Produtividade em alta alivia pressão sobre preços

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O Globo  Editoria: Economia  Página: 37


Em meio às crescentes preocupações do Banco Central (BC) – e até do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – com os riscos de alta na inflação, economistas chamam a atenção para uma mudança na estrutura produtiva da economia brasileira que, silenciosamente, pode aliviar as pressões sobre os preços. Trata-se de um ganho cada vez maior de produtividade por parte de fábricas, lojas e setor agrícola.

O Globo  Editoria: Economia  Página: 37


Em meio às crescentes preocupações do Banco Central (BC) – e até do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – com os riscos de alta na inflação, economistas chamam a atenção para uma mudança na estrutura produtiva da economia brasileira que, silenciosamente, pode aliviar as pressões sobre os preços. Trata-se de um ganho cada vez maior de produtividade por parte de fábricas, lojas e setor agrícola. Fruto de anos de abertura comercial, da conquista paulatina de estabilidade econômica e, recentemente, da retomada de um crescimento mais acelerado.

 

O banco Credit Suisse estima que a produtividade brasileira cresceu ao menos 1,5% no ano passado. Parece pouco, mas é a maior taxa em uma década. A LCA Consultores calcula que a expansão da produtividade, em 2007, foi ainda maior, de 1,7%, com base nos recentes dados do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto dos bens e serviços produzidos no país), que cresceu 5,4% no ano passado.

 

O economista Francisco Faria, da LCA, avalia que só esses ganhos de produtividade explicam como a economia brasileira cresceu tanto no ano passado sem gerar, até agora, descontrole da inflação ou reduções expressivas no saldo comercial.

 

– Sem isso (a produtividade), a equação não fecha – diz.

 

O avanço na produtividade, acrescenta Faria, é um dos motivos que permitiu a expansão de 6% da indústria no ano passado, mesmo diante de uma queda de quase 17% no dólar, que, de outro modo, prejudicaria mais as exportações.

 

Nilson Teixeira, do Credit Suisse, lembra que houve, recentemente, uma modernização das indústrias com o aumento das importações de máquinas e equipamentos, em parte propiciado pelo dólar baixo. Segundo dados da Abimaq, a associação do setor, o consumo doméstico de máquinas e equipamentos (ou seja, produção local mais as importações, descontadas as exportações) cresceu 18,7% em 2007. Em janeiro deste ano, o avanço foi ainda maior: 46%.

 

Teixeira destaca ainda que os ganhos de produtividade aumentaram também graças a uma maior oferta de crédito para as empresas e à contínua estabilidade da economia:

 

– A inflação estável faz com que o orçamento para investimentos não oscile muito. A previsibilidade da economia, associada ao maior crescimento, leva as empresas a planejarem mais a longo prazo.

 

Economistas divergem sobre necessidade de subir juros

 

Teixeira acrescenta que, com a produtividade maior, aumenta o PIB potencial da economia, ou seja, a folga para o país crescer sem pressões inflacionárias. Mas, para Aurélio Bicalho, do Itaú, mesmo com os ganhos recentes de produtividade, a forte expansão do PIB no ano passado e, principalmente, sua aceleração no último trimestre, não parecem compatíveis com as condições de oferta da economia – assim, há riscos de inflação. Por isso, Bicalho acredita que o BC poderá subir a taxa básica de juros.

 

Aloisio Campelo Junior, da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que, além de terem investido muito em 2007, as empresas estão com dinheiro em caixa e, por isso, têm capacidade para mais investimentos este ano. E ressalta que, em janeiro e fevereiro, o nível de utilização da capacidade instalada na indústria arrefeceu, num sinal de maturação de investimentos passados. Por isso, na sua avaliação, o BC pode esperar mais um pouco antes de subir juros.


Lula: inflação é doença desgraçada

 

Um dia depois da divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que indicou a possibilidade de aumento dos juros para conter a inflação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o consumo interno não pode superar a capacidade produtiva do país, sob risco da volta “daquela doença desgraçada da inflação”. Para Lula, o poder de compra do brasileiro deve ser compatível com o investimento industrial.


O Brasil pode crescer 3%, 4%, 5%, quanto a economia suportar, mas temos de ter um cuidado com o consumo, que não pode superar a cadeia produtiva do país, porque se cresce muito o consumo e a indústria não investe, não renova fábricas e não renova a produção, a gente tem de volta aquela velha doença desgraçada, que é a inflação – disse o presidente, durante lançamento de obras de saneamento básico em Araraquara (interior de São Paulo), previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).


Lula, que não fez menção em seu discurso à ata do Copom ou à possibilidade de aumento de juros, também rebateu críticas feitas ao pacote cambial anunciado quarta-feira. Segundo ele, tais medidas só terão efeito a médio ou longo prazo e, por isso, o país deveria aguardar os primeiros resultados antes de abrir fogo contra o governo.


Não existem medidas cambiais imediatas. Elas foram anunciadas anteontem (quarta-feira) e creio que as pessoas nem sabem ainda (dos detalhes). Isso é um processo e ainda vai surtir efeito. É como uma dor de cabeça. Você não melhora quando toma um comprimido, vai ter que esperar meia hora ou 40 minutos para fazer efeito – disse ele, para quem as medidas são apenas preventivas:


As medidas que tomamos são de prevenção para facilitar, e não para inibir o crescimento e o desenvolvimento do Brasil.


Segundo Lula, a forte valorização do real frente ao dólar precisa ser enfrentada, sob pena de afetar o resultado da balança comercial:


Nós queremos melhorar a nossa capacidade de exportação, nós queremos trabalhar para que o real não fique tão valorizado, porque isso diminui a quantidade de produtos que nós exportamos.


 


 

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