Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Quando são examinados exemplos de fora, cada vez mais há o convencimento, na vida nacional, de que devemos cuidar da educação com a visão estratégica da sua importância. A Finlândia, nos exames do Pisa, colocou-se em primeiro lugar em matéria de atendimento pedagógico, com uma autêntica revolução no trato dos seus currículos. Eles não são mais impostos de cima para baixo, mas discutidos em classe, com o envolvimento dos alunos, professores e pais.
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Quando são examinados exemplos de fora, cada vez mais há o convencimento, na vida nacional, de que devemos cuidar da educação com a visão estratégica da sua importância. A Finlândia, nos exames do Pisa, colocou-se em primeiro lugar em matéria de atendimento pedagógico, com uma autêntica revolução no trato dos seus currículos. Eles não são mais impostos de cima para baixo, mas discutidos em classe, com o envolvimento dos alunos, professores e pais. Essa trilogia empenhada no processo é fundamental para que se obtenham bons resultados. Os nossos jovens, nas mencionadas provas, ficaram em 72º lugar, em Português e Matemática.
No Brasil, é verdade, vencemos uma primeira e grande batalha: a da quantidade. Anos a fio discutia-se de que forma se poderia dar atendimento a toda a população em idade escolar. Os resultados são recentes e verdadeiramente auspiciosos. Praticamente, no ensino fundamental, atingiu-se a universalização, com um resíduo de apenas 3% das crianças dos 6 aos 14 anos de idade que ainda se encontram fora da escola, por motivos diversos.
Não foi uma tarefa desprezível, em que se deve destacar o esforço de governos municipais e estaduais. Hoje, temos 45 milhões de estudantes nesse nível de ensino (fundamental), o que é mais do que a população de muitos países importantes. Pode-se ainda argumentar que temos 16 milhões de analfabetos na faixa etária acima dos 15 anos de idade – e esse é um desafio em que está empenhado o Governo do Presidente Lula.
Exames recentes do Ministério da Educação, como os que foram divulgados agora, com relação ao Enem (ensino médio), que avalia estudantes do 3º ano do ensino médio, mostram outra face da moeda: os resultados do ensino fundamental não são acompanhados por idêntica performance, no grau subseqüente. Ainda há milhões de jovens sem a oportunidade de escola, sobretudo no interior, e o que é mais grave: com a profissionalização prejudicada pela falta de equipamentos nas escolas existentes, exceção feita pelas escolas federais, que realizam efetivamente um bom trabalho. Daí à falência.da qualidade é um pulo.
Isso foi demonstrado nas conclusões do Enem/2008. Escolas públicas, de modo geral, ficaram nas piores colocações nas provas realizadas. Só os Cefets e Colégios de Aplicação de universidades federais romperam a barreira do atraso, mesmo assim ficando atrás da maioria esmagadora das escolas particulares de todo o País. No Rio de Janeiro, para citar um exemplo, os primeiros lugares foram ocupados com brilho por instituições como o Colégio São Bento e o Colégio Santo Agostinho, ambos de orientação religiosa, e que operam em regime de tempo integral, como é aconselhável.
Nossas deficiências são mais visíveis no que tange ao aspecto qualitativo. Temos fortes razões para perder o sono, nesse item.
Há uma diferença abissal entre a qualidade do que se oferece na vida pública e o que tem sido feito nas escolas particulares. Veja-se o exemplo dos Brizolões, no Rio de Janeiro. Nasceram como CIEPs, na concepção de Darcy Ribeiro, para dar um ensino de tempo integral, com quatro refeições diárias e professores de remuneração diferenciada (para mais). Hoje, existe um triste espectro da proposta otimista. No exame do Enem, na classificação das escolas do Rio, o primeiro CIEP (Hélio Pellegrino), depois das provas de Redação e Questões Objetivas, ficou no 235Q lugar. Seguiram-se o “Professor César Pernetta” (236º), o “Heitor dos Prazeres” (241º) e “Mário Tamborindeguy” (242º)… e assim fomos indo até chegar ao “Maria Werneck Castro”, que se colocou em 423º lugar. Fim de um sonho? A rede estadual teve 99 das 100 piores notas.
É preciso registrar também que o Enem não é perfeito. Algumas escolas tiveram os seus resultados apagados do sistema, tais como a “Ph” e a “Eliezer Max”. Até agora, não se sabe o que ocorreu.
Para ter qualidade e beneficiar nossos alunos, clama-se por uma revisão ampla, inclusive com a valorização do ensino profissional e técnico. O ensino médio precisa deixar de ser caótico, para exercer seu papel formador. Hoje, é apenas um corredor de acesso ao ensino superior, sem ligações concretas com o mercado de trabalho.
Se há um entrave ao progresso, a conclusão é óbvia: faltam profissionais da educação devidamente qualificados. A formação de recursos humanos, inclusive com o uso corrente da modalidade de educação à distância, é bem-vinda, mas o pagamento infamante dos sistemas está na contramão das possibilidades de êxito. Com o salário mínimo de 415 reais, o piso do magistério está um pouco acima, num clássico exemplo de que falta muito para a solução do maior dos nossos problemas. Sem estímulo, como melhorar a qualidade?
Publicado no Jornal do Commercio de 05/05/2008.