Rumo à excelência: o novo papel dos sindicatos

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Profissionalização, modernização, excelência em gestão. Conceitos antes restritos ao mundo corporativo estão sendo incorporados ao universo sindical patronal do comércio, que, atento ao futuro, repensa seu papel na sociedade. Capitaneados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, líderes sindicais implementam novos métodos de gestão com o objetivo de ampliar a representatividade das instituições, defender mais efetiva e diretamente os interesses dos empresários e oferecer produtos e serviços que os auxiliem na administração dos negócios.

Profissionalização, modernização, excelência em gestão. Conceitos antes restritos ao mundo corporativo estão sendo incorporados ao universo sindical patronal do comércio, que, atento ao futuro, repensa seu papel na sociedade. Capitaneados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, líderes sindicais implementam novos métodos de gestão com o objetivo de ampliar a representatividade das instituições, defender mais efetiva e diretamente os interesses dos empresários e oferecer produtos e serviços que os auxiliem na administração dos negócios.


A mudança é resultado de um trabalho que teve início em 2002, quando representantes dos cerca de 5 milhões de empreendedores do comércio do País reuniram-se para pensar no futuro das entidades, à época ameaçadas pela desvalorização do movimento sindical patronal e pela possibilidade do fim da contribuição sindical. Descobriram a necessidade de uma atuação ainda mais focada em resultados e deram início à elaboração do Plano Estratégico do Sistema CNC, que, em sua segunda versão, atualizada em 2006, contempla objetivos e metas até o ano de 2020.


Um dos principais projetos estratégicos elencados no Plano Estratégico é o Sistema de Excelência em Gestão Sindical, o SEGS, que incentiva o desenvolvimento da excelência na gestão de federações e sindicatos filiados à entidade, por meio dos critérios da Fundação Nacional da Qualidade. Em seu segundo ano de implementação, o programa já é um sucesso: aproximadamente 700 entidades aderiram ao SEGS e estão praticando os conceitos propostos para a excelência em gestão.


O novo papel dos sindicatos


De olho no futuro e em busca da excelência, entidades sindicais implementam novas formas de gestão para aumentar a sua representatividade. A estratégia para a profissionalização inclui a oferta de serviços aos seus representados


Vinte e um anos após a promulgação da Constituição, que instituiu no País a chamada liberdade sindical, o sindicalismo brasileiro está repensando seu papel na sociedade. Se até 1988 estas entidades, embarreiradas pela lei, trabalhavam apenas como agentes dos empresários em negociações coletivas, hoje, as entidades de representação das categorias profissionais e econômicas querem exercer atividades mais abrangentes junto aos seus associados. A ordem agora é pensar no relacionamento futuro, o que significa ampliar a sua representatividade, defendendo mais efetivamente os interesses de seus representados junto aos órgãos governamentais e, ainda, oferecer serviços para os seus afiliados. Em outras palavras, as entidades sindicais entenderam que também são uma empresa, e estão em busca da profissionalização de seus negócios.


“A sociedade está demandando mudanças por parte dos sindicatos, e há uma enorme expectativa a respeito do que eles podem oferecer”, afirma o chefe do Departamento de Planejamento (Deplan) da CNC, Daniel Lopez, para quem o maior envolvimento entre sindicatos e sociedade “é sinal de modernidade”.


O movimento tem paralelo com o mundo corporativo. Até alguns anos atrás, as empresas, sobretudo as de micro, pequeno e médio portes, em geral familiares, tratavam a sua administração de maneira empírica. Mas, diante das mudanças cada vez mais rápidas e pensando em sua sobrevivência no futuro, elas se viram obrigadas a desenvolver uma nova gestão empresarial, calcada em uma visão estratégica – isto lhes permitiria enfrentar desafios e aumentar a sua competitividade em um mundo cada vez mais globalizado. O caso mais recente envolve o estilista Carlos Miele, dono de um conglomerado que engloba, entre outras lojas, a M.Officer. Em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro, Miele admitiu que o calcanhar de Aquiles de suas empresas é a administração: “Os líderes se acomodaram; criaram-se ilhas de poder que nos deixaram muito atrasados em processos de gestão. Só agora estamos implementando um software de gestão que todo o setor de moda usava há anos”, afirmou o empresário.


