Gestão do “tripé econômico” segue polêmica

Compartilhe:

Valor Econômico    Editoria: Brasil      Página: A-4


O Brasil cresce a um passo firme, com forte alta do investimento, mas o dólar barato e seu impacto sobre as contas externas mantêm aceso o debate sobre a gestão do modelo macroeconômico em vigor desde 1999, baseado no tripé formado por câmbio flutuante, regime de metas inflacionárias e elevados superávits primários.

Valor Econômico    Editoria: Brasil      Página: A-4


O Brasil cresce a um passo firme, com forte alta do investimento, mas o dólar barato e seu impacto sobre as contas externas mantêm aceso o debate sobre a gestão do modelo macroeconômico em vigor desde 1999, baseado no tripé formado por câmbio flutuante, regime de metas inflacionárias e elevados superávits primários. Enquanto os economistas ortodoxos celebram o recente desempenho da economia, que concilia expansão robusta do PIB com o cumprimento das metas de inflação, os desenvolvimentistas mostram preocupação com a valorização do real, tida como conseqüência dos juros altos. 


O ex-ministro Edward Amadeo, sócio da Gávea Investimentos, faz grandes elogios ao modelo brasileiro. Para ele, o país tem mostrado uma combinação favorável de crescimento e inflação, sem recorrer a expedientes que criam distorções e artificialismos. Amadeo vê com maus olhos a experiência da Argentina. Com meta para o câmbio, o país vizinho tributa as exportações e subsidia o consumo doméstico, sofrendo hoje com uma inflação alta – e manipulada – e falta de produtos como a carne. “O Brasil não tem essas interferências, que geram uma alívio temporário, mas podem se transformar em situações potencialmente catastróficas.” Para Amadeo, a política fiscal poderia ser mais dura, o que permitiria que a política monetária fosse menos apertada – mas não necessariamente evitaria a alta dos juros – e abriria espaço para um câmbio mais desvalorizado. 


O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira é bem mais crítico. Para ele, o tripé que o Brasil deveria adotar consiste na combinação de política fiscal dura, juros moderados e câmbio competitivo, similar à adotada pelo Japão no pós-guerra. “Mas o Brasil tem feito o oposto disso: o ajuste fiscal é frouxo, os juros são altíssimos e o câmbio é extremamente valorizado.” 


Para Bresser, a correção desses problemas passa pela adoção de um câmbio competitivo – “como fazem os argentinos e os chineses” – e pela contenção dos gastos de custeio. O controle de despesas é fundamental para evitar maiores pressões inflacionárias, já que um real mais depreciado teria algum impacto sobre os índices de preços. Com isso, os juros poderiam cair para patamares mais civilizados, dize ele. 


Para Bresser, o país deve manter uma taxa de câmbio mais competitiva para evitar problemas no balanço de pagamentos e não prejudicar setores exportadores de manufaturados. Ele avalia que a Argentina tem uma situação inflacionária “desagradável” , mas acredita que o país vai “enfrentar os problemas e resolvê-los”. “É melhor do que ter uma taxa de câmbio valorizada, que destina o país a não crescer no longo prazo”. Bresser diz que não é necessário jogar fora o regime de metas de inflação para adotar a sua estratégia de política econômica – o que é preciso é mais flexibilidade na condução do sistema. 


O professor José Luiz Oreiro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é favorável justamente a uma flexibilização do regime de metas para países emergentes como o Brasil. A meta não deve ser fixada para o ano-calendário, mas para um prazo mais longo, de 18 a 24 meses, diz ele. Além disso, Oreiro propõe que o BC persiga alguma medida de núcleo da inflação – que excluem alguns itens, como preços administrados e alimentos – e não o índice “cheio”. Ele diz ainda que é importante reduzir o grau de abertura da conta de capitais, adotando instrumentos de controle dos fluxos de capital para o país. “Com isso, seria possível ter uma meta para a inflação e uma meta para a taxa de câmbio, e os juros podem ser mais baixos.” 


Para Oreiro, um câmbio excessivamente valorizado, como o brasileiro, é prejudicial para o crescimento de longo prazo. Ele também defende uma política fiscal mais dura nessa fase de transição, uma vez que o ambiente formado por juros mais baixos e câmbio mais desvalorizado teria impacto inflacionário. “Num cenário de crescimento acelerado da demanda como o atual, é necessário conter o ritmo de expansão dos gastos correntes”, afirma Oreiro. 


O diretor de Economia e Renda Fixa da Unibanco Asset Management (UAM), Alexandre Mathias, se alinha com Amadeo, não vendo motivos para criticar o tripé macroeconômico adotado desde 1999. “Nós temos o melhor mix de política econômica possível, e ele está na raiz de tudo de bom que nós estamos vivendo. Mudá-lo é querer fazer plástica na Gisele Bündchen.” 


Para ele, o regime de metas de inflação permitiu a queda dos índices de preços para níveis mais civilizados e o câmbio flutuante possibilita uma dinâmica saudável para o balanço de pagamentos. “O modelo de câmbio fixo ou administrado é que causa crise nas contas externas.


