Otimismo se mantém no início do ano, mas juros e crédito podem frear consumo

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Apesar de perceber que o custo de vida aumentou em 2010, devido ao pagamento de contas e do aumento de preços em janeiro, o consumidor brasileiro ainda está otimista quanto ao consumo no primeiro semestre do ano. Mas a manutenção desta expectativa até dezembro vai depender da política monetária adotada pelo Banco Central para a taxa básica de juros, a Selic, e os reflexos na concessão de crédito, que, com inflação alta juros altos, pode ter a oferta diminuída.

Apesar de perceber que o custo de vida aumentou em 2010, devido ao pagamento de contas e do aumento de preços em janeiro, o consumidor brasileiro ainda está otimista quanto ao consumo no primeiro semestre do ano. Mas a manutenção desta expectativa até dezembro vai depender da política monetária adotada pelo Banco Central para a taxa básica de juros, a Selic, e os reflexos na concessão de crédito, que, com inflação alta juros altos, pode ter a oferta diminuída.


Esta é uma das principais conclusões da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que apresentou em 24 de fevereiro os resultados de fevereiro das Pesquisas Nacionais de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) e Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC). “Há uma perspectiva boa, mas não de um aquecimento excessivo do consumo. A questão do crédito é importante: o prazo de concessão só será alongado quando houver a percepção de que não haverá alta de juros”, explicou Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da CNC e ex-diretor do Banco Central.


PEIC: inadimplência em queda

O acesso fácil ao crédito, cujos prazos para pagamento permanecem longos, e a continuidade da melhoria no emprego e na renda impactaram positivamente os resultados da Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), que revela que o percentual de famílias com dívidas apresentou aumento em fevereiro, em relação a janeiro (61,8% ante 61,2%). Apesar disso, no período, o percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso caiu de 29,1% para 25,6%, e os que não terão condições de pagar suas dívidas recuou de 10,2% para 8,6%.


Em fevereiro, o percentual de famílias que se consideram muito endividadas ficou em 13,4%, ante 13,7% em janeiro, e o das que se consideram pouco endividadas aumentou para 26,2%, ante 25,8%. As famílias com renda familiar mensal até 10 salários mínimos estão mais endividadas do que as com renda superior a este patamar (63,9% e 49,6%, respectivamente). O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso é significativamente menor para quem possui renda familiar mensal maior que 10 salários mínimos (13,2%) do que para os grupos familiares com renda inferior a 10 salários (27,6%). A mesma relação acontece entre os que acreditam que não terão condições de pagar suas dívidas (9,4% para as famílias que ganham até 10 salários mínimos e 3,6% para as que ganham mais do que isso).


O tempo médio de atraso de quem possui contas ou dívidas pendentes é de 58,8 dias – resultado um pouco menor que os 60 dias verificados em janeiro, e, para 40% das famílias nesta situação, o tempo de atraso nos pagamentos é superior a 90 dias. A parcela da renda comprometida com dívidas apresentou queda, passando de 28,5% em janeiro para 27,8% em fevereiro. Já o tempo médio de comprometimento com dívidas ficou praticamente estável em fevereiro com relação a janeiro: 6,3 meses.


Para a economista da CNC Marianne Hanson, o cenário favorável para crédito e renda beneficia o aumento do endividamento nos próximos meses. Contudo, ressalta a responsável pela pesquisa, os riscos para o aumento da inadimplência serão maiores a partir do segundo semestre de 2010. Caso as expectativas de elevação na taxa Selic se confirmem, as condições serão menos favoráveis para o mercado de crédito, com reflexos inclusive no alongamento de prazos. “Os prazos maiores para pagamento têm sido um dos principais fatores para a sustentação da trajetória do crédito, dado que a expansão do crédito ao consumidor tem se dado a taxas superiores ao crescimento da renda”, afirma.




