País tem apenas 1,2% do comércio global

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Folha de São Paulo  Editoria: Dinheiro  Página: B-5


O comércio exterior brasileiro cresceu mais nos dois primeiros meses de 2008 que o das maiores economias do mundo, graças ao aumento da demanda interna e das altas nos preços das matérias-primas. O crescimento das importações foi particularmente alto, de 56% em relação ao mesmo período do ano passado.


As exportações cresceram menos no bimestre, mas o aumento de 24% ainda é maior do que o registrado por gigantes como Estados Unidos (20%), China (17%), Alemanha (23%) e Japão (22%).

Folha de São Paulo  Editoria: Dinheiro  Página: B-5


O comércio exterior brasileiro cresceu mais nos dois primeiros meses de 2008 que o das maiores economias do mundo, graças ao aumento da demanda interna e das altas nos preços das matérias-primas. O crescimento das importações foi particularmente alto, de 56% em relação ao mesmo período do ano passado.


As exportações cresceram menos no bimestre, mas o aumento de 24% ainda é maior do que o registrado por gigantes como Estados Unidos (20%), China (17%), Alemanha (23%) e Japão (22%). O baixo número da China tem motivos sazonais, explicaram os economistas da OMC (Organização Mundial do Comércio), pois registra a virada do ano, quando a atividade econômica diminui no país.


Em 2007, segundo estudo da OMC, as exportações do Brasil cresceram 17%, com volume de US$ 161 bilhões. O desempenho fez o país subir uma posição no ranking mundial, para o 23º lugar, mas o colocou na lanterna entre os chamados Brics (principais economias emergentes).


As exportações da China cresceram 26% no ano passado, as da Índia, 20%. O Brasil empatou com a Rússia.


O desempenho brasileiro nas exportações também foi um pouco pior que a média dos países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), que chegou a 18%.


A fatia ocupada pelos produtos brasileiros no mercado mundial não passa de 1,2%, inferior à de países bem menores, como Holanda (4%), Bélgica (3,1%) e Coréia do Sul (2,7%). Para Michael Finger, economista sênior da OMC, o lento crescimento da participação brasileira no comércio mundial tem razões históricas, principalmente a concentração no setor de matéria-prima.


“Para ampliar a sua fatia, o país teria que investir mais em produtos manufaturados, como fez a Coréia”, diz Finger.


Aquecimento interno


Os números da OMC confirmam o aquecimento da demanda interna do Brasil nos últimos meses, que alavancou o crescimento e protegeu o país das turbulências mundiais -mas também despertou os temores inflacionários que levaram o Banco Central a elevar os juros em 0,5 ponto anteontem.


Os dois primeiros meses deste ano prosseguem a tendência observada em 2007, quando as importações brasileiras tiveram crescimento de 32% em relação a 2006. Foi o maior aumento entre os países listados no estudo da OMC, com exceção da Rússia, cujas importações aumentaram 35%. No ranking mundial das importações, o Brasil ocupa o 27º lugar, com compras de US$ 127 bilhões (0,9% do total mundial).


Os países desenvolvidos investem justamente no aumento da demanda interna nos países em desenvolvimento, principalmente na China, para compensar os efeitos da desaceleração em suas economias.


Em 2007, a queda no consumo no mundo desenvolvido reduziu o crescimento econômico mundial de 3,7% para 3,4%. No mesmo período, as regiões emergentes registraram crescimento próximo de 7%.


Transações globais devem ter a menor alta em seis anos 


Travado pela crise do crédito e pelo aumento nos preços das matérias-primas, o comércio mundial não deverá crescer mais que 4,5% em 2008, a menor taxa desde 2002. A previsão é do estudo divulgado ontem pela OMC. A Organização Mundial do Comércio antecipou que a taxa poderá ser “significativamente menor” se as turbulências do mercado financeiro se agravarem.


A desaceleração prevista para este ano acompanha a queda dos últimos três anos. Em 2007, o comércio mundial teve crescimento de 5,5%, contra 8,5% no ano anterior. “É uma queda e tanto”, reconheceu o economista-chefe da entidade, Patrick Low, antevendo piora ainda maior neste ano.


“Tivemos dificuldades para chegar a esse número porque há muita incerteza na economia mundial”, disse Low. “Provavelmente teremos que revisitar a estimativa no terceiro ou no quarto trimestre.” Ele acrescentou, porém, que a crise no mercado financeiro ainda não teve efeito direto na economia real do planeta.


Segundo a OMC, os países em desenvolvimento podem servir como “amortecedor” para a desaceleração mundial, já que devem continuar com crescimento robusto. A organização baseia em números do FMI a previsão de que as economias desenvolvidas crescerão em média 1,1% em 2008, enquanto as dos países em desenvolvimento, como o Brasil, terão expansão acima de 5%.


Mais de 40% do crescimento econômico mundial em 2007 foi produzido por países em desenvolvimento, lembra a OMC. A fatia desses países no mercado mundial (exportações e importações) atingiu o patamar de 34% no ano passado, um recorde.


A perspectiva de queda no comércio mundial, entretanto, mostra que esse crescimento não será suficiente para compensar a desaceleração nos países desenvolvidos, principalmente nos EUA, há meses à beira da recessão. A previsão é que a economia mundial cresça 2,6% neste ano, contra 3,4% em 2007 e 3,7% em 2006.


O mundo inteiro sofre com a queda na demanda nos países desenvolvidos. Nos EUA, aponta a OMC, as importações aumentaram apenas 1% em volume em 2007, a menor taxa em seis anos.


“São tempos de incerteza e dificuldades para a economia global”, disse o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy. “As turbulências nos mercados financeiros, o significativo aumento de preços e a desaceleração das economias desenvolvidas não levaram ao rompimento do comércio. Mas as pressões protecionistas estão crescendo.”


Para Patrick Low, as dificuldades da economia mundial aumentam a urgência da Rodada Doha, bloqueada pela resistência em baixar tarifas industriais e reduzir subsídios agrícolas.




 


 

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