;
3)A posição dos Estados Unidos pode ser ditada por simples solidariedade aos europeus, mas poderia também estar ligada à questão do petróleo, com o sentido de advertência, a fim de que a revolta não se estenda à Árabia Saudita, o mais importante fornecedor de petróleo do mundo;
4)Entende-se a posição de dependência dos Estados Unidos ao petróleo do Oriente Médio, razão porque “protege” a Árabia Saudita, de um lado pela presença de Israel e, de outro, pela solidariedade do Egito;
5)Finalmente, ao lado do petróleo, questiona-se a questão que o Presidente Eisenhower, dos Estados Unidos, denominada de “complexo industrial”, ou seja, o interesse dessa indústria em manter o mundo em guerra, para vender equipamentos militares;
6)A posição do Brasil é de “neutralidade”, politicamente contra a “intervenção” e humanitariamente contra o massacre da população civil. Na reunião do Conselho de Segurança de ONU, o Brasil se absteve, assim como a Alemanha, a China, a India, a Rússia e vários outros países.
A rebelião na Líbia deverá provocar uma pequena elevação do preço do petróleo, com um certo impacto sobre a inflação mundial e, pois, algum efeito sobre a economia brasileira, no curto prazo. Entretanto, esses acontecimentos podem fortalecer a posição brasileira de futuro potencial exportador de petróleo para os Estados Unidos e para o mundo. O comércio do Brasil com a Líbia é negligível.
Sobre a grande influência do “complexo industrial militar” e da indústria da guerra, vale registrar, segundo o noticiário da imprensa, que os Estados Unidos têm, hoje, cerca de 1.100 bases militares espalhadas pelo mundo, sendo que em apenas uma delas, Bagram, no Afeganistão, estão 20 mil soldados; além disso existem 761 micro bases. Está em curso a construção – pela Lockhead Martin, um super avião de combate – o F/35 – do qual os Estados Unidos pretendem encomendar cerca de 2.500 unidades, ao custo de um trilhão de dólares, passando a contar com uma força aérea 15 vezes maior que a da China e 20 vezes maior que a da Rússia.
Esse estudo do Conselho Técnico nos ajuda a entender a “guerra do petróleo”, na Ásia Central, no Oriente Médio e no Norte da África. Vale de advertência para o Brasil.
Jornal do Comércio, 1 de junho de 2011