ICF: consumo estável

Embora tenha se mantido praticamente estável de janeiro para fevereiro (135,5 para 135,8, em uma escala de zero a 200 – ou alta de 0,2%), o Índice de Consumo das Famílias revela uma intenção muito favorável para o mês de fevereiro. Todos os itens que o compõem registraram avaliação positiva das famílias, especialmente naqueles referentes às compras a prazo e renda corrente. Em relação ao mês anterior destacam-se a avaliação positiva quanto à compra de bens duráveis e a queda na satisfação quanto ao consumo atual, conforme mostram os tópicos abaixo:


      – Emprego Atual: Segurança ainda elevada

Na pesquisa de fevereiro, o item emprego atual atingiu 134,1 pontos, indicando satisfação dos entrevistados diante da empregabilidade corrente. Em relação ao mês anterior houve queda na avaliação positiva das famílias (0,5%). Aquelas que percebem renda total acima de 10 salários mínimos ainda acusam um nível de satisfação (144,9 pontos) 9,6% maior que as demais. Regionalmente, destacaram-se as percepções positivas nas regiões Norte (141,3 pontos) e Nordeste (138,1 pontos), ambas com crescimento de 2,8% ante a pesquisa de janeiro. “A percepção geral dos entrevistados nestas regiões tem sido consistente com a evolução recente do mercado de trabalho. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego, o crescimento de 3,1% no emprego formal em 2009 foi impulsionado pelas capitais do Norte e Nordeste do país, onde se verificaram incrementos de 4,3% e 5,0%, respectivamente”, afirma o economista da CNC Fábio Bentes, responsável pela pesquisa.


      – Perspectiva Profissional: Expectativa de melhoria recua

A expectativa de melhoria profissional por parte das famílias brasileiras para os próximos seis meses acusou ligeira redução (-0,7%), mostrando-se, contudo, ainda elevada (134,9 pontos). Esse indicador deriva da percepção otimista por parte de 62,0% dos entrevistados contra 27,1% de pessimistas. Os resultados por faixa de renda não revelaram evoluções significativamente importantes entre as famílias mais ricas e mais pobres de um mês para o outro. Contudo, no corte regional as regiões Norte e Sul evoluíram favoravelmente em relação ao mês anterior (+1,7% e +3,8%, respectivamente), enquanto as demais apresentaram ligeira deterioração.


      – Renda Atual: Queda nas avaliações positivas

Embora a maior parte dos entrevistados (54,1%) ainda perceba melhorias na renda atual, entre as pesquisas de janeiro e fevereiro houve queda de 1,7% (para 143,7 pontos) neste indicador e um aumento de cinco pontos percentuais entre aqueles que declaram estabilidade na renda corrente. Esta percepção encontra forte paralelo na evolução recente dos ganhos reais nos rendimento médio habitualmente recebido pelas pessoas ocupadas apurado pela pesquisa mensal de emprego (PME) do IBGE. Entre janeiro e dezembro, houve desaceleração de 5,9% para 0,7% no comparativo anual. Regionalmente destaca-se o Norte (153,7 pontos), região que, em termos relativos apresentou os maiores ganhos salariais de admissão (+11,6%) em 2009 segundo o Caged. Os dados de fevereiro revelaram ainda uma maior deterioração na percepção dos entrevistados segundo renda familiar. Enquanto nas famílias mais pobres houve queda de 1,4%, entre os mais ricos aferiu-se um recuo de 4,4%.


      – Compra a prazo: Tendência de redução na distância entre as famílias

Apesar do elevado nível de satisfação no total das famílias (146,2 pontos), as facilidades no acesso ao crédito voltaram a evidenciar o elevado diferencial (17,0 pontos) entre as famílias mais ricas (160,8 pontos) e mais pobres (143,8 pontos) no total das capitais pesquisadas.  Entretanto a evolução deste indicador revelou um menor distanciamento entre os dois grupos de renda do que no mês anterior (20,0 pontos). No mês a avaliação quanto às facilidades para obtenção de recursos para compras a prazo cresceu 0,7%, ritmo inferior ao da ampliação da demanda por empréstimos e financiamento por parte do consumidor. Segundo dados do Banco Central do Brasil, em 2009, as concessões de recursos livres para física cresceram 14,8% em termos reais, o equivalente a uma taxa mensal de 1,2%.   Desse modo, o comportamento das famílias ainda não gera expectativas de forte aceleração na demanda por novos recursos.


