Alta mundial dos preços dos alimentos (Jornal do Commercio, 25/02/2008)

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Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


Os índices que, no plano mundial, refletem os preços agrícolas  encontram-se atualmente em seus níveis mais altos. No último ano, captaram uma alta de 30%. O paradoxo é que esse movimento de alta acontece não em época de escassez e, sim, em plena abundância. O “International Grains Council” aponta, em 2007, para uma  safra mundial de grãos da ordem de 1,7 bilhão de toneladas, a maior de todos os tempos.

Antonio Oliveira Santos

Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo


Os índices que, no plano mundial, refletem os preços agrícolas  encontram-se atualmente em seus níveis mais altos. No último ano, captaram uma alta de 30%. O paradoxo é que esse movimento de alta acontece não em época de escassez e, sim, em plena abundância. O “International Grains Council” aponta, em 2007, para uma  safra mundial de grãos da ordem de 1,7 bilhão de toneladas, a maior de todos os tempos. Mas essa expansão não parece suficiente para manter esses preços estáveis e, em conseqüência, pelas reações em cadeia, os dos alimentos em geral.


Na raiz da forte pressão de demanda sobre os grãos estão fatores que vieram para ficar, por isso mesmo de efeitos permanentes e, portanto, de natureza estrutural: a expansão do consumo mundial de carne e a crescente utilização do álcool carburante.


O forte crescimento econômico dos países da Ásia, particularmente Índia e China, ao gerar aumento de riqueza deslocou a demanda por cereais e leguminosas para a proteína animal. Um exemplo cabal é o caso chinês, cujo consumo de carne por habitante há dez anos era de 20 quilos/ano e atualmente situa-se em 50 quilos. Nos países em desenvolvimento, a procura por cereais manteve-se constante nos últimos vinte anos, mas o consumo de carne dobrou. Acontece que, nesse processo de transformação de um tipo de alimento para outro, são necessários três quilos de cereais para obter um quilo de carne suína e oito para a carne bovina. Como conseqüência, nos últimos 20 anos, 200 a 250 milhões de toneladas a mais de grãos foram empregados na alimentação de animais.


Como esse processo de mudança nas dietas alimentares tem sido gradativo, diria mesmo de natureza incremental, por si só não seria suficiente para explicar inteiramente a forte alta dos preços dos grãos. A explicação se completa com o crescente uso dos biocombustíveis para fins automotivos, muito especialmente o etanol. Isso está muito claro nos caso do meio-oeste dos Estados Unidos, um dos maiores celeiros do planeta. O etanol americano tem como matéria-prima o milho, que é subsidiado pelo governo, aumentando a margem de lucro dos agricultores; não é de admirar, portanto, que, no ano passado, a expansão da produção de milho, em mais de 300 milhões de toneladas, tenha sido obtida à custa da diminuição de outros cultivos alimentares.


Para conter a pressão exercida sobre os preços, seria preciso que houvesse uma resposta do lado da oferta. Nos países mais desenvolvidos, como os da União Européia, uma solução parcial para aumentar a oferta seria utilizar as terras em  descanso, ainda que em prejuízo da futura produtividade por hectare. No caso de países em desenvolvimento e, particularmente no caso do Brasil, como a fronteira agrícola ainda não está totalmente ocupada, a produção de grãos poderia crescer rapidamente, utilizando novas áreas. Mas há duas restrições. A primeira é que a idéia de expansão da fronteira agrícola não deve ser levada a cabo em detrimento da franja da floresta amazônica. A segunda, que as novas áreas a ocupar estão distantes dos grandes centros urbanos e dos portos de embarque  e a precariedade da malha de transportes, fruto da falta de investimentos,  dificulta a movimentação de grãos e eleva os custos.


Diante do quadro acima descrito, a demanda mundial por grãos e leguminosas vai permanecer forte por bastante tempo, com reflexos benéficos sobre a economia brasileira.


Publicado no Jornal do Commercio de 25/02/2008, Caderno Opinião, pág. A-17.

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