Mas, afinal, o que significa uma gestão estratégica nos negócios? Toda gestão é uma “atitude” de administração voltada ao estudo do risco. Para Wagner Campos, coordenador e professor de Marketing da Faculdade Anhanguera Educacional, trata-se de uma forma de acrescentar elementos de reflexão e ação sistemática continuada a uma corporação, avaliando a sua situação atual, elaborando projetos de mudanças estratégicas e acompanhando e gerenciando os passos de implementação. “Como o próprio nome diz, é uma forma de gerir toda uma organização, com foco em ações estratégicas em todas as áreas”, afirma. Para isto é elaborado um plano estratégico – nada mais do que uma bússola para os membros de uma organização, um conjunto flexível de informações consolidadas que serve de referência e guia para as ações das empresas. É por meio dele que perguntas básicas são respondidas, como “por que a organização existe?” e “onde ela quer chegar?”. O consultor do Sebrae-SP Renato Fonseca é categórico ao afirmar que estratégia e plano de ação são essenciais para a gestão de qualquer projeto ou empreendimento: “Isto proporciona rumo, orientação e direção, e tem uma influência muito grande na conquista de novos mercados e redução de custos, fatores que influenciam diretamente a competitividade e a perenidade das empresas, inclusive as de pequeno porte”.


Para a Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), principal disseminadora de práticas de gestão de excelência do País, a organização é considerada um sistema orgânico e adaptável ao ambiente externo. Para melhor desenvolvê-la, foi definido um Modelo de Excelência em Gestão baseado em 11 fundamentos, que são a base teórica de uma boa gestão, e oito critérios: liderança; estratégias e planos; clientes; sociedade; informações e conhecimento; pessoas; processos e resultados. Entre os fundamentos estão o pensamento sistêmico; a cultura de inovação; a liderança e constância de propósitos; a orientação por processos e informações; a visão de futuro; a valorização de pessoas; o conhecimento sobre o cliente e o mercado; o desenvolvimento de parcerias; e a responsabilidade social. A gestão estratégica implica em ter uma visão generalista da organização, o que significa que as metas são mutáveis e jamais devem ser transformadas nos objetivos do negócio. É preciso repensar a estrutura organizacional e os processos administrativos. Em outras palavras, não se pode ficar limitado ao cotidiano e deve-se sempre ampliar o horizonte temporal. É preciso ser comprometido e envolvido.


No mundo sindicalista, a palavra do momento é profissionalização. Por todo o País, sindicatos e federações patronais buscam novos métodos de gestão profissional que permitam a ampliação da sua representatividade. O movimento de modificação na estrutura representativa teve início com as confederações patronais. Para o chefe da Divisão Sindical da CNC, Dolimar Pimentel, a entidade foi a que melhor soube lidar com a liberdade conferida pela Constituição. “A criação do Sistema Confederativo da Representação Sindical do Comércio, o Sicomércio, em 1990, foi o primeiro passo dado pela CNC para exercer a liberdade Constitucional que lhe foi dada”, afirma.




2002: o ano da mudança


Em 2002, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo começou a repensar seu papel na sociedade e seu próprio futuro, dando início a um processo de mudança que culminaria em uma verdadeira revolução em sua gestão. A 6ª edição do Congresso do Sicomercio, o encontro que reúne representantes de todas as entidades afiliadas ao Sistema CNC, contou com a participação da consultoria Amana Key, que instigou os líderes sindicais a pensar a longo prazo, em termos de futuro, considerando eventuais ameaças às suas entidades, objetivos e metas. “Foi um salto em sua evolução”, como define Daniel Lopez. À época, duas “ameaças” rondavam a entidade e provocaram a necessidade de uma atuação ainda mais focada em resultados: a desvalorização do movimento sindical patronal e a possibilidade do fim da contribuição sindical. Além disto, sindicatos, federações e a própria CNC entendiam que o setor terciário unido se tornaria mais forte para atuar na defesa de suas causas, como a racionalização dos impostos, a flexibilização das relações entre capital e trabalho e o combate à informalidade, por exemplo. Dois anos mais tarde, em 2004, durante o 7º Congresso, a CNC, suas 34 federações e seus quase mil sindicatos deram início à elaboração do primeiro Mapa Estratégico do Sistema CNC, com escopo até 2007. Ao final deste prazo, após revisões e novos diagnósticos de cenários e desafios, as entidades elaboraram, com base na metodologia de Busca do Futuro, a segunda versão do Plano Estratégico, com horizonte 2007-2020.


