João Havelange fala sobre a Copa de 2014 e os desafios que o Brasil tem pela frente

Compartilhe:

“Temos que reconhecer e aplaudir o trabalho da CNC”


Recentemente, o ex-senador Bernardo Cabral, consultor da Presidência da CNC, transmitiu ao presidente Antonio Oliveira Santos uma previsão feita por João Havelange que dá bem a medida do que tem sido a atuação da Confederação em benefício do turismo e do desenvolvimento econômico do País.

“Temos que reconhecer e aplaudir o trabalho da CNC”


Recentemente, o ex-senador Bernardo Cabral, consultor da Presidência da CNC, transmitiu ao presidente Antonio Oliveira Santos uma previsão feita por João Havelange que dá bem a medida do que tem sido a atuação da Confederação em benefício do turismo e do desenvolvimento econômico do País. Em entrevista à revista CNC Notícias, que o Portal do Comércio reproduz aqui em sua versão integral, o presidente Havelange falou sobre essa previsão e os desafios que se apresentam ao Brasil com a realização da Copa do Mundo daqui a cinco anos.




Por que o senhor afirmou que a CNC será uma das instituições mais elogiadas na Copa do Mundo de 2014?


João Havelange – Entre as 12 cidades definidas para a Copa do Mundo de 2014, duas me chamaram a atenção: Cuiabá, na área do Pantanal, e Manaus, que fica na nossa região mais desejada no mundo. Indiscutivelmente, quem teve o grande privilégio de ter essas duas sedes escolhidas pela Fifa foram os governos de Mato Grosso e do Amazonas. E isto, no meu entender, pelo trabalho que a Confederação Nacional do Comércio, sob a presidência do dr. Antonio Oliveira Santos, vem realizando em benefício das duas regiões, fazendo com elas se desenvolvam e sejam conhecidas de um modo diferente pelo mundo. Quem pode fazer isso é o turismo. No caso, o futebol se associou ao turismo, a essa grande obra da CNC, com as duas regiões sendo escolhidas para a Copa do Mundo. O que é um valor importante para a difusão do nosso País e, principalmente, destas duas regiões. Assim, eu não poderia deixar de me lembrar do presidente da Confederação, um homem que há muitos anos se dedica ao desenvolvimento do comércio e turismo no nosso País, levando o quanto possível ao exterior as regiões mais privilegiadas deste Brasil.


 

Qual o reflexo para o Pantanal e para a Amazônia do fato de Cuiabá e Manaus terem sido definidas subsedes da Copa de 2014?


João Havelange – É um impacto interno e externo. Principalmente em função daqueles que aqui vierem e conhecerem o que essas regiões podem apresentar, oferecer, sua flora, fauna. Tudo isso as torna inesquecíveis para o turista. E isto traria, no decorrer dos anos, mais turismo e mais desenvolvimento para cada região. E digo isso porque conheço pessoalmente as duas regiões, não de hoje, mas do tempo em que fui presidente da CBD, nos anos 50. Portanto meio século já se passou. E posso sentir a evolução que as regiões tiveram. Por isso, temos que reconhecer e aplaudir o trabalho que a CNC fez. No meu encontro com o senador (Bernardo Cabral, consultor da Presidência da CNC), eu mencionei não somente o bem que isso irá representar para as regiões, mas também a quem nós devíamos isso: no meu entender, à Confederação Nacional do Comércio.


Com a infra-estrutura e a logística que tem, o Hotel SESC Pantanal poderá servir de concentração para alguma equipe de futebol? 

 

João Havelange – Eu conheço o SESC Pantanal. É uma das coisas mais preciosas da região. Principalmente pela organização, pela maneira como nós somos recebidos. Isto é único. E nós sabemos que o turista vem, mas é exigente. E lá pode exigir, porque não vai faltar nada. Existe estrutura para receber seleções e o time que ficasse lá estaria tranqüilo, dentro de uma reserva, privilegiado não somente pela região, mas pela tranqüilidade que se pode oferecer a uma grande seleção de futebol. Portanto, eu acho que tanto o Pantanal como a Amazônia são duas regiões que nós devemos fazer conhecer ao mundo pelo lado positivo e nunca como muitas vezes tem sido, como se fosse um transtorno, ou uma preocupação, quando não é; é um valor. E esse valor nós devemos apresentá-lo ao mundo.


O que significaria isso para a região e para o próprio SESC, em termos de repercussão mundial?


João Havelange – Aquele que tivesse a felicidade de ir para o Pantanal, quando chegasse ao seu país ou ao seu continente faria conhecer o que aquilo representou para a seleção que ali estiver. De Cuiabá até o hotel é relativamente próximo e eu acho que seria uma felicidade para aquelas seleções que tiverem como ponto Cuiabá ou Manaus.


O governo descartou o uso de dinheiro público na construção e reforma dos estádios, dando prioridade para os aeroportos. Qual será o maior desafio para o Brasil, em termos de adequação da infraestrutura?


João Havelange – Nas copas que presidi pela Fifa, indiscutivelmente o ponto principal foi a parte de transporte e de locomoção. Na Europa é possível chegar aos lugares de trem, de automóvel. Mas em um país-continente como o nosso tem que ser por avião. Então, o governo tem por obrigação, aceitando a Copa do Mundo como aceitou o governo do presidente Lula, de oferecer àqueles que aqui virão aeroportos perfeitos nas 12 cidades, porque, tanto a entrada como a saída será sempre pelo aeroporto. O que ocorre? A melhoria que se fizer não é para a Copa do Mundo, é para o país, é para a população, para todos aqueles que têm que se servir desse meio de transporte. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é rever todo o meio de locomoção, as estradas por onde temos que passar. E um outro aspecto muito importante que o governo não pode esquecer é a segurança. O visitante, vá a qualquer lugar, tem que estar seguro de não ser incomodado, não ser mal-tratado e isto é da alçada principalmente do governo. E se isso ocorrer, como é o desejo de todos, dará uma imagem de valor ao nosso país, uma imagem de qualidade, que é muito importante para o turismo. E o turismo é uma fonte de receita.


Eu gostaria que um dia o meu país chegasse a algo como na França. A França tem 60 milhões de habitantes. Recebia, por ano, 60 milhões de turistas, o chamado turista classe A, que gasta mil dólares. Uma entrada de 60 bilhões de dólares. Em uma copa do mundo, a imprensa do mundo inteiro, as televisões, falam no evento pelo menos por cinco, seis anos, porque é decidido com sete anos de antecedência. É a divulgação da imagem, o conhecimento das regiões. Na França o que é que ocorreu? Após a Copa do Mundo, o total de visitantes aumentou de 60 para 70 milhões de pessoas. Então o que é que a Fifa e o futebol mundial ofereceram à França: 10 bilhões de dólares a mais por ano. É desta maneira que nós temos que sentir um evento como este. E é desta maneira que nós devemos aplaudir, nos associar a quem teve a possibilidade de trazer essa Copa do Mundo, no caso a CBF, pelo seu presidente Ricardo Teixeira, e também pelo apoio irrestrito do governo federal, estadual e municipal de cada região.


Que papel cabe à iniciativa privada nesta fase preparatória?


João Havelange – Primeiro refazer os estádios. Atualizar os estádios em cada cidade. Mas não fazê-lo como estádio de futebol apenas, em que se aplicam 500 ou 600 milhões de reais e depois funciona uma vez por semana. Ele tem que ter sobrevida. Tem que funcionar pelo menos 270, 300 dias por ano. Faz-se um supermercado ou uma escola, enfim, que ele tenha vida. Tem também que ter local para estacionamento, que é explorado e leva gente em permanência. Ou seja, nós temos que estudar uma forma completamente diferente do que foi a nossa Copa do Mundo, em 1950. Em meio século o mundo se modificou, evoluiu, e nós temos que acompanhar.


Existem estádios no mundo, por exemplo na Holanda, em que há, dentro do estádio restaurantes classe A, B e C, com salas de reuniões classe A, B e C. De acordo com a importância ou com o desejo são três valores e tem gente permanentemente. Um dos estádios na Holanda é da Philips. É o único lugar do mundo em que você encontra produtos Philips com 30% de desconto. Então, é um movimento permanente. É isso que é preciso fazer para dar vida. E, se possível, fazer dentro do estádio uma escola para crianças. Porque noite e dia ela está funcionando, noite e dia o estádio é visto, é reverenciado e é respeitado. Então, o que se aplicaria é uma gota d’água em relação ao benefício que se vai trazer. Temos que olhar o esporte dessa maneira. Entrosando-o com as atividades comerciais e industriais do país. E, neste caso, a CNC é um exemplo para todos de nós, de trabalho e de desejo de progresso.


O turismo é das atividades que mais empregam no Brasil. Qual a importância da qualificação da mão de obra e, nesse contexto, de uma entidade com a tradição do Senac no setor?


João Havelange – É de uma importância capital. Porque se aquele que vai receber, apresentar, criar, oferecer, não for bom, tiver qualidade, fica um hiato muito forte. E eu creio que é mais um alento, mais um valor a ser acrescentando para que todos se empenhem, e todos se apliquem, e todos procurem evoluir para dar o melhor na parte turística durante esta Copa do Mundo.


De que forma o trade turístico pode contribuir para o sucesso de um evento deste porte?


João Havelange – Por exemplo, no caso da hotelaria. Apresentar hotéis de três, quatro e cinco estrelas, cada um no seu padrão, da melhor qualidade, com o melhor serviço. Porque não é por que alguém está num hotel três estrelas que ele não deva ser bom, limpo, organizado e bem apresentado. Então, é preciso contemplar todas as categorias. O torcedor não vai ao futebol porque é rico, ele vai porque é um apaixonado, ele quer ver um espetáculo. Ele tem o direito e nós temos que protegê-lo. Como? Na questão do turismo, pela hotelaria. Outro aspecto é que o transporte seja fácil e bastante eficiente para aquele que tenha que se servir dele. Há também a parte hospitalar. Não existe cidade aqui que não tenha hospital classe A. Então, é a CBF fazer um acordo com o hospital e esse hospital, durante a Copa do Mundo, durante os jogos que aí se realizarem, ficará à disposição se algo acontecer. Não é que o visitante viaje com a ideia de ficar doente, mas pode ocorrer. Nesse caso, ele terá tranqüilidade. Veja com quantas coisas se mexe, quantas coisas vão ter que evoluir, vão ter que melhorar. E  isto o que é? É um benefício futuro para a comunidade, porque, ao se fazer para aquele que chega, será também para aquele que fica.


Além do incremento do turismo, há a expectativa de criação de empregos com as obras. Até que ponto uma Copa do Mundo pode influenciar a economia do país sede?


João Havelange – Não se faz um estádio em 24 meses. Muitas vezes leva 36. Então é mão de obra para 36 meses para uma população importante. Além de ser positivo para a economia é uma tranqüilidade para quem governa, ao ter homens empregados, as famílias podendo sobreviver digna e honestamente. E isto vindo de onde? Do futebol, que se associa ao turismo.


Saindo da Copa, mas ainda dentro do esporte: quais as chances do Rio contra Chicago, Madrid e Tóquio na disputa pelas Olimpíadas de 2016?


João Havelange – É com muito prazer que eu vou lhe responder. Primeiro quis o destino que eu seja o decano, e por má sorte (risos), o mais velho. Decano é o mais antigo, e no momento o mais velho, porque eu já tenho 93 anos. E já estou no Comitê Olímpico vai fazer 47 anos, por eleição. São 100 membros que vão votar e eu me comprometi com o presidente Nuzman. A cada um dos membros eu fiz uma carta diferente, sob um aspecto pessoal meu com a pessoa e, no final, eu peço a ela que ofereça o voto à minha cidade, que é o Rio de Janeiro. A comissão do Comitê Olímpico Internacional que esteve aqui para fazer as verificações do que nós oferecíamos, eu posso lhe dizer que saiu encantada. E, quando houve a apresentação nos dias 17 e 18 de junho (em Lausanne, Suiça), eu soube – porque eu não pude viajar por uma questão de saúde –que o Rio de Janeiro foi muito considerado e aplaudido. Então, tenho esperança. A decisão será no dia 3 de outubro, em Copenhague, no Congresso do Comitê Olímpico Internacional, no qual estarei presente. Chegarei no dia 28, porque há reuniões que o antecedem. No dia 28, também chega o presidente da República, o presidente Lula, e eu me comprometi a estar com ele para demonstrar todo o meu apego, a minha vontade ou a minha decisão de poder oferecer ao meu país este momento de realizar os jogos. Com uma circunstância a mais: nos jogos de 2016 eu estarei completando 100 anos. Este é mais um aspecto, e eu me sentiria homenageado se aqui fossem realizados os jogos. É com essa disposição que eu tenho feito as minhas cartas a cada um.


A perspectiva de realização da Copa de 2014 pode influir de alguma forma na decisão do COI?


João Havelange – Não. Primeiro, são duas entidades totalmente diferentes. Segundo, são duas formas de realizar diferentes. Uma, o futebol, em 2014: são 12 cidades, 32 times. Comitê Olímpico: é uma única cidade envolvida, são 28 esportes e chegam num mesmo dia, e praticamente saem no mesmo dia, 50 mil pessoas. Em um, mexe-se em 12 cidades de maneira suave, no outro não. E temos, para o Rio de Janeiro, o compromisso do presidente da República, que esteve presente e asseverou, assim como o presidente do Banco Central, que disse que os recursos não faltariam. Estiveram também o governador, o prefeito. Então, veja que os jogos olímpicos estão amparados. E nós temos que demonstrar. Por que? O que nós chamamos o Cone Sul, quer dizer o território do equador para baixo, nunca recebeu uma competição dessa natureza. O Comitê Olímpico já tem mais de 100 anos, completados em 1996, e veja, na época será 2016, o que seriam 120 anos. E o Brasil terá, nesta ocasião, dentro do Comitê Olímpico – nós entramos para o Comitê Olímpico em 1914 – terá 102 anos. Os primeiros jogos olímpicos de que o Brasil participou foram os de Anvers (Antuérpia, Bélgica, em 1920). Nesses jogos olímpicos, no tiro ao alvo, nós tivemos uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze, com Guilherme Paraense, que era um capitão do Exército, e com o Afrânio Costa, que depois foi ministro e presidente do Superior Tribunal de Justiça. Veja a qualidade, o valor e a maneira como o Brasil e sua juventude sempre se entregaram a estes jogos olímpicos. E hoje vem evoluindo. Porque não se pode esquecer que a nossa juventude é imensa. E ela deve ser trabalhada.  É preciso oferecer alguma coisa a ela. E os jogos olímpicos são isso. Vêm 200 países e é o que eu disse: no mesmo dia chegam 50 mil pessoas e partem 50 mil pessoas. Quando chegou o momento de definição das cidades que ficariam para essa decisão final, em Atenas, há dois anos, houve um problema, pois o Brasil oferecia 28 mil quartos de hotéis e eram necessários 40 mil. O presidente Rogge (Jacques Rogge, presidente do COI) veio me falar e eu disse: o senhor não se preocupe. Neste momento eu lhe asseguro que ponho dez transatlânticos no Porto do Rio de Janeiro e cada um oferecerá acomodação para mil pessoas. Então, 10 mil com 28 mil são 38 mil. Dois mil, isso não terá problema. E com isso nós fomos aceitos. E não fazem favor. Em 92, nos jogos de Barcelona, os navios estavam no porto. Em 2000, em Sidney, na Austrália, os dez navios estavam lá. E depois, em Atenas, em 2004, os dez navios estavam lá. Se podem estar lá, podem estar aqui. E nós temos isso dentro desta região. Acho que nós estamos capacitados para oferecer à nossa juventude e demonstrar ao mundo a nossa evolução e o respeito que nós temos para com essa juventude.


Como o senhor vê o país depois da realização da Copa de 2014 e, possivelmente, dos Jogos Olímpicos de 2016?


João Havelange – Como presidente da Fifa eu presidi a Copa do Mundo da Argentina, da Espanha, do México, da Itália, dos Estados Unidos e da França. Então o que a gente vê é que há sempre uma evolução, porque com a chegada de uma copa do mundo é preciso fazer modificações que se postergariam se não fosse o evento. Mas o evento força essas transformações e, ao dar essa oportunidade, serve-se a uma coletividade. E aí eu volto ao benefício que tudo isso aporta depois dos jogos. Veja a importância de realizar competições deste valor, desta natureza. É um benefício não para vocês, não para mim, mas para a juventude. É com o pensamento nela que devemos trabalhar.

Leia mais

Rolar para cima