A ideologia dos Brics (Jornal do Commercio, 03/05/2010)

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Antonio Oliveira Santos


Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


Antonio Oliveira Santos


Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


O economista O’Neil, em um momento inspirado, inventou o acrônimo BRICs, uma forma simplificada de se referir aos países emergentes de maior destaque e de maiores possibilidades de se aproximarem dos níveis de desenvolvimento e padrão de vida dos grandes países industrializados. Ficaram de fora dos BRICs a Coréia, a Árabia Saudita, a Espanha, o México, a Argentina e outros.


Os quatro países do BRICs caracterizam-se por ter grandes dimensões geográficas, demográficas e econômicas (tamanho do PIB). E só. No mais, são países muito diferentes em termos culturais, sociais e políticos. Todos eles, porém, têm o objetivo comum de procurar maior integração internacional, pela via da expansão do comércio de bens e serviços, procurando tirar o maior proveito possível do processo de globalização. Até agora, os mais exitosos, nesse sentido, foram a China e a Índia. A China criou uma enorme Zona Franca, o offshoring do Leste, e atraiu centenas de bilhões de dólares de investimentos das 500 maiores empresas multinacionais, abrindo espaço no comércio internacional. A Índia especializou-se na área dos serviços de informática. China e Índia conquistaram o maior mercado mundial, o dos Estados Unidos, pela vantagem comparativa representada pelos baixos custos da mão-de-obra, aliada a um notável desenvolvimento tecnológico gerado na área da educação, com base na destacada qualidade de suas Universidades.


O êxito dos BRICs está atraindo os intelectuais anticapitalistas, principalmente economistas de esquerda, que imaginam “afundar” os Estados Unidos. Como todos os países do BRICs possuem enormes reservas cambiais (US$ 3,3 trilhões), a primeira idéia é atacar o dólar como moeda reserva e denominador comum das transações internacionais. Nesse sentido, advogam a criação de novos padrões monetários, principalmente o uso de moedas nacionais ou regionais, com o objetivo de afastar o uso do dólar americano.


A escolha do dólar americano como moeda internacional não foi uma imposição dos Estados Unidos, como também não havia sido a libra esterlina da Grã-Bretanha, nos seus áureos tempos. A eleição do dólar foi espontânea, derivada da dimensão econômica dos Estados Unidos e, principalmente, do sistema liberal e da confiabilidade de seu sistema jurídico. Que outra moeda teria, em sua base legal, uma estrutura jurídica como a dos Estados Unidos?


O uso do dólar como denominador comum de valores nas transações internacionais e como moeda de reserva produziu benefícios incalculáveis para o mundo dos negócios, como a simplificação financeira das transações e a redução dos custos operacionais. Foi um ganho notável, que escapa a qualquer crítica ideológica.


Mas os Estados Unidos, habitualmente, cometem muitos erros em sua política externa e alimentam os críticos do sistema capitalista, cuja destruição terá  de  passar, necessariamente, pela redução da predominância internacional da economia e da política norte-americanas. Com essa idéia e esse objetivo, a esquerda festiva considera que o melhor caminho é iniciar um trabalho de desprestigio e destronamento do dólar americano.


As reuniões dos BRICs vão ser orientadas nesse sentido, como se depreende do comunicado da reunião de Brasília. Na conjuntura atual,  e, certamente, ainda por muitos anos, substituir o dólar como referência monetária internacional é, simplesmente,  um colossal retrocesso, do ponto de vista da eficiência econômica. É evidente que o dólar internacional pode conviver com o euro regional. Não se trata de um problema de cunho nacionalista, mas, claramente, de racionalidade econômica.


Os BRICs são importantes isoladamente, cada um por si, mas serão mais importantes ainda no conjunto, se conseguiram uniformizar suas ações internacionais. Acontece que os quatro países têm interesses diferentes e até opostos. Por isso, é mais produtivo avançar nas relações bilaterais, na área do comércio e dos investimentos. Essa idéia brasileira de usar uma moeda do bloco ou usar moedas nacionais, nas relações bilaterais é um “non sense”, inventado pelas esquerdas, para ofender os Estados Unidos.


Publicado no Jornal do Commercio, 03/05/2010

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