Um dos projetos estratégicos elencados no Plano Estratégico da CNC é o Sistema de Excelência em Gestão Sindical, o SEGS, um programa que incentiva o desenvolvimento da excelência na gestão de federações e sindicatos filiados à entidade, por meio de critérios baseados nos critérios da Fundação Nacional de Qualidade. Na CNC, ele é capitaneado pelo Departamento de Planejamento. Entre outros, o SEGS tem como objetivo capacitar líderes e executivos em práticas gerenciais de excelência, possibilitando incrementar a atuação das entidades, além de proporcionar tanto o crescimento individual quanto das entidades e empresas representadas.


Dividido em dois níveis de avaliação, o SEGS ocorre em ciclos anuais, numa busca de evolução constante. Para Ladislao Pedroso Monte, presidente da Fecomercio-AP, “o SEGS surgiu com o novo momento que o sindicalismo patronal brasileiro vive, com a necessidade emergente de atuar com maior profissionalismo”.  “O SEGS inaugura uma nova era na administração dos sindicatos empresariais do comércio de bens, serviços e turismo, e fará uma verdadeira revolução na gestão das entidades sindicais. O sistema sindical brasileiro se dividirá em antes e depois do SEGS”, afirma o presidente da Fecomercio-PR, Darci Pianna.




SEGS: a excelência começa aqui


Relatório divulgado em julho de 2009 pelo Departamento de Planejamento (Deplan) da CNC mostra que o Sistema de Excelência em Gestão Sindical (SEGS) possui 696 adesões, sendo 33 federações e 663 sindicatos. No ciclo 2009, o segundo ano do projeto, o Deplan fez um retrato da evolução das entidades sindicais participantes. Segundo o documento, a maioria despertou para uma melhor forma de gerir seu negócio. “O conhecimento de ferramentas que ajudam a melhorar a representatividade e a auto-sustentação está formando uma base sindical sólida que pode representar e desenvolver de forma eficiente o setor terciário no Brasil”, afirma o texto.


Várias federações destacam-se por sua atuação no ciclo 2009 do SEGS. A Fecomercio-MG dividiu sua área de atuação em pólos regionais e distribuiu consultores especializados em gestão para atendimento individual aos sindicatos. Além disto, promoveu diversos workshops de Liderança, Estratégias e Planos, Clientes e Pessoas. No Acre, a Fecomercio realizou um treinamento específico sobre 5S, um programa aliado aos programas de excelência por conta do seu efeito sobre a motivação para a qualidade. A Fecomercio-DF realizou um workshop de Estratégias e Planos, motivando os sindicatos a construir e realizar seus planos de melhoria. A criação de um grupo de avaliadores para a troca de práticas de gestão foi a iniciativa da Fecomercio-CE para promover a integração efetiva dos 29 sindicatos regionais que aderiram ao SEGS.


A Fecomercio do Paraná está trabalhando na realização de fóruns regionais de sindicatos para o desenvolvimento das oficinas do SEGS, troca de práticas entre as entidades e acompanhamento dos Planos de Melhorias. Para quem não puder participar in loco, a entidade disponibiliza um software que permite que os sindicatos registrem e acompanhem os resultados do seu Plano Estratégico e do Plano de Melhorias. Além disto, outro software está em desenvolvimento para permitir a gestão integrada dos sindicatos do Paraná, com funções que vão desde a emissão de guias de cobrança até a gestão financeira e contábil da entidade. A Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (FNHRBS) criou uma metodologia para a valorização dos avaliadores dos sindicatos, estabelecendo critérios de avaliação da participação dos avaliadores durante o processo, que acumulam pontos à medida em que cumpre etapas de prazos. Segundo o presidente da entidade, Norton Lenhart,     o SEGS foi um dos principais trabalhos realizados pela CNC em prol do sindicalismo brasileiro: “a melhoria na gestão dos sindicatos é significativa”.