      – Consumo Atual: Queda no nível de satisfação

Com queda de 4,9% em relação ao mês anterior, a percepção das famílias quanto ao consumo atual foi o indicador que apresentou a menor distância em relação ao ponto de indiferença (100,0). Patamar este alcançado pelas famílias com renda total de até dez salários mínimos. Nos lares mais ricos, o nível de satisfação ainda encontra-se em 114,1 pontos, contudo, no corte por renda foi o indicador que acusou maior deterioração (-10,6%) em relação ao mês passado. À exceção do Norte do país, onde se verificou aumento de 9,8% na satisfação das famílias, todas as demais regiões apresentaram queda de satisfação, com a região sul, inclusive, acusando avaliação negativa (96,2 pontos). Desse modo, a menor satisfação do consumo corrente ainda mostra-se significativamente afetada pelos efeitos da recente crise econômica. Entretanto, segundo os dados mais recentes da pesquisa mensal de comércio (PMC) do IBGE, nota-se uma clara recuperação das vendas reais do varejo em relação aos meses de outubro e novembro de 2008 a taxas superiores a 8,0% ao ano, portanto, muito próximas do ritmo de expansão das vendas no pré-crise.


        – Perspectiva de Consumo: Percepção mais favorável

Diante da robustez do mercado de trabalho e da evolução recente da renda nominal, 53,7% das famílias declararam-se mais seguras em relação ao consumo de curto prazo. A confirmação deste quadro é condizente com a recuperação do volume de vendas do comércio varejista, cujas taxas mensais têm acusado crescimento desde maio de 2009 e apresentado aceleração desde outubro aproximando-se do ritmo de expansão anterior à crise econômica. Neste mês os consumidores revelaram comportamentos divergentes segundo corte de renda. Para as famílias mais pobres a perspectiva de consumo aumentou 0,8%, já para aquelas com renda superior a dez salários mínimos registrou-se redução de 2,5% em relação à pesquisa de janeiro. Regionalmente, os consumidores do norte do país estão mais propensos ao consumo de curto prazo (+7,2% ante o nível do mês anterior). No geral, este índice ascendeu 0,5% na comparação mensal.


       – Momento para Duráveis: Fim da redução do IPI

Este subitem foi o que acusou maior crescimento em relação ao mês anterior. Seu resultado adveio do crescimento expressivo da avaliação positiva das famílias quanto à aquisição de bens duráveis no momento atual (de 67,5% no mês anterior para 72,0% na pesquisa atual). Nitidamente a percepção do consumidor foi afetada pela expectativa de elevação dos preços correntes após o fim da redução das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), em vigor desde abril de 2009 para itens de linha branca. De fato, durante sua vigência, para um IPCA de 3,0% os preços destes bens registraram deflação, como segue; como refrigeradores (-6,6%), máquinas de lavar (-9,2%) e fogão (-2,4%). Para os automóveis novos, cuja redução iniciou-se em dezembro de 2008, o efeito foi semelhante em relação à média geral de preços (-5,5% contra +4,6%, respectivamente). Cabe ressaltar ainda que a recomposição total das alíquotas de IPI para veículos ocorrerá apenas em abril do corrente ano.


Sobre a PEIC

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) orientará os empresários do comércio de bens, serviços e turismo que utilizam o crédito como ferramenta estratégica, uma vez que permitirá o acompanhamento do perfil de endividamento do consumidor, com informações sobre o nível de comprometimento da renda do consumidor com dívidas, contas e dívidas em atraso, e sua percepção em relação à capacidade de pagamento.


Sobre o ICF

A Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) é um indicador inédito com capacidade de medir, com a maior precisão possível, a avaliação que os consumidores fazem sobre aspectos importantes da condição de vida de sua família, tais como a sua capacidade de consumo (atual e de curto prazo), nível de renda doméstico, segurança no emprego e qualidade de consumo, presente e futuro. Em outras palavras, é um indicador antecedente do consumo, a partir do ponto de vista dos consumidores, tornando-o uma ferramenta poderosa para o planejamento do comércio e de outras atividades produtivas.


Veja a íntegra das pesquisas: PEIC e ICF.

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