Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
No mínimo, não é uma pergunta inteligente. A crise atual não é uma crise do capitalismo, nem mesmo do capitalismo financeiro.
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
No mínimo, não é uma pergunta inteligente. A crise atual não é uma crise do capitalismo, nem mesmo do capitalismo financeiro. A crise é conseqüência da absurda alavancagem e do grau de especulação que tomou conta do mercado financeiro e das Bolsas de Valores, Mercadorias e Futuros, devido à irresponsabilidade do sistema de regulação e fiscalização a cargo das instituições oficiais.
Os avanços da tecnologia das comunicações e a velocidade dos sistemas de informação produziram uma expansão fabulosa das operações de crédito e das transações financeiras virtuais. O Estado não acompanhou essa evolução e não teve competência para impor os limites necessários a essa expansão. “Dormiu no jogo”.
Precariamente, apenas para citar o caso dos Estados Unidos, a regulação do sistema bancário virou uma bagunça,em que as atividades de alguns bancos eram reguladas por lei federal, a de outros por leis estaduais e até municipais. O Banco Central Americano (o Federal Reserve Bank) não tinha qualquer ação sobre os milhares de bancos de investimentos, alguns muito grandes, milhares de médios e pequenos. As operações de câmbio, globalizadas, não tinham nem regulação, nem fiscalização adequadas ao Controller of the Currency, assim como a rede de garantias do sistema, conduzida pelo FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), só cobria uma parte relativamente pequena das instituições financeiras. No mercado de capitais, a ação da CVM americana (a SEC – Securities Exchange Commission) não alcançava as operações de derivativos, a termo, nas Bolsas de Valores, de Mercadorias e de Futuros, muito menos o mercado de balcão, uma espécie de instituição “fora de lei” e nem tampouco a CFIC – Commodities Future Trading Commission.
A expansão do sistema financeiro capitalista, globalizado, deu ao mundo um extraordinário período de desenvolvimento e de prosperidade, comandado pelo financiamento das inovações. Por falta de regulação do Estado e precária fiscalização, extravasou os limites da prudência e da segurança. Abriu espaço para a especulação desenfreada. Por isso, a estrutura financeira quebrou.
Agora, os governos do mundo todo, dos Estados Unidos, da Europa, da Ásia acordaram e estão procurando “tapar os buracos”, para restabelecer o clima de confiança indispensável ao mercado financeiro. Alguém já disse, há muitos anos, que o sistema bancário só navega bem em mar calmo.
Nada disso tem a ver com a “falência do capitalismo”, como querem alguns analistas apressados. O problema é de responsabilidade, ou irresponsabilidade do Estado. Por isso, é ao Estado que cabe resolvê-lo.
O capitalismo privado, como a democracia, estão eivados de defeitos. Mas não se conhece alternativas melhores.
Publicado no Jornal do Commercio de 03 de novembro de 2008.