No olho do furacão (Jornal do Commercio, 18/09/2008)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


A economia norte-americana está convivendo com a sua pior crise econômica, nos últimos 17 anos, segundo o Wall Street Journal.

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


A economia norte-americana está convivendo com a sua pior crise econômica, nos últimos 17 anos, segundo o Wall Street Journal. Em meio à crise de energia, as contas do setor público estão totalmente desequilibradas (pelo Governo Bush), com um déficit orçamentário anual de quase US$ 500 bilhões, a balança comercial negativa em US$ 800 bilhões, dos quais US$ 250 bilhões de déficit no comércio com a China, o desemprego em alta para 6,1%, a crise financeira se agravando, os incentivos fiscais se esgotando e o crédito bancário se retraindo. A crise financeira está se aproximando da indústria automobilística, ameaçada de prejuízos de cerca de US$ 50 bilhões. Desde 2007, entre grandes e pequenos, 50 bancos americanos foram à falência, e a corrida bancária continua. Ao contrário do que se imaginava, o sistema regulatório nos Estados Unidos é extremamente precário e mais ineficiente que o europeu.


A situação econômica na Europa não está tão sujeita aos riscos dos Estados Unidos, mas também confronta expectativas preocupantes, a partir da constatação de que o PIB europeu tem crescido não mais do que 2% a 2,5% nos últimos anos. O grave problema demográfico na Europa é uma realidade,  à vista do envelhecimento da população e índices de crescimento negativo, que, por enquanto, estão sendo aliviados pelo aumento da produtividade e das imigrações de trabalhadores de baixa qualificação. A Rússia é uma exceção, a julgar pelo rápido crescimento do PIB e por seus fabulosos recursos naturais. Mas a situação política tem problemas sérios, incluindo o elevado grau de corrupção.


Na Ásia, a China, a Índia e os demais países emergentes atravessam fase excepcional, com exceção do Japão, o mais rico de todos, porém, com a economia estagnada desde 1990. A China é o motor desse crescimento e também do resto do mundo, mas tem limitações sérias: não possui petróleo suficiente, não tem água nem terras férteis para abrigar uma população de cerca de um bilhão de camponeses de renda em nível de pobreza, com uma indústria cuja poluição é a mais alta do mundo. Um desastre em potencial.


A América Latina é uma “colcha de retalhos”, cercada de problemas por todos os lados, com as possíveis exceções do Brasil, do Chile e do México.


O Brasil, como disse o Presidente Lula, “vive um momento mágico”. Com abundância extraordinária de recursos naturais, de água e de energia elétrica, clima favorável, expansão agrícola baseada em grandes extensões de terras agriculturáveis e impressionante produtividade desenvolvida pela Embrapa, assumiu a liderança de tecnologia dos biocombustíveis com a revolução do etanol. E, “como Deus é brasileiro”, surgiram as reservas de pré-sal, que podem abrigar uma quantidade de petróleo e gás entre 8 e 70 bilhões de barris.


Olhando em perspectiva a situação econômica do mundo, temos ainda a agravante dos intrincados problemas políticos, que vão desde o Irã e o Afeganistão, a índia e o Paquistão, a questão Israel/Palestina, o conflito da Geórgia, que poderá fazer ressurgir uma tensão bélica entre a Rússia e os Estados Unidos (vide a desastrosa declaração da candidata Sarah Palin) já agravada pela barreira de mísseis americanos instalados na Polônia e dos navios de guerra estacionados no Mediterrâneo, assim como as manobras dos couraçados russos no Mar do Caribe.


Há uma corrida armamentista entre os grandes países e uma perspectiva de recessão econômica a partir dos Estados Unidos. Um verdadeiro furacão, que pode abalar o mundo. Nesse contexto, a economia brasileira caminha a passos largos na direção de um futuro promissor. A prosperidade econômica e a estabilidade democrática situam o Brasil no “olho do furacão”.


Publicado no Jornal do Commercio de 18/09/2008.

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