Com o câmbio flutuante, reservas de US$ 200 bilhões e investimentos estrangeiros diretos de US$ 30 bilhões por ano, eu não vejo como um pequeno déficit em conta corrente como o atual possa se transformar numa crise do balanço de pagamentos.” 


Mathias também acha que a política fiscal poderia ser de melhor qualidade, o que possibilitaria que os juros fossem mais baixos e o câmbio, mais desvalorizado. Ele rechaça a idéia, porém, de adotar alguma meta para o câmbio, vendo a experiência do país vizinho como um exemplo a não ser seguido. “Alguém quer aqui a situação da Argentina? A inflação está em 25%, falta carne e o país não tem energia.” 


País precisa evitar otimismo exagerado, diz Lula


No mesmo dia em que lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio Grande do Sul como o “primeiro grande programa de investimentos em infra-estrutura neste país desde 1975” – ano de criação do 2º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), no governo Ernesto Geisel -, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que o Brasil não pode ficar “exagerando no otimismo”, em função dos riscos de contágio da crise da economia dos EUA. 


Às vésperas da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que pode elevar a taxa básica de juros, o presidente voltou a fazer referência ao risco de descompasso entre o aumento do consumo e da produção. “Temos que ter um controle constante para não permitir que a inflação volte, porque quando a inflação volta só ganham os especuladores, e quem perde muito são os trabalhadores assalariados.” 


Na terça-feira, em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Lula já havia adotado um discurso mais cauteloso em relação à capacidade do país de sair ileso da desaceleração americana. Ontem, na cidade de Rio Grande, ele afirmou que o momento requer “muita serenidade” para evitar a contaminação da economia brasileira. “O projeto do Brasil não está pronto ainda. Tem muita coisa a ser feita. É preciso muito investimento.” 


Lula negou que esteja tirando proveito político do PAC. Lembrou que a eleição presidencial é só em 2010 e que ele não está em campanha, porque “a Constituição determina apenas dois mandatos (para presidente)”. Em Porto Alegre, ele chegou a dizer que estava “pisando em ovos”, porque quase todos os candidatos à prefeitura neste ano são de partidos que fazem parte da base do governo no Congresso e ele não poderia “apoiar um e deixar o outro zangado”. 


Na solenidade na capital gaúcha o presidente fez um desagravo à governadora Yeda Crusius (PSDB), que estava no palanque reservado às autoridades e foi vaiada diversas vezes. “Eu ainda tenho que visitar muitos Estados para lançar o PAC e se a gente transformar o programa em uma manifestação político-partidária, quando é um ato institucional, vou ter muitas dificuldades em completar as viagens que tenho de fazer.” 


De acordo com Lula, se os governo federal, estaduais e municipais não trabalharem juntos, superando as “diferenças políticas”, os investimentos não serão realizados. ” O dia em que a governadora e os prefeitos não quiserem fazer acordo comigo, posso ter o dinheiro, mas não poderei aplicar, porque não sou eu quem vai executar.” Na solenidade estavam Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça), Nelson Jobim (Defesa), Márcio Fortes (Cidades) e Fernando Haddad (Educação), além de prefeitos, deputados e senadores. 


Segundo Dilma, o PAC prevê R$ 16 bilhões para o Rio Grande do Sul, incluindo projetos de infra-estrutura, saneamento, habitação e urbanização. Ontem, em Porto Alegre, foram assinadas ordens de serviço para obras em 15 cidades, para o lançamento do programa de bolsa-formação para policiais e para a doação de equipamentos destinados à montagem de telecentros nos municípios gaúchos. 


Pela manhã a comitiva visitou a construção da plataforma P-53 da Petrobras em Rio Grande. O grupo conheceu ainda as obras do dique-seco, que ficará pronto em fevereiro de 2009 e será destinado à construção, reforma e reparação de plataformas de exploração e produção de petróleo, com investimento de R$ 439 milhões. O casco da P-55 será construído entre 2009 e 2011, disse o presidente da estatal, José Sergio Gabrielli. 


Gabrielli também anunciou a instalação, no dique-seco, da primeira linha de montagem em série de cascos para plataformas oceânicas. O investimento dependerá do número de unidades que serão necessárias para atender aos programas de exploração e produção da Petrobras, mas irá garantir a operação permanente das instalações, disse o presidente da estatal. Segundo ele, os cascos serão construídos mediante licitação e custam em média US$ 400 milhões cada. 


Segundo o diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, o primeiro casco deve demorar 36 meses para ser construído, mas a partir daí, o prazo de construção deve cair para oito meses.


Ele explicou que hoje esses navios (que depois recebem os módulos, ou topsides) são importados principalmente de Cingapura, a um custo de US$ 300 milhões a US$ 350 milhões, e a expectativa de Duque é que o preço comece a baixar.


 




 


 


 

Leia mais

Rolar para cima