Tentáculos dos alimentos caros

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O Globo    Editoria: Economia      Página: 36


Aescalada dos preços dos alimentos, acentuada nas últimas semanas, põe em xeque não apenas a meta de inflação do país. Comerciantes, economistas e bancos alertam que o maior comprometimento da renda das famílias de menor poder aquisitivo — nas quais a alimentação consome até um terço das despesas mensais — pode ter reflexos no nível de inadimplência e no ímpeto de compra dos brasileiros.

O Globo    Editoria: Economia      Página: 36


Aescalada dos preços dos alimentos, acentuada nas últimas semanas, põe em xeque não apenas a meta de inflação do país. Comerciantes, economistas e bancos alertam que o maior comprometimento da renda das famílias de menor poder aquisitivo — nas quais a alimentação consome até um terço das despesas mensais — pode ter reflexos no nível de inadimplência e no ímpeto de compra dos brasileiros. Este seria um golpe no atual ciclo de crescimento econômico, inflado há mais de dois anos pelo aquecido consumo doméstico.


O avanço dos preços de arroz, feijão, pães e massas tende a elevar os gastos nos supermercados, reduzindo a folga orçamentária para comprar bens duráveis (como eletrodomésticos), vestuário e até gêneros alimentícios supérfluos, como iogurte e refrigerantes.


Também pode abocanhar parte do salário reservada à quitação dos financiamentos contraídos nos últimos tempos de bonança. Estes são marcados por estabilidade, ganhos salariais e queda de juros, beneficiando especialmente quem recebe até seis salários mínimos por mês. Com isso, essas famílias se endividaram mais.


Cerca de 20 milhões de novos consumidores entraram no mercado de crédito nos últimos dois anos, basicamente de baixa renda. Agora, é preciso ter mais cautela na concessão de crédito — reconhece o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo.


A manicure Maria Batista Brito já sente o aperto. Para manter a mesma lista de compras sem gastar muito, ela teve de trocar itens como arroz, feijão e açúcar de marcas conhecidas por outras mais baratas. Maria gasta R$200 por mês em sua casa, onde mora com o marido, e R$80 por quinzena com as compras de alimentos para a casa de sua mãe:


Se continuasse comprando produtos de marca gastaria, no mínimo, R$50 a mais. O pacote de cinco quilos de arroz de marca conhecida custa R$11, e o de marca própria, R$7. Ainda está caro, mas já é uma economia.


Recorrer a promoções é a saída para redes supermercadistas, principalmente as voltadas para as classes B, C e D, atraírem clientes e, assim, driblarem a perda de receita. Ronaldo Teixeira, diretor da RedeEconomia, com 50 lojas no Rio, diz que o arroz é um dos itens que entraram na lista de substituições do consumidor:


Produtos em promoção são os mais vendidos, e a saída para chamar a atenção do cliente. Além do arroz, iogurte, açúcar e leite longa vida são trocados pelos de menor preço.


Genival de Souza, diretor do Prezunic, diz que os reajustes chegaram a todas as categorias de produtos, e que as tabelas de fornecedores estão com até 10% de alta para o varejista:


Estamos tentando não repassar ao consumidor. Mas em algum momento isso acontecerá. A maior dificuldade é renovar promoções, pois elas tornam a loja atraente. É preciso negociar muito com fornecedores.


Calote aumentou no primeiro trimestre


Segundo o assessor econômico da empresa de análise de crédito Serasa, Carlos Henrique de Almeida, já se vê uma inadimplência maior: alta de 6,5% no primeiro trimestre do ano, contra 1,2% em igual período de 2007:


Aumento de preços significa mais para as classes de renda baixa e pode gerar mais inadimplência.


A manicure Maria também se enquadra nesse perfil. Ela já está com duas parcelas do computador comprado recentemente atrasadas. Pretende renegociar a dívida com a loja.


Os dados da inflação medida pelo IPCA, do IBGE, mostram reajustes de alimentos acima do previsto. Entre janeiro e março, o feijão subiu 46,06%; tomate, 56,72%; óleo de soja, 25,47%; e massas e pães, 6,20%. Na prévia de abril, a pressão continua: a inflação dos alimentos atingiu 1,28%, o triplo da alta em março (0,40%).


Os preços dos alimentos mudaram de patamar — diz a coordenadora do Núcleo de Preços do IBGE, Eulina Nunes, lembrando que, em 2007, houve alta de 10,79%.


Pelas contas do economista-chefe da Concórdia, Elson Teles, os preços dos alimentos e bebidas subirão 9% em 2008, quase o dobro do previsto no início do ano. Problemas climáticos no mundo e possibilidade de escassez estão encarecendo as commodities:


As pessoas vão ter de olhar para o orçamento. Não dá para parar de comer, mas de comprar roupas e eletrodomésticos — diz Teles.


Outro efeito, para a inadimplência e o consumo, é a retomada da alta dos juros. No dia 16, o BC elevou a Taxa Selic de 11,25% para 11,75% ao ano e, para o mercado, ela pode fechar 2008 acima de 13%.


Esses efeitos (inflação e juros maiores) afetam a população de renda menor, diminuindo o consumo. Mas pode haver mais inadimplência. Estamos em alerta — diz Maércio Soncini, diretor da Associação Brasileira de Bancos (de pequeno e médio portes).


O problema maior são os juros elevados — concorda o coordenador do Núcleo Econômico da Fecomércio-Rio, João Carlos Gomes.


Com os alimentos mais caros, a saída é rever o orçamento e poupar para comprar à vista. Se não der, o vice-presidente da Anefac (associação de executivos de finanças), Miguel Oliveira, aconselha as pessoas a colocarem no papel o custo de empréstimos e ver se cabem no bolso.


 


 


 


 

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