Para o presidente da Fecomercio de Minas Gerais, Renato Rossi, o SEGS é um valioso instrumento para fortalecer as relações dentro do Sicomercio: “as orientações dadas em treinamentos do SEGS permitiram a identificação precisa do que queremos para as nossas entidades e como podemos atingir os nossos objetivos. Todo este processo também nos mostrou a necessidade de preparação dos líderes, no sentido de buscar informação, gerar conhecimento, melhorar a prestação de serviços, fortalecer a imagem institucional, ampliar ainda mais a representação junto ao governo e, dessa forma, tornar nossas entidades ainda mais robustas”. José Roberto Tadros, presidente da Fecomercio-AM também defende a importância do Sistema de Excelência – um instrumento implementado pelas federações junto aos seus sindicatos que aumentará a representatividade do sistema sindical patronal do comércio. O presidente da Fecomercio-AP, Ladislao Pedroso Monte, classifica como “substancial” a contribuição do SEGS para as entidades: “Mais do que nunca, federações e sindicatos precisam representar suas categorias de forma efetiva, disponibilizando produtos e serviços de qualidade”, afirma.


 


Meta do SEGS é atingir a totalidade das entidades do Sistema Comércio


O Sistema de Excelência em Gestão Sindical da CNC ganhou destaque na pauta da última reunião da Diretoria da CNC, realizada no dia 16 de julho, na sede da entidade, em Brasília. O vice-presidente administrativo, Flávio Sabbadini, fez um balanço da implantação do SEGS nas entidades filiadas ao Sistema CNC.


“Este processo de melhoria do sistema, de busca de uma gestão mais eficiente, já vai para o seu terceiro ano. Quando o SEGS foi implantado, precisávamos criar uma linguagem una no Sistema, e isso vem se desenvolvendo. As federações aderiram à utilização desta ferramenta, modernizando sua relação com o mercado. Inicialmente, tivemos a adesão de 33 federações e de aproximadamente 525 sindicados, dos quais 400 operavam o processo. Em 2009, os sindicatos que aderiram ao programa já totalizam 663”, afirma Sabbadini. Apesar dos bons resultados, o empresário enfatiza que é preciso atingir a totalidade para que o sistema representativo do comércio aumente a sua representatividade e alcance, de fato, a excelência. Para criar condições de que o sistema chegasse a todas as entidades filiadas, a CNC disponibiliza assessores e promove treinamentos, juntamente com as federações, dos quais já participaram mais de 600 executivos multiplicadores do programa.


Para o vice-presidente financeiro da CNC, Luiz Gil Siuffo Pereira, “o trabalho de gestão, de levar os sindicatos a atuar na prestação de serviços, dará legitimidade a estas entidades, fazendo com que o Sistema representativo empresarial sobreviva por muitos anos”. Para ele, esta nova fase por que passa a CNC é fruto da ideia de criação do Sistema Confederativo da Representação Sindical do Comércio, o Sicomércio. “Se continuar a ser conduzido desta maneira, não tenho dúvidas de que a semente do Sicomércio frutificará e produzirá muitos outros efeitos positivos em nosso País”, disse.


“A modernização dos sindicatos é fundamental”


A ideia de mudança na gestão das entidades do Sicomércio, de forma a aumentar sua representatividade, já era acalentada pelos diretores da CNC. À época da implantação do Sistema de Excelência em Gestão Sindical, algumas federações do comércio, como Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, já atuavam com projetos semelhantes.


“Temos hoje 85% dos sindicatos adaptados ao SEGS e outros 15% em fase final de implantação. Deste total, mais de 40 sindicatos já promoveram mudanças em suas administrações: melhoraram suas sedes ou passaram a prestar algum tipo de serviço. O resultado financeiro foi que algumas destas entidades aumentaram em até 170% sua arrecadação”, disse o presidente da Fecomércio-PR, Darci Piana. Para ele é fundamental que as federações incentivem os sindicatos a se atualizar, a se modernizar, a aderir ao SEGS: “o resultado é fantástico e atinge inclusive a sua estrutura financeira”, enfatizou.


Um sistema de gestão também fazia parte do planejamento estratégico da Fecomércio-RJ quando o SEGS surgiu. “O sistema de gestão é importante, e estamos procurando dotar os sindicatos de instrumentos e ferramentas para que eles possam modernizar a sua representação; por outro lado, tentamos encontrar formas de viabilizar esta representação pelo aspecto econômico-financeiro”, afirmou Orlando Diniz, presidente da entidade.

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