A economia brasileira e a crise
Ernane Galvêas
Consultor econômico da CNC
A crise global, iniciada com as trapaças financeiras nos Estados Unidos e na Europa, acabou batendo forte na economia brasileira. Primeiro, foi a queda na demanda mundial por combustíveis, matérias primas (minérios, celulose, etc) e alimentos (principalmente soja), com a conseqüente queda nos preços.
A economia brasileira e a crise
Ernane Galvêas
Consultor econômico da CNC
A crise global, iniciada com as trapaças financeiras nos Estados Unidos e na Europa, acabou batendo forte na economia brasileira. Primeiro, foi a queda na demanda mundial por combustíveis, matérias primas (minérios, celulose, etc) e alimentos (principalmente soja), com a conseqüente queda nos preços. Em seguida veio a brutal queda na cotação das ações na Bolsa, produzindo uma colossal perda no patrimônio dos investidores, com fuga de capitais estrangeiros. Agora, é a vez da retração dos investimentos privados, com o adiamento de projetos avaliados em R$ 65 bilhões, no período de 2009/2012. O resultado final é o desemprego da mão-de-obra. Em dezembro/08, estima-se que ficaram desempregados 654 mil trabalhadores. Somente o adiamento dos projetos de investimento vai deixar de gerar 70 mil empregos.
Para agravar a situação, a produção agrícola de grãos deverá sofrer uma enorme queda de 9% na safra 2008/09, comparada com a safra anterior, após ter crescido 5,3% na safra 2007/08. A produção industrial já deu sinais de importantes quedas na mineração e na siderurgia, não só devido à retração mundial, mas também pela redução da demanda no mercado interno, principalmente na indústria automobilística e no mercado imobiliário.
A última linha a ser afetada é o comércio que, entretanto, já vem perdendo força desde outubro/08, no setor varejista. A área dos serviços, provavelmente, será pouco afetada, e o setor turismo pode ganhar no mercado interno o que poderá perder no campo externo.
Quanto tempo vai durar essa recessão ninguém sabe. Poderá durar entre um e quatro anos, dependendo da recuperação dos Estados Unidos e da China. No Brasil, a prova dos noves da recuperação vai depender do Governo, de sua capacidade de reduzir os gastos de custeio e ampliar, decididamente, os investimentos do PAC, no melhor estilo da velha receita do New Deal dos anos 30. O equilíbrio das contas do setor público vai ser essencial, para não gerar pressões inflacionárias, que complicariam a execução das medidas anticíclicas. Atenção ao Banco Central e à sua tendência genética de estragar o jogo.
Riscos de desequilíbrio econômico
O diagnóstico da crise no Brasil não está totalmente claro. Ao que tudo indica, há uma redução da demanda na indústria automobilística e no mercado imobiliário, conjugada com a queda da demanda e das cotações no mercado internacional, que afetaram a mineração, a siderurgia, a indústria de papel e celulose, assim como a produção de combustíveis (petróleo e álcool). Em função desses acontecimentos, o sistema financeiro encolheu, a partir da suspensão das linhas de crédito dos grandes bancos internacionais. A Bolsa de Valores despencou fragorosamente e paralisou o mercado de capitais. O capítulo seguinte, que já começou, é o desemprego da mão-de-obra.
Dessa forma, não se pode concluir que a crise, no Brasil, é de redução do crédito (liquidez) ou de confiança, como acontece nos Estados Unidos e na Europa. As soluções, portanto, devem ser diferentes, lá e aqui.
A economia brasileira, nos últimos cinco anos e até outubro de 2008, experimentou um forte crescimento, devido a fatores externos. O País ficou mais rico, comprou mais automóveis, televisões, geladeiras, celulares. Essa fase acabou. Agora, o Brasil vai ficar mais pobre com a crise e o Governo deve adotar medidas, fiscais e monetárias, para amenizar seus efeitos. Mas não pode exagerar.
Os brasileiros não podem comprar mais 25% de automóveis a cada ano e, assim, haverá um ajuste natural no mercado, com queda na produção de aço e no emprego. Repetimos: é um ajuste natural, para nos adaptarmos à fase descendente do ciclo econômico. Isto não quer dizer que o Governo deva ficar imóvel, pois há uma saída lógica, na área dos investimentos, especialmente na infra-estrutura, assim como na reconstrução das áreas destruídas pelas chuvas, ultimamente. Por isso, a ação do Governo, mobilizando todos os recursos disponíveis, deve se concentrar na expansão do crédito para os investimentos e não para o consumo. A idéia de estatizar os bancos privados é um non sense. O que não falta no Brasil são bancos públicos.
Não há porque obrigar o consumidor a comprar, nem a empresa a contratar, nem os bancos a emprestar. O mercado tem a sua própria sabedoria e todos sabem que, nesta conjuntura de crise, o reajuste da demanda e da produção é uma questão natural. Não adianta forçar. O mercado deve ser estimulado, não coagido. O Governo precisa saber o que está fazendo.
Isto posto, não se pode forçar as soluções e fomentar uma expansão do consumo pela via da expansão do crédito ou da liberalidade da política fiscal. Os resultados podem ser ruins, podem levar a uma perigosa pressão inflacionária ou a um agravamento das contas públicas.
Não se pode ir com “muita sede ao pote”. A saída da recessão tem que ser por um caminho natural e